Impunidade agrava drama da violência

Priscila Machado

 

A cerca de uma semana do julgamento dos acusados da morte da estudante Maria Cláudia Del'Isola,   o Jornal do Brasil inicia uma série de reportagens sobre as vítimas da violência no Distrito Federal. Histórias de jovens que foram tirados brutalmente da convivência de suas famílias.

Apesar do tempo, é grande a dor e a saudade dos pais e mães que perderam seus filhos. Ieda Vale, administradora de empresas, é uma dessas mães. No dia 6 de agosto de 2005, ela estava feliz, o filho caçula, Rodrigo, havia acabado de chegar da chácara da família, onde estava há cerca de um mês. Ela não sabia que aquele seria o último dia que teria a companhia do filho. Poucas horas depois, ao defender a namorada de uma tentativa de estupro durante um sequestro relâmpago, Rodrigo foi assassinado. Hoje, dos três responsáveis pelo crime, apenas um está preso, os outros estão foragidos da Justiça.

A mãe contou que Rodrigo era um jovem cheio de planos.

– Rodrigo era apaixonado pela profissão, pelos animais e pela natureza. Tinha se formado em Medicina Veterinária há cerca de seis meses, ele também tinha planos de se casar, namorava já há cinco anos – contou.

No dia 6 de agosto de 2005, Rodrigo chegou da fazenda às 19h30. Depois de passar um tempo com a mãe, ele resolveu sair com a namorada para ir a um barzinho.  

– Ele estava alegre. Conversamos muito, ele me contou tudo o que tinha feito na fazenda. Eu estava com muita saudade dele, ele sempre me fazia muita companhia. Ele fez um lanche e, por volta das 10 horas da noite, disse que ia sair com a namorada, mas que iria chegar cedo em casa porque estava cansado da viagem –   contou.

Rodrigo e a namorada, foram a um bar, na Asa Sul. Lá, eles encontraram um amigo de infância de Rodrigo, Guilherme. Por volta das 1h30, o casal decidiu voltar para casa. Mas, Guilherme estava sem carro, por isso Rodrigo ofereceu uma carona ao amigo.

Eles foram então para a 713 Sul, onde Guilherme morava. Mas, quando o jovem saiu do carro, os amigos foram abordados por dois homens armados. Os bandidos mandaram Guilherme entrar novamente no veículo e os levaram para o Pistão Norte de Taguatinga. Apesar de terem roubado todos os pertences das vítimas, os criminosos não libertaram os jovens.

Em Taguatinga, um terceiro integrante do grupo passou a seguir o carro em que os amigos eram mantidos reféns. Os bandidos seguiram para o km 90 da DF-001, caminho para Brazlândia. Lá, eles estacionaram o carro em um lugar ermo e amarraram Rodrigo e Guilherme.  

Um dos criminosos, Francisco Crisóstomo Barbosa, conhecido como França, 34 anos, tentou violentar sexualmente a namorada de Rodrigo. O jovem conseguiu se libertar e tentou impedir que a namorada fosse estuprada, mas Francisco disparou três tiros contra Rodrigo, que morreu na hora.  

Marinho Crisóstomo Barbosa, irmão de Francisco, e Genilson Alves de Souza também participaram do sequestro-relâmpago. Hoje, dois anos depois do crime, apenas Genilson está preso. Marinho e Francisco estão foragidos da Justiça.

Francisco chegou a ser preso pela polícia, mas fugiu. Em fevereiro desse ano ele era transportado no camburão do Departamento de Polícia Especializada (DPE) para o Fórum de Taguatinga, mas de maneira ainda não explicada pela polícia, conseguiu fugir. Os funcionários envolvidos com o transporte do preso foram afastados mas até hoje o criminoso não foi recapturado.

Na época em que matou Rodrigo, Francisco estava em condicional. Havia sido condenado por outro homicídio, mas, após cumprir parte da pena, já estava em liberdade. A irmã de Rodrigo, Veruschka, questiona o sistema penal.

– Uma pessoa que tira a vida de outra, pega a pena máxima, mas cumpre 1/3 da pena e pode ficar em liberdade. Precisamos rever o sistema penal brasileiro, que está super ultrapassado – disse.

A mãe, Ieda, também pede que a lei seja revista.
– Eles tiraram a vida do meu filho, causaram uma dor que não pode ser explicada.  Neste país, a maioria dos crimes é praticada por reincidentes e apenas a Justiça não vê isso. A morte do meu filho poderia ter sido evitada se o criminoso estivesse cumprindo pena integral, se não estivesse em condicional. O Estado também é responsável pela morte de Rodrigo, porque colocou um assassino em liberdade, sem critério, sem acompanhamento – disse.

(Jornal do Brasil, Caderno Brasília, edição de 4/11/2007)