No banco dos réus, só a doméstica

Priscila Machado Após quase três anos do crime, começou ontem o julgamento de Adriana de Jesus Santos, 24 anos. A ex-empregada doméstica é acusada ter ajudado o ex-namorado Bernardino do Espírito Santo Filho, 33 anos, a torturar, violentar e matar estudante Maria Cláudia Siqueira Del’Isola, 19 anos, ocorrido, no dia 9 de dezembro de 2004, dentro da casa dela. Não satisfeitos, o casal ocultou o cadáver debaixo da escada da sala principal da residência da família da vítima. O júri é formado por quatro homens e três mulheres. A previsão é que a decisão deles saia no final da tarde de hoje. Se condenada a pena máxima, Adriana pode pegar até 58 anos de prisão. Bernardino também deveria começar a ser julgado ontem, mas os advogados de defesa dele e de Adriana não coincidiram na escolha dos jurados, o que fez como que o julgamento fosse desmembrado. Com isso, coube ao promotor de Justiça Maurício Miranda definir quem seria julgado primeiro. Ele afirmou que preferiu que Adriana fosse a primeira a ser julgada, já que existia a possibilidade de que Bernardino mudasse a versão dele dos fatos e retirasse a participação de Adriana no crime. O julgamento de Bernardino será no dia 10 de dezembro. O desmembramento do júri é uma estratégia da defesa. Assim, os advogados de Adriana e de Bernardino têm mais tempo para os debates, que ocorrem na fase final do julgamento, após o réu e todas as testemunhas de acusação e defesa serem ouvidas.  Caso fossem julgados juntos, cada advogado teria 1h30 para apresentar a defesa do réu, além de uma hora para a tréplica. Com o júri separado, cada um tem 2 horas para a sustentação oral, porém o tempo para a tréplica diminui à metade. Como a única testemunha de defesa de Adriana não compareceu, o defensor da ré solicitou que o depoimento da testemunha fosse substituído pelo de Bernardino. Porém, o juiz João Egmont Leôncio Lopes não aceitou o pedido, já que, pela lei, é proibido que um réu seja ouvido como testemunha de alguém julgado pelo mesmo crime. Para o promotor Maurício Miranda, a solicitação para ouvir Bernardino foi uma estratégica da defesa de Adriana, para tentar retirar a participação dela. – O Bernardino poderia mudar a versão dele. Poderia livrar Adriana de ter participado do crime. Por isso eles queriam ouvi-lo – explicou o promotor. Algemada, de calça jeans e camisa branca de manga comprida, Adriana ficou o tempo todo de cabeça baixa. Ao ser interrogada, ela se negou a responder as perguntas, disse que preferia exercer o direito de ficar em silêncio. Após o interrogatório de Adriana, foi feita a leitura resumida do processo, que tem mais de mil páginas. Os pais de Maria Cláudia, Cristina e Marco Antonio Del’Isola, ficaram o tempo todo no plenário. No momento em que eram lidos os requintes de crueldade com que Maria Cláudia foi morta, a irmã dela, Maria Fernanda, não conseguiu permanecer no plenário. Antes do início do julgamento, a mãe de Maria Claudia, Cristina, pediu que a imprensa preservasse a família e não divulgasse detalhes sobre a maneira como a filha dela foi morta. O julgamento foi concorrido. Amigos da família, estudantes de Direito e curiosos ocuparam todos os 240 lugares do plenário. Muita gente ficou do lado de fora, mas continuou na fila para tentar ver de perto a decisão do futuro de Adriana, acusada de ter participado de um dos crimes que mais chocou a população do DF. Em 2004, ela confessou ter ajudado Bernardino a violentar e matar Maria Cláudia, tudo porque sentia inveja e ciúmes da jovem. Após o crime, Adriana e Bernardino enterram o corpo de Maria Cláudia sob a escada da casa dela. Os dois trabalhavam e moravam na casa de família de Maria Cláudia e eram de confiança da vítima.