Inversão de valores alimenta violência

Carolina Vicentin

Há pouco mais de um ano, um
produtor brasiliense perdeu a vida
em um ato de covardia praticado
por jovens da cidade. Ivan Rodrigo
da Costa, o Neneco, então com 29
anos, foi espancado por cinco capoeiristas
na madrugada de 21 de
agosto do ano passado, no estacionamento
de uma boate da Asa Sul.
Ele faleceu no dia 30 do mesmo
mês. Um dos agressores foi condenado
a 19 anos de prisão, e os
outros quatro aguardam julgamento
na cadeia.
Dois dos acusados tentaram o
habeas corpus junto ao Supremo
Tribunal Federal (STF). O órgão
negou o pedido na semana passada.
Fernando Marques Róbias,
27 anos; Francisco Edilson
Rodrigues de Sousa Júnior, 22;
Edson de Almeida Teles Júnior,
21, e Alexandre Pedro do Nascimento,
24, enfrentarão o júri popular
em data ainda não definida.
Eles serão julgados por homicídio
triplamente qualificado por
motivo fútil, meio cruel e impossibilidade de defesa da vítima.
No momento do crime, Neneco
estava acompanhado do amigo
Luiz Alberto Ferreira Lopes,
hoje com 25 anos. O rapaz também
foi agredido e serviu como
testemunha de acusação na condenação
de Thiago Martins de
Castro, 21 anos.
– O julgamento é demorado,
doloroso. A gente tem que ficar relembrando
tudo que aconteceu –
comenta Luiz Alberto.
O amigo de Neneco conta que
sua vida nunca mais foi a mesma
desde o dia do crime. Quase não
sai de casa e evita contato com
estranhos.
– Quando vou a uma festa, fico
morrendo de medo, sempre
acho que tem alguém me encarando
– diz.
Para a mãe de Neneco, a servidora
pública Valéria Costa, a pena
para o primeiro dos capoeiristas
foi satisfatória. Ele lembra de outros
casos de violência em que os
agressores já estão fora da cadeia,
como ocorreu com os assassinos
do estudante João Cláudio Leal,
morto há sete anos.
– Em parte, me sinto até privilegiada.
Quantos pais aguardam
aí o julgamento dos criminosos
que tiraram a vida de seus
filhos? – questiona.
Valéria afirma que a identificação
com outras famílias que sofreram
a mesma perda é fundamental
para amenizar a dor. Segunda-feira
que vem, o ex-caseiro Bernardino
do Espírito Santo Filho e a ex-empregada
doméstica Adriana de Jesus
Santos serão julgados pelo assassinato
da estudante Maria
Cláudia Del’Isola, em dezembro de
2004. Valéria acredita que ambos
serão condenados.
– Isso não vai trazer meu filho
ou a Maria Cláudia de volta, eu sei.
Mas é uma forma de evitar que outras
mães passem pelo que passamos
– diz a mãe de Neneco.
O coordenador do Observatório
de Violência da Universidade
Católica de Brasília (UCB), Cândido
Gomes, ressalta que esse
tipo de crime ocorre em todas as
camadas sociais. Segundo ele, a
violência pode ocorrer por duas
razões principais: falha na transmissão
de valores de pai para filho
e busca de identidade por
parte dos adolescentes.
– Os jovens formam gangues e
passam a ameaçar qualquer pessoa
que desafie suas crenças e normas
– explica.
O coordenador destaca que os
agressores de Neneco passaram
por uma inversão de valores, já
que a capoeira é um esporte que
não incita ao ataque.
Gomes defende a criação de
políticas públicas que auxiliem
as famílias, principalmente as
mães, a criarem seus filhos.
Além disso, a escola também deve
servir como meio de aprendizado
de condutas morais.