A AGONIA DE MARIA CLÁUDIA

14/12/2004
João Rafael Torres e Renato Alves
Correio Braziliense

Estudante de 19 anos foi estuprada, esfaqueada e asfixiada antes de morrer. Acusado de praticar o crime fugiu para o interior da Bahia

Desde a morte do estudante João Cláudio Cardoso Leal, espancado em 2000, os brasilienses não se assustavam tanto com a violência. A cidade acordou ontem assombrada com o assassinato de Maria Cláudia de Siqueira Del’Isola, 19 anos. Ela foi encontrada morta, enterrada embaixo da escada da casa onde morava, na QL 6 do Lago Sul, domingo à noite. A jovem, que estava desaparecida desde a manhã de quinta-feira, sofreu estupro, esfaqueamento e asfixia.

  Os policiais que investigavam um suposto seqüestro, descobriram o corpo da estudante depois de sentir o mau cheiro na casa. A empregada doméstica Adriana de Jesus Santos, 20, que trabalhava e morava na casa de Maria Cláudia há dois anos, confessou a participação no crime na noite de domingo. Ela acusou outro empregado da casa, Bernardino do Espírito Santo, 30, de ser o mentor e executor. Até o fechamento dessa edição, ele estava foragido.

  Maria Cláudia ligou pela última vez para a mãe, Cristina Del’Isola, 46, por volta das 8h de quinta-feira. Avisou que iria para a Universidade de Brasília, onde estudava Pedagogia, e que deixaria o carro em casa e pegaria carona com uma amiga. A mãe estranhou porque Maria Cláudia não costumava sair sem o próprio carro, um Gol preto.

  Os pais da jovem só voltaram para casa às 12h30. No fim do almoço, por volta das 14h, um telefonema confirmava as suspeitas da mãe, de que algo estava errado. ‘‘Uma amiga de Maria Cláudia ligou. Queria saber por que ela não havia ido à faculdade’’, disse o delegado Antônio José Romeiro, titular da 10ª DP (Lago Sul).

Escutas telefônicas
Cristina estranhou a suposta mentira da filha, que costumava informar a família sobre os amigos que tinha e os locais onde freqüentava. A mãe ligou para outros amigos e ninguém soube informar o paradeiro de Maria Cláudia. Antes das 17h de quinta-feira, Cristina foi à 10ª DP registrar o desaparecimento da filha.

A primeira suspeita dos policiais foi de seqüestro, já que Maria Cláudia não havia retirado nenhum objeto de casa — que podia ser sinal de uma viagem de última hora. Agentes e delegados da Divisão de Operações Especiais (DOE) e do Serviço de Inteligência da Polícia Civil foram acionados para ajudar na investigação.

  No domingo pela manhã, policiais estiveram na casa de Maria Cláudia, para instalar escutas telefônicas. A família estava reunida na cozinha. À tarde, um agente da DOE desceu pela escada que dá acesso à piscina e área de serviço. ‘‘Ele estranhou um cheiro forte que exalava de dentro de um quarto, embaixo da escada’’, disse Romeiro. O pai da jovem explicou que usavam o local para depósito, e que o cheiro poderia vir de algum produto de limpeza ou de um rato morto.

  O policial pediu para que a porta do depósito fosse aberta. Se deparou com um monte de terra fofa e úmida, bem no pé da escada. Ao passar a mão para afastar a terra, sentiu o cadáver. Outros policiais foram chamados para ajudar na retirada do corpo.

  Maria Cláudia estava deitada de bruços, com os braços amarrados para trás, nua da cintura para cima, com uma saia e sem calcinha. Havia sinais de violência sexual no ânus e na vagina, onde foi encontrado sêmen. A cabeça, que estava voltada para a escada, tinha sido envolta por um saco plástico. Marcas no pescoço denunciavam estrangulamento.

  Enquanto isso, na cozinha, a empregada doméstica Adriana fazia café para os policiais que investigavam o caso. Ela e Bernardino consolaram a família com quem vivia, junto com o filho de cinco anos. Chegaram a participar das orações pela menina no sábado. Quando soube que o corpo foi localizado, Adriana começou a chorar. Abordada pelos investigadores, confessou o crime.
 

MARIA CLÁUDIA DE SIQUEIRA DEL’ISOLA,
19 anos

Morreu assassinada na quinta-feira dentro de casa, na QL 6 do Lago Sul

O corpo foi encontrado enterrado embaixo de uma escada.

Morava com os pais e a irmã de 21 anos

Estudava Psicologia no Uniceub e Pedagogia na UnB

O suspeito

Caseiro já esteve preso em Salvador
 
Bernardino fugiu de táxi para Feira de Santana: corrida custou R$ 1.700
 
    Bernardino do Espírito Santo Filho, 30 anos, morava na casa de Maria Cláudia de Siqueira Del’Isola, 19, há dois anos e dois meses. Veio de Salvador (BA) para trabalhar como caseiro para a família da jovem. De quinta-feira a domingo, trabalhou normalmente. Além de cuidar dos jardins, Bernardino — também chamado de Junior — fazia faxinas na casa. Sabia de todos os costumes, onde ficavam as chaves. Era, até então, um empregado de confiança, tanto que acompanhava Maria Cláudia quando ela aprendeu a dirigir.

  Por volta de 9h do domingo, Bernardino deixou a casa. Disse aos patrões que iria comprar iogurte. Para a doméstica Adriana de Jesus Santos, 20, com quem namorava e também trabalhava na casa, disse ainda que ia até a casa de um amigo no Guará. Não voltou mais.

  O empregado, que é o principal suspeito do assassinato de Maria Cláudia, teria fugido com R$ 2 mil — dinheiro que roubou de um cofre da vítima. Foi até a casa de uma outra amante, que está grávida de quatro meses, e lá deixou R$ 200. Ele colocou outros R$ 50 na bolsa de Adriana. O dinheiro que estava com as mulheres foi recuperado pela polícia.

  Com R$ 1.750, Bernardino tomou um táxi com destino à Bahia. O carro o levou até Feira de Santana. Acionada, a Polícia Rodoviária Federal interceptou o táxi, mas ele já havia terminado o percurso. De acordo com o taxista Willibaldo Souza Bento, que o levou até o local, Bernardino pagou R$ 1 mil adiantados para ser levado até a cidade baiana. Prometeu outros R$ 700 quando chegasse lá.

  Interrogada pela polícia, Adriana disse que o caseiro premeditou o crime. Segundo contou em depoimento, Bernardino levou uma semana para cavar o buraco onde enterraria o corpo de Maria Cláudia. A terra foi misturada com o lixo para que a família não desconfiasse das escavações.

  A empregada revelou também que a arma do crime foi escondida no sótão da casa juntamente com a bolsa da estudante. Do dinheiro roubado, Adriana ficou apenas com R$ 50. Além das economias de Maria Cláudia, Bernardino também ficou com o celular da vítima. Mas disse à cúmplice que não o usaria, para não ser rastreado pela polícia, caso a história fosse descoberta.

  Bernardino fugiu, mas deixou para trás, na casa dos patrões, seus documentos e a arma do crime. No quarto onde dormia, os policiais encontraram um mandado de soltura, expedido em 11 de maio de 1994 pela Justiça baiana. Ele estava preso na
penitenciária de Salvador por uma tentativa de homicídio contra uma mulher. (J.R.T. e R.A.)
 

A cúmplice

Adriana Santos conta, com frieza, como o assassinato foi planejado

Renato Alves e João Rafael Torres
 
Sem derramar uma lágrima, Adriana de Jesus Santos prestou depoimento de 50 minutos aos policiais do Lago Sul: namorada e co-autora do crime
 
  Durante toda a manhã de ontem, a empregada doméstica Adriana de Jesus Santos, 20 anos, reclamou por conta da pressão da algema no pulso esquerdo. Impaciente no banco de concreto da 10ª Delegacia de Polícia (Lago Sul), ela confessou aos repórteres a co-autoria no assassinato da estudante Maria Cláudia de Siqueira Del’Isola, de 19 anos — estuprada, esfaqueada e asfixiada, na manhã de quinta-feira.

  Com pés descalços, calça de lycra e camiseta, a empregada tentava se defender do assédio da imprensa e se irritava ao lembrar de Bernardino do Espírito Santos Filho, 30, acusado de ser o mentor do crime. ‘‘Não tinha nada contra essa menina. Por causa de um homem, minha vida se acabou. Fiz o que ele quis e agora estou sozinha, levando a culpa de tudo’’, defendeu-se.

  Mas em um segundo depoimento na 10ªDP, das 15h30 às 16h20 de ontem, ela contou, com requintes de detalhes, e sem derramar nenhuma lágrima, o crime macabro. E confessou a participação na emboscada e no assassinato. Por quê? ‘‘Ele falava que ela era bonita, que era gostosa. Me fazia ciúmes com isso. Uma vez disse que a pegaria, se ela desse mole. Isso me deixava irritada’’, contou a doméstica. ‘‘O Bernardino queria me dar metade do dinheiro roubado (R$ 2 mil). Mesmo assim, ele pegou R$ 50 e colocou na minha carteira. Disse que era para meu filho (de cinco anos).’’

  Bernardino e Adriana namoravam há pouco mais de dois anos. Mas ele tinha outra namorada, em Ceilândia, que está grávida de quatro meses. Adriana disse que só soube disso na madrugada de ontem, quando a mulher chegou à delegacia levada por policiais civis. Soube também que a outra namorada de Bernardino havia ganho R$ 200 do caseiro — parte do dinheiro roubado de Maria Cláudia.

  Adriana a e Bernardino se conheceram no interior da Bahia, onde nasceram. Ele veio de Salvador para Brasília há dois anos. ‘‘Dois meses depois, a dona Cristina (Del’Isola, mãe de Maria Cláudia) precisou de uma empregada. O Júnior (Bernardino) me recomendou e eu vim trabalhar na casa da família’’, lembrou a doméstica.

  Na casa dos patrões, além de um salário fixo e carteira assinada, eles ganharam abrigo. Ambos moravam em quartos próprios na casa da família, na QL 6 do Lago Sul. E eram muito bem tratados, segundo a própria Adriana. ‘‘Ela (Maria Cláudia) sempre foi boa pra mim e pro meu filho. Todos sempre foram bons patrões, me tratavam bem’’, disse. Leia a seguir o segundo depoimento de Adriana:
 
O AVISO
‘‘Na sexta-feira (dia 3), o Bernardino me disse: ‘Vou f… com a p… branquela da Maria Cláudia’. Ele falou que ela tinha uns R$ 1 mil a R$ 2 mil guardados no armário e que eu tinha que ajudá-lo no crime. Eu não sabia daquele dinheiro. Como ele é faxineiro, sabia de tudo que estava acontecendo na casa, onde ficavam todas as chaves.’’
 
O CIÚME
‘‘Eu sabia que ele gostava dela. Achava que ele tinha que ter respeito com a dona da casa e comigo. Eu tinha raiva e ciúmes por ela ser rica e bonita. Sentia-me humilhada por ser pobre e feia.’’

A TRAMA
‘‘Na quinta-feira de manhã, ele (Bernardino) me acordou às 6h para eu fazer o café e arrumar a mesa. Contou que vinha cavando o buraco há uma semana e que guardava a terra no carrinho de mão, para ninguém desconfiar.’’

O ÓDIO
‘‘Logo que eu levantei, o Bernardino falou: ‘É hoje que vou f… com a p…, v…, loira burra da Maria Cláudia que tira uma onda. A partir de hoje, ela não vai mais tirar onda. Você vai me ajudar a segurá-la enquanto eu f… e depois estupro.’’’

A ARMADILHA
‘‘Os pais dela (Maria Cláudia) saíram às 7h. Ela acordou às 8h e tomou o café. Quando ia pegar o carro, o Bernardino a chamou para uma conversa, no jardim, perto da piscina. Ele já tinha colocado uma sacola plástica sobre o freezer.’’
 
O BOTE
‘‘Eu segurava a fita crepe e uma corda. Ela falou para mim: ‘Dri (assim a vítima chamava a empregada), não faz isso não, pois ele (Bernardino) vai te prejudicar e a polícia vai te pegar.’ Aí eu coloquei a fita crepe na boca dela. Depois, amarramos as mãos delas, pra frente.’’
 
O ESTUPRO
‘‘A gente jogou a Maria Cláudia de barriga para cima. Tiramos a blusa, o sutiã e a calcinha dela. O Bernardino baixou as calças e eu segurei as pernas dela para ele fazer aquelas coisas. Depois, a gente colocou ela de costas. Ele fez aquelas coisas com ela de novo.’’
 
O HORROR
‘‘A Maria Cláudia chorava muito. Ela se debatia. Eu só xinguei ela uma vez, de branquela. Aí, o Bernardino deu um soco na cara dela e depois um chute nas costelas dela. Ela ficou desacordada. O Bernardino pegou a peixeira, que ele guardava no quarto e tinha o maior apego. Ele começou a cortar o rosto dela. Acertou o olho. Depois, cortou o peito e as pernas. Quando ele cortava, espirrava sangue.’’
 
O GOLPE FINAL
‘‘Eu bati no rosto dela e gritei: ‘Maria Cláudia, acorda!’ Acho que estava morta. O Bernardino pegou o saco plástico e pôs na cabeça dela. Depois, enrolou a corda no pescoço. Disse que era para o corpo não feder.’’
 
A COVA
‘‘O Bernardino pegou o corpo e arrastou até o buraco. Eu só empurrei o freezer, que estava na frente da porta. Atrás, estava o buraco. Ele colocou ela lá e depois jogou a terra, que estava no carrinho de mão.’’
 
A FRIEZA
‘‘O Bernardino disse que ia terminar o serviço sozinho. Ele mesmo limpou o chão. Pegou as roupas da Maria Cláudia e colocou no saco, depois levou tudo para fora e colocou no lixo da rua. Quando os pais dela chegaram (por volta das 12h30), ele foi na cozinha e falou que eu não deveria contar nada, porque eu tinha participado. Fiquei calada. Os patrões só sentiram falta da menina lá pelas 14h. Aí foram para a delegacia.’’
 
A DROGA
‘‘O Bernardino fumava maconha. No dia do crime, ele tinha ficado muito agressivo. Estava com os olhos vermelhos e suava muito. Fedia a maconha. Depois (do crime), começou a me tratar com ignorância. Como já tinha apanhado dele antes, resolvi ficar quieta.’’
 
A FUGA
‘‘O Bernardino saiu de casa no domingo de manhã. Disse que ia passear no Guará. Eu não falei nada do que tinha acontecido porque fiquei com medo da reação do Júnior (assim ela também chama Bernardino) porque estava com medo dele e da polícia. Ele disse pra
mim: ‘Se falar, vai dançar sozinha’.’’
 

A Investigação

Caseiro e doméstica serão indiciados por latrocínio, estupro e ocultação de cadáver

João Rafael Torres, Darse júnior e
Renato Alves
 
Maria Cláudia morava com os pais e a irmã em uma casa na QL 6 do Lago Sul: empregados trabalhavam com a família há dois anos e dois meses

 Até o corpo de Maria Cláudia de Siqueira Del’Isola, 19 anos, ser encontrado no domingo à tarde, os policiais tinham convicção de que ela havia sido seqüestrada ou partido para uma aventura juvenil. Investigadores das delegacias do Lago Sul (10ªDP), de Repressão a Sequestro e da Divisão de Inteligência da Polícia Civil buscavam pistas em Brasília, cidades do Entorno e até em Pirenópolis e na Chapada dos Veadeiros.

  Assim que acharam o corpo enterrado embaixo da escada da casa onde a jovem morava, na QL 6 do Lago Sul, os policiais perceberam um indício de que ela não havia saído da residência. Eles encontraram o chaveiro da jovem, onde estavam as chaves do carro e
da casa.

   Nos primeiros depoimentos, a família afastou a possibilidade de envolvimento dos empregados no crime. A doméstica Adriana de Jesus Santos, 20, e o caseiro Bernardino do Espírito Santo, 30, trabalhavam e moravam na casa da família há dois anos e dois meses. ‘‘Os patrões só falavam bem deles’’, ressaltou o delegado Antônio José Romeiro, titular da 10ªDP.

  No entanto, os agentes perceberam que a empregada apresentava versões desencontradas para os acontecimentos dos últimos dias. ‘‘Cada hora ela falava uma coisa diferente para um dos investigadores’’, disse Romeiro. Adriana chorava com a família o desaparecimento de Maria Cláudia.

  Mas Adriana resolveu se entregar quando o corpo da estudante foi encontrado. Ela mostrou aos policiais onde Bernardino guardava seus pertences. Entre os documentos do caseiro, foi encontrado um mandado de liberdade provisória, expedido em maio de 1994. Segundo levantamentos da polícia, ele esteve preso por uma tentativa de homicídio contra uma mulher. ‘‘Agora temos que saber se ele foi condenado pela tentativa de homicídio ou se cometeu outro crime’’, explicou o delegado. Adriana nunca havia sido presa nem respondia a qualquer processo.

Na manhã de domingo, antes do corpo ser encontrado, Bernardino fugiu de táxi para a Bahia. O Tempra vinho, placa JEL-2846 (DF), do taxista que transportou o principal suspeito do assassinato de Maria Cláudia foi interceptado pela Polícia Rodoviária Federal em Itaberaba (BA), na manhã de ontem. O motorista Willibaldo Souza Bento voltava para Brasília quando foi abordado pelos policiais às 7h30. Ele confirmou as características do passageiro que havia deixado horas antes no Hotel Avenida, em Feira de Santana (BA).

  Quando os agentes chegaram ao hotel, por volta das 8h, Bernardino havia fugido novamente. Dez policiais participam da operação de busca, mas ainda não conseguiram localizar o suspeito. O taxista prestou depoimento ainda pela manhã. Ele contou que a corrida custou R$ 1,7 mil e que deixou o caseiro na cidade baiana por volta das 4h30 da madrugada de ontem.

Prisão preventiva
Adriana entrou em contradição durante o primeiro depoimento, dado na 10ªDP, também na madrugada de ontem. Ela não sustentava uma versão única para os passos da família nos últimos dias. ‘‘Desconfiamos de que poderia ter algum envolvimento e resolvemos pedir a prisão preventiva dela’’, explicou o delegado Romeiro.

  No primeiro interrogatório, Adriana confessou participação na morte da estudante. Mas os detalhes do crime ela deu durante o segundo depoimento, à tarde. Contou como foi planejado e executado o crime.

  De acordo com Romeiro, Adriana e Bernardino serão indiciados por latrocínio (roubo seguido de morte), estupro e ocultação de cadáver. ‘‘Adriana também deverá ser indiciada pelos três crimes, já que ficou configurado que teve participação ativa durante todo o ato.’’ Juntos, os três crimes podem render 45 anos de cadeia. Mas a lei brasileira, só permite que uma pessoa fique presa por no máximo 30 anos.

Informações
Quem souber o paradeiro de Bernardino deve ligar para os telefones 364-3626 ou (75) 221-1866.
 

O que ela disse

A doméstica Adriana Santos relatou os últimos momentos da vítima

‘‘Eu tinha raiva e ciúmes por ela ser rica e bonita. Sentia-me humilhada por ser pobre e feia.’’

‘‘Ele falava que ela era bonita. Me fazia ciúmes com isso. Uma vez disse que a pegaria, se ela desse mole.’’

‘‘Ela (Maria Cláudia) sempre foi boa pra mim e pro meu filho. Todos sempre foram bons patrões.’’

‘‘Ela falou para mim: ‘Dri, não faz isso não, pois ele vai te prejudicar e a polícia vai te pegar’.’’
 

A vítima

Eleita meninaa-sorriso pelos amigos, a bela Maria Cláudia amava a vida

Marcelo Abreu

 
Animada e popular Maria Cláudia cursava dois cursos universitários
 Ela tinha pressa. Queria viver intensamente e ser feliz. Queria fazer e cultivar amigos. Queria se formar. Todos os planos seriam permitidos. Havia tempo, coragem e vontade para ser o que quisesse. Havia tempo para realizar todos os sonhos. Criar rotas. Mudar, refazer, construir e reconstruir. Mudar a própria vida quantas vezes fossem necessárias. Aos 19 anos, o tempo conspira a favor. Ela era dona da própria vida.

  Aos 17 anos, Maria Cláudia de Siqueira Del’Isola terminou o ensino fundamental, no Maristão, na 615 Sul. Estudou ali a vida inteira. Aprendeu, no lugar onde o pai é diretor e a mãe orientadora educacional, a fazer amigos. Nunca usou o fato de os pais serem influentes para obter vantagens. Pelo contrário. Exatamente por isso, esforçava-se mais. Estudava mais. Precisava dar exemplo. E tirou de letra todos os obstáculos criados por ser a filha do diretor da escola onde estudava.

  Passou nos vestibulares de Psicologia, no UniCeub, e de Pedagogia, na Universidade de Brasília (UnB). Aos 19 anos — completados em junho — vivia um momento especial de sua vida. A moça bonita, de cabelos castanhos claros, sorriso perfeito e cara ainda de menina, estava particularmente feliz. E havia apenas um motivo para tamanha felicidade: Maria Cláudia gostava da vida. Fartava-se dela. Embriagava-se pelo prazer de sentir-se viva. ‘Nunca vi ninguém com tamanha vontade de viver como ela’’, conta uma amiga da faculdade.

  No ano que vem, faria o 5º semestre de Psicologia e o 4º de Pedagogia. Estudava pela manhã e à noite. À tarde, ensinava crianças do maternal na Associação Cristã de Moços (ACM), na L2 Sul.

  Mas, antes do início das aulas de 2005, Maria Cláudia tinha um compromisso inadiável e instransponív
el: o carnaval em Salvador. Seus olhos brilhavam só de pensar na viagem. ‘‘Ela adorava axé music e não perdia uma Micarecandanga. Pulamos as três últimas de Brasília no Chiclete’’, conta uma das melhores amigas, Roberta D’Aguiar de Souza, de 19 anos.

  Maria Cláudia conheceu Roberta na 215 Sul, onde morou até há dois anos. Depois, mudou-se para a QL 6 do Lago Sul. ‘‘Éramos inseparáveis. Nos falávamos todos os dias por telefone’’, lembra a amiga.

  Na 215 Sul, adolescentes, Maria Cláudia e Roberta trocaram confidências. Dividiram medos. Os primeiros paqueras. Os primeiros ficantes. As primeiras descobertas. Formaram amigos virtuais. Criaram uma rede de relacionamentos na internet (leia reportagem abaixo). Multiplicaram as amizades. Na rede, virou a Tatinha, apelido com o qual os amigos, carinhosamente, chamavam-na.

  Maria Cláudia foi eleita a ‘menina-sorriso’ pelos amigos. ‘‘Ela estava sempre rindo. Quando chegava num lugar, alegrava o ambiente, falava com todo mundo e ria de tudo. Quando saía com ela, era uma coisa: ela parava para cumprimentar todo mundo’’, recorda-se Roberta. ‘‘Até na faculdade, no primeiro dia de aula, ela recebeu o título de garota-sorriso’’, revela uma amiga da Psicologia.
 
SIMPLICIDADE
  Maria Cláudia era a segunda e última filha do casal Marco Antônio Almeida Del’Isola, mineiro de 50 anos, e Cristina Maria Grangemon Siqueira Del’Isola, baiana de 46. A irmã mais velha, Maria Fernanda, 21, estudante de Arquitetura do UniCeub, também era sua confidente. Em alguns momentos, a caçula instigava Maria Fernanda, mais introvertida, a ir para a Micarecandanga, ao carnaval da Bahia, aos bares onde estavam os amigos. ‘‘Ela só queria dividir o prazer que tinha em viver com quem estava do seu lado’’, emociona-se um amigo.

  De temperamento extrovertido e comunicativa, Maria Cláudia era do tipo da pessoa que fazia questão de reunir pessoas. E o fazia com competência de quem realmente admirava o ser humano. ‘‘Ela gostava de agregar, reunir pessoas. Era a alegria em pessoa’’, atesta o tio Sérgio Diniz, de 55 anos.

  A menina que foi eleita como a garota-sorriso do UniCeub também gostava de crianças. Estudava Pedagogia para dar aulas. ‘‘Ela tinha vocação. As notas eram muito boas e tenho certeza de que seria uma excelente pedagoga’’, avalia um professor da UnB. Emocionado, o professor, que pediu para não ser identificado, deixou escapar: ‘‘O que me encantava nela era a simplicidade. Tratava todo mundo, do mais alto escalão ao mais humilde funcionário, da mesma forma. Acho que foi a pessoa mais simples que conheci na vida’’.
 
BRILHO DIFERENTE
  Há dois anos, os pais de Maria Cláudia mudaram-se da Asa Sul para o Lago Sul. Era o sonho de querer dar uma vida mais confortável para as duas filhas. Lá, num lugar mais espaçoso, elas poderiam reunir os amigos em volta da piscina, fazer churrascos, estar com a casa sempre cheia.

  Maria Cláudia, que crescera na 215 Sul, teve receio. ‘‘Ela disse que ia sentir muita saudade dos amigos da quadra’’, conta Roberta. Mas aceitou o novo endereço. Os amigos da Asa Sul continuaram seus amigos. Nada mudou. Rigorosamente nada. Maria Cláudia era fiel aos amigos e às pessoas de quem gostava. ‘‘Ela dizia que só tinha mudado de endereço. O coração e a cabeça continuavam na 215 Sul’’, diz um amigo.

  Há pouco tempo, Maria Cláudia tirou carteira de motorista. Estava felicíssima. Para comprar o carro, que ganhou dos pais há seis meses, andou muito. ‘‘Ela escolheu com muita calma. Afinal, era o primeiro carro’’, revela uma amiga. E, depois de muito escolher, optou por um Gol preto. Generosa, sentia prazer em dar carona aos amigos que não tinham carro. Fazia quase como devoção.

  No meio da tarde de ontem, no Campo da Esperança, Roberta, uma das melhores amigas, lembrou-se de Maria Cláudia com carinho. Chorou ao perceber que todos os sonhos da amiga foram brutalmente interrompidos. E como a vida pode estar sempre por um fio. ‘‘Eu tô vivendo um filme de terror. Isso não pode ser verdade. Até agora não tá sendo fácil acreditar’’, lamentou. E como em estado de letargia, Roberta desabafou: ‘‘Eu nunca vou esquecer do sorriso dela. A saudade vai me acompanhar pro resto da vida’’.

  Essa é a história de Maria Cláudia, uma moça de 19 anos que, antes de qualquer coisa, adorava viver. E compartilhava isso, todos os dias, com um sorriso escancarado de felicidade. Sorriso que enfeitiçava quem a conhecia. ‘‘Ela era especial. Tinha um brilho diferente nos olhos, na alegria de viver e na generosidade com que tratava as pessoas’’, encerra, comovida, uma amiga da Psicologia.
 

O desabafo na internet

“Não preciso falar o quanto você é querida por todos, e o quanto iremos sentir sua falta. Descanse em paz, pois Deus chamou de volta o anjo que havia mandado para Terra.”

"O senhor é o teu pastor, e nada te faltará…" descanse em paz.

“Maria Claudia…Mta paz! Gostaria de ter te conhecido pois ví o quanto vc é querida e doce mas infelizmente vc se foi da pior forma possível… Descanse em paz e que Deus de forças a sua família!Vou rezar por vc pra que agora esteja em um lugar de paz longe dessa violencia e desses montros que fizeram isso!”

“Que ela olhe por todos nós, de onde estiver… Paz e conforto aos familiares e amigos! E justiça!!!”

“Descanse em paz. Sei que vc virou um lindo anjo e que agora vai olhar por todos aki. Deus estará sempre ao lado de quem vc ama e vc tbm em forma de luz!!!”

“Tatinha anjinho, saiba q vc terá uma nova missão agora, estará orando e observando ai d cima.. super Beijo p vc.. e pode ter certeza q vc estará sempre em nossas lembranças, e d uma forma alegre, pois vc tinha uma simpatia contagiante.. super bju e aos familiares meus pêsames.”
 

A arma
Bernardino usou um facão tipo peixeira para matar Maria Cláudia
. A arma com cabo de madeira tem cerca de 40 centímetros. . O caseiro costumava usar o facão no trabalho de jardinagem. . Depois do crime, Bernardino escondeu a arma no sótão da casa. . Não havia manchas de sangue.

“Não esperávamos que os empregados estivessem envolvidos pelos depoimentos dos patrões e o fato de eles terem ficado na casa após o crime”

Antônio Romeiro, Delegado-titular da 10ª DP (Lago Sul)
 

Os amigos

Internautas usam a rede mundial para enviar mensagens a Maria Cláudia

Fabíola Góis e Aline Fonseca
Da equipe do Correio
Paulo H. Carvalho/CB
 
A CONFIDENTE
A dor pela perda da amiga ‘‘Eu nunca vou esquecer do sorriso dela. A saudade vai me acompanhar pro resto da vida’’
Roberta D’Aguiar de Souza, uma das melhores amigas de Maria Cláudia
 
   As mensagens co
meçaram antes de o dia amanhecer. Desde as primeiras notícias da morte da estudante Maria Cláudia Del’Isola, amigos, conhecidos e pessoas sensibilizadas usaram a internet para mandar recados comovidos para o Orkut — comunidade virtual e internacional de amizades. Os bilhetes foram escritos como se a jovem ainda estivesse viva e pudesse acessá-los. O perfil de Maria Cláudia (a página pessoal) ainda está ativo, e as mensagens não param de chegar.

  É na abertura do perfil que a própria jovem se apresenta: ‘‘Bom, não gosto muito de me descrever, mas sei lá. Acho que sou amiga, animada, e o resto deixo para quem me conhece falar!!’’ Na rede, Maria Cláudia diz que quer fazer amizades, vive com os pais, adora animais e gosta de se vestir de forma casual.

  Dentro do Orkut, a jovem integrava comunidades virtuais variadas, como ‘‘Eu amo a minha irmã!!’’ e ‘‘Eu amo bebês’’. Demonstrava o gosto por viagens, Psicologia, Pedagogia e se mostrava uma pessoa sensível. A jovem também integrava a comunidade da 215 Sul, quadra onde ela morou com os pais até dois anos atrás. Na lista de amigos, constam 325 nomes.

  Abaixo da apresentação de Maria Cláudia no Orkut, as melhores amigas tentam descrevê-la. ‘‘Vou resumir: lennnnta…hahahaha…mas q nada né tatinha, é um charme!!!!=) Tatinha é mto fofa, mta meiga, e mto passadinha…’’, diz uma das colegas mais próximas, revelando o apelido da estudante. Em outra descrição, uma jovem completa dizendo que ela é ‘‘a amiga mais alegre e sorridente que eu tenho! Mesmo em momentos difíceis, está sempre sorrindo!’’

  As mensagens para Tatinha, de condolências para a família, de indignação com o crime somavam 353 até as 20h50 de ontem (leia quadro acima). A última delas dizia: ‘‘Tristeza aqui, mas festa no céu, pois retornastes ao seu verdadeiro lar. Em espírito, estaremos unidos pelas janelas da alma, num intercâmbio abençoado, numa vibração suave de amor. Continue na sua jornada de luz, brilhando para sempre na eternidade. Descanse em paz’’.

  Às 14h38, uma internauta enviou uma mensagem que resume a indignação daqueles que não a conheceram: ‘‘Não te conheci, mas vejo o quão especial você era pelo sofrimento das pessoas… Tão linda vc… Como pode?? O que leva uma pessoa a fazer isso?’’ E continua o recado lembrando que ninguém mais está a salvo, nem mesmo dentro da própria casa.

  Uma amiga de Maria Cláudia confessou que passou a noite inteira chorando. Só parou para escrever. Disse que estava difícil acreditar na morte trágica da universitária. ‘‘Não dormi essa noite chorando…mas rezei e vou rezar todos os dias para que vc esteja em um ótimo lugar.’’

  Muitos recados pedem justiça. ‘‘Vá em paz, com a certeza de que esses seres abomináveis irão pagar pelo que fizeram! A nós só nos resta cobrar que a justiça seja feita’’, diz uma colega. ‘‘Independente da justiça dos homens, da justiça de Deus ninguém escapa!’’, comentou um desconhecido.

  Às 5h55, um colega indignado citou os defensores dos direitos humanos. Ele atribui à impunidade que crimes bárbaros como esse continuem ocorrendo no país.

 Memória

Há 12 anos, Guilherme de Pádua e a mulher mataram a atriz Daniella Perez

No dia 28, completam 12 anos do assassinato da atriz Daniella Perez, morta aos 22 anos. Ela foi assassinada com 18 golpes de tesoura, no Rio de Janeiro, pelo ator Guilherme de Pádua, com quem contracenava na novela global De Corpo e Alma. O homicídio ocorreu depois de uma gravação e o corpo foi deixado em um matagal, na Barra da Tijuca. Guilherme confessou o crime, que contou com a participação da mulher dele, Paula Thomaz. O ator disse estar apaixonado por Daniella, o que despertou ciúmes e raiva em Paula. Antes de confessar o assassinato, Guilherme consolou a mãe de Daniella, a novelista Glória Perez, e o marido da vítima, o ator Raul Gazolla. Em janeiro de 1997, o juiz José Geraldo Antônio condenou Guilherme a 19 anos de prisão pela morte da atriz. Paula foi condenada a 18 anos e meio pela participação no assassinato. Ela estava grávida na época do crime. Presos desde a confissão, ambos conquistaram a liberdade condicional em 1999 por bom comportamento. No ano seguinte a Vara de Execuções Criminais de Minas Gerais concedeu a Guilherme a redução de 25% da sua pena. O benefício foi concedido por causa do nascimento do filho do casal. Atualmente os dois vivem normalmente. Paula, 28 anos, cursa Administração de Empresas desde 2000 na Faculdade Cândido Mendes (RJ) e Pádua cursa o 1º semestre de Ciências da Computação na PUC Minas (BH).
 

A emoção

Mais de mil pessoas choram no enterro de Maria Cláudia, ‘‘a menina que virou anjo’’

Marcelo Abreu

Mais de mil pessoas foram ao Cemitério Campo da Esperança se despedir de Maria Cláudia: amigos, familiares e até desconhecidos se emocionaram com o enterro da jovem brutalmente assassinada

 Amparada por um padre e pelo marido, Marco Antônio Del’Isola (e), Maria Cristina acompanhou o cortejo da filha no cemitério
   De repente, o céu escureceu. O sol e o calor sufocantes sumiram. Um vento frio invadiu o Cemitério Campo da Esperança no meio da tarde de ontem. Parecia anoitecer. Na capela 6, o corpo de Maria Cláudia de Siqueira Del’ Isola, de 19 anos, era velado. O caixão não foi aberto. Em nenhum momento.

  Os amigos — jovens de 18 a 25 anos, a maioria — chegaram aos poucos. Chegaram os parentes, os pais dos amigos — gente a quem Maria Cláudia chamava carinhosamente de ‘‘tio’’ e ‘‘tia’’. Chegaram os professores do Marista, do Maristão, do curso de Psicologia do UniCeub e de Pedagogia da Universidade de Brasília (UnB). Chegou até quem nem conhecia Maria Cláudia. ‘‘Eu vim visitar o túmulo do meu filho e soube da tragédia. Eu imagino a dor que os pais dela estão sentindo. É uma dor sem limites’’, desabafou a dona-de-casa Maria da Conceição da Silveira, de 49 anos.

  Chegaram também as coroas de flores. Dentro da capela, não havia mais lugar para tantas. Pelo menos mil pessoas ali estiveram. A emoção estava estampada no rosto de cada um. No choro doído. Na lágrima incontida. Na dor silenciosa.

  Numa cadeira de rodas, a irmã Maria Fernanda, de 21 anos. Ela acabara de sair do hospital, onde se recupera de uma bactéria no coração. Segurando uma foto da irmã, Maria Fernanda era a imagem da desolação. O pai, Marco Antônio Almeida Del’Isola, de 50 anos, tentava amparar a mulher, Cristina Maria de Siqueira Del’Isola, 46, e a filha. A dor daquela família jamais poderá ser descrita.

  Os amigos se
abraçavam. Choravam. Dentro da capela 6, um grupo cantava a Oração de São Francisco de Assis. Amparada por familiares, a avó paterna de Maria Cláudia, Icanusa Del’Isola, de 84 anos, foi se despedir da neta. Chorou. E perguntou, baixinho: ‘‘Por que, meu Deus?’’

  Um padre reza a missa de corpo presente. Não cabe mais ninguém dentro da capela. Do lado do fora, centenas de pessoas oram. Às 17h30, o corpo deixa a capela. Forma-se uma espécie de corredor para que o caixão possa passar. Nesse momento, as pessoas que ali estavam choram compulsivamente.

  Na frente, o caixão. Atrás, a irmã Maria Fernanda, em cadeira de rodas, empurrada pelo pai Marco Antônio, que tentava fortalecer a mãe, Cristina Maria. Foi, certamente, a cena mais dolorosa de se ver. Em alguns momentos, completamente fragilizada, Cristina Maria era amparada por um padre, que acompanhou todo o cortejo. Ela olhava o caixão da filha e, ao mesmo tempo, ainda tentava segurar o sofrimento de Maria Fernanda, sentada naquela cadeira de rodas.

  ‘‘Isso não tem explicação, meu Deus’’, refletia a professora aposentada do Maristão, Márcia Garcia. O professor Domingos Guimarães, de 59 anos, tentava entender a tragédia: ‘‘É um terror, é um terror. É preciso acabar com a impunidade neste país’’.

  Da capela até o local do sepultamento, uma caminhada de quase um quilômetro, os amigos cantavam. A canção dizia: ‘‘Existe uma outra vida além…Morrer não é o fim. Tudo que aqui Ele deixou não passou… E vai sempre existir…’’.

  A mãe de Maria Cláudia já não agüentava mais. Lágrimas cobriram-lhe o rosto. Maria Fernanda, na cadeira de rodas e segurando o retrato da irmã entre o peito, era o retrato da desesperança. O pai tentava amparar — e talvez compreender — tanto sofrimento.
 
Flores
  Foram necessárias duas caminhonetes para que todas as coroas de flores que chegaram ao cemitério fossem até o túmulo. Lá, um padre fez mais uma prece. Falou das virtudes de Maria Cláudia. Enalteceu a vida. Emocionado, um amigo disse: ‘‘Maria Cláudia virou um anjo’’. E completou, arrancando lágrimas de todos que estavam por perto: ‘‘Um anjo com o sorriso mais bonito que o céu terá a partir de hoje’’.

  Uma moça, com um terço na mão, rezava Ave Maria sem cessar. Um rapaz, agarrado à mãe, chorava sem vergonha de parecer frágil. Cada um ao seu modo enfrentou a dor de enterrar Maria Cláudia. O tio, Sérgio Diniz, de 55 anos, era, na família, o lado mais racional. Coube a ele as coisas mais práticas. Mas nem ele conseguiu esconder por muito tempo a emoção. Num trajeto até o túmulo, Sérgio deixou o choro ser mais forte.

  Em meio a tanto dor, Daniel Parrocnchi, de 19 anos, colega do Maristão, lembrou-se de um dos últimos encontros com Maria Cláudia, há três meses: ‘‘A gente se encontrou na festa A Ilha da Fantasia, no Terraço Shopping. Ela tava vestida de Mulher Gato. A coisa que nunca vou me esquecer é do sorriso dela’’.

  Em lágrimas, Cahuê Damini Guimarães, de 21 anos, também do Maristão, recordou-se de uma particularidade de Maria Cláudia, uma de suas grandes virtudes: ‘‘Ela era solidária e generosa com todo mundo’’.
 
Silêncio
  Depois das palavras do padre, o corpo de Maria Cláudia foi enterrado. Como se estivessem anestesiadas, as pessoas se entreolhavam. Havia dúvida de que tudo aquilo era verdade. Na faculdade de Pedagogia e de Psicologia, os amigos esperam Maria Cláudia voltar. No dia em que foi barbaramente assassinada, ela faria uma prova na UnB, uma das últimas até a viagem, provavelmente no dia 20, para Salvador.

  ‘‘A gente se pergunta: Isso é real? Isso aconteceu com ela, que era a alegria e bondade em pessoa?’’, indagou, depois do enterro, uma amiga. Sem respostas, aos poucos, os parentes, amigos e professores deixaram o cemitério.

  Em cada uma daquelas pessoas, um aperto. Uma dor visível, dilacerada e difícil de imaginar a extensão. No violão solitário do rapaz, a Oração de São Francisco insistia nos últimos acordes. O padre amparava a mãe de Maria Cláudia. Maria Fernanda, na cadeira de rodas, com tamanha dor, emudeceu. O pai, atônito e ainda em estado de choque, empurrava, literalmente, a filha.

  Maria Cláudia, a moça bonita, a menina-sorriso que irradiava alegria, contagiava com alto astral e fazia questão que todos ao seu lado também achassem graça da vida, fez, sem querer, uma multidão chorar. Às vezes, a vida é de uma ironia sem tamanho.
 

A dor
Parentes e amigos dão adeus

Isso não tem explicação, meu Deus!
Márcia Garcia, professora aposentada do Maristão
 
É um terror, é um terror. É preciso acabar com a impunidade neste país
Domingos Guimarães, professor
 
A gente se encontrou na festa A Ilha da Fantasia, no Terraço Shopping. Ela tava vestida de Mulher Gato. A coisa que nunca vou me esquecer é do sorriso dela
Daniel Parrocnchi, amigo de Mária Cláudia
 
Ela era solidária e generosa com todo mundo
Cahuê Damini Guimarães, colega do Maristão