Brincadeira de roda e a violência na sociedade

desse admirável mundo, o computador, tive uma enorme e terna surpresa. Me vi dando a mão para Maria Cláudia Del’Isola no vídeo em que ela com um jeitinho formoso dança alegremente com amiguinhos e amiguinhas na festa da escola. Sorri sempre, encantadoramente, com aquele olhar de quem faz poesia que rima sempre com alegria. Do lado de cá, eu também, misteriosamente, era criança e assim como acontece na ficção entrava naquele mundo colorido. Mas, na mudança de imagens o tom melancólico das palavras de sua mãe, Cristina, me deu conta de que apesar dos sucessivos sorrisos, que apareciam na tela, eu não poderia mais brincar nem tampouco estar com Maria Cláudia. Fiz uma "viagem" ao encontro do que eu gostaria que fosse verdade. Ela poderia estar aqui com seu otimismo e determinação em ser e tornar os outros felizes. Fiquei ali, revendo o filme e senti saudades da garota que eu não conheci. Lembrei das flores, rosas vermelhas colocadas delicadamente em forma de abraço à morada em que seu corpo repousa, num campo onde a esperança significa o reencontro de uma nova vida de infinita felicidade. Lembrei de Marco Antonio, seu pai, convidando a todos a se darem as mãos para num gesto de amor, em roda, fazermos uma prece, pedindo justiça. Era Dia de Finados, e eu teimava em querer despertar do que se assemelhava a um pesadelo, uma ficção de terror. Dirigi meu olhar a cada um e aí tive a certeza que não era ficção. Eu via espelhos porque as faces de toda aquela gente tinham a mesma chama da saudade, da indignação, da tristeza, da infinita vontade de conseguir voltar o tempo e mudar este presente onde no futuro que ele nos reserva existe um vazio impreenchível. Aquela jovem estava começando a vida, os outros jovens, filhos de quem se solidarizava com os Del’Isola, também estavam no esplendor da juventude que como a de Maria Cláudia lhes foi usurpada de forma cruel, sempre covarde, primitiva e de uma violência sem limites que aumenta a cada dia em número e em maldade. Para que as novas gerações possam brincar de roda, crescer, desfrutar das maravilhas que este mundo pelas mãos do Senhor nos presenteia, para que possam ser felizes sem acontecimentos cruéis a lhes roubar a vida que pode e deve ser bonita é que nos demos as mãos. Mas, nesse dia sentimos a falta de uma palavra decisiva; de um ato objetivo das autoridades responsáveis por nossa proteção; da intenção de nos ouvir e atender as nossas reivindicações. Ninguém desse grupo disse nada e não podem justificar alegando que era feriado. Para aliviar a dor que rompe a alma de um familiar que teve seu ente querido assassinado não há dia marcado. Todos os que nos devem ações pelos impostos que pagamos, pela responsabilidade profissional e social que exercemos e pelo cumprimento sempre honrado dos deveres que nos cabem, se calaram num silêncio sepulcral. Não houve nenhum de nossos representantes legais em qualquer dos poderes constituídos que nobremente tenha se lembrado que na parte que a eles também cabe deste latifúndio estão precocemente os nossos filhos, vitimizados pela irresponsabilidade profissional e social de muitos que compõe esse quadro, e pelo não cumprimento dos seus deveres. Nós os lembramos, no entanto, que a esperança não ficou guardada no campo em que descansam os corpos trucidados dos nossos jovens pelos mais hediondos bandidos. Este dia 12 de novembro nos dá a esperança de que a impunidade comece a ser extinta da nossa pátria ainda amada e a justiça condene os assassinos confessos de Maria Cláudia, à pena máxima. Neste caso ambos tiveram o mesmo grau de barbárie contra uma garota totalmente indefesa.