Estupro foi incentivado por Adriana

Carolina Vicentin No primeiro dia do julgamento da empregada doméstica Adriana de Jesus Santos, 24 anos, a estratégia da defesa foi imputar ao máximo a culpa dos crimes ao caseiro Bernardino do Espírito Santo Filho, 34. Apesar de ter confessado participação no assassinato da estudante Maria Cláudia Del’Isola, em dezembro de 2004, Adriana negou tudo em juízo e optou por ficar calada durante o julgamento.  O defensor da ré, Frederico Donati, pediu a leitura de algumas páginas dos autos que continham a descrição de um outro estupro cometido por Bernardino. Cerca de oito meses antes de matar Maria Cláudia, o caseiro violentou uma menina de 13 anos, próximo ao Gilberto Salomão, no Lago Sul. A vítima conseguiu escapar do agressor com vida. Quando Bernardino foi capturado, confessou esse crime também. A defesa solicitou, ainda, a leitura do depoimento do caseiro que trabalhava na casa vizinha à da família Del’Isola. Em juízo, o auxiliar de serviços gerais Geraldo da Silva Ferreira informou ter visto Bernardino conversar com Maria Cláudia pouco antes de a jovem desaparecer. Ele disse também que Adriana não participou da conversa. A primeira das três testemunhas do caso, o agente policial Ricardo Costa Ferraz, ressaltou que Adriana não só confessou a participação nos crimes, como ajudou a elucidar o que ocorreu no dia 9 de dezembro de 2004. Segundo Ferraz, Adriana nutria uma raiva muito grande pela vítima e sugeriu que Bernardino a estuprasse, já que ambos planejavam roubar dinheiro da jovem. – Os dois (Bernardino e Adriana) contaram em detalhes tudo que aconteceu, sempre com muita arrogância e desprezo pela Maria Cláudia – contou Ferraz. Além da leitura de parte dos autos, a tarde de ontem reservou muita emoção para a família da estudante. A acusação quis exibir reportagens de televisão da época em que Adriana confessou ter ajudado o ex-namorado a matar Maria Cláudia. No telão, o público de 250 pessoas pode ver também um vídeo feito pela família da jovem quando fez um ano da morte da estudante. – É muito difícil expressar em palavras o que a gente sente. A gente fica perplexo com o que ouve aqui – declarou Cristina Del’Isola, mãe de Maria Cláudia. A avó da jovem, Fernanda Siqueira, 78 anos, veio de Salvador para Brasília especialmente para assistir ao julgamento. – A Cristina não queria que eu viesse, mas estou aqui para dar apoio. Vim para ouvir todas as mentiras que os assassinos estão contando – disse. Além de Ferraz, outras duas testemunhas foram ouvidas na noite de ontem: o pai da jovem assassinada, Marco Antônio Del’Isola e Marcelo Rodrigues, uma amigo da família. A idéia é convencer os jurados de que Adriana realmente confessou os crimes.

Antes do início do julgamento, cerca de 90 pessoas participaram de uma manifestação na porta do Tribunal de Justiça do DF. O ato foi organizado pelo Movimento Maria Claúdia pela Paz. O grupo promete fazer vigílias de orações durante todo o julgamento, que deve terminar no fim da tarde de hoje. Ao chegar ao tribunal, Cristina Del’Isola, mãe de Maria Cláudia, foi recebida pelos manifestantes com palmas. Para ela, a presença das pessoas que foram acompanhar o julgamento é um sinal de esperança. – Isso mostra que, apesar de tanta dor, ainda há esperança, na solidariedade, na força que há em cada um de nós. É preciso acreditar. Esse é um momento único para percebemos que é possível sim fazer justiça – disse, emocionada. Todos os manifestantes vestiam camisetas pretas com os dizeres Justiça. Chorando muito, Fernanda Pantuzzo, 26 anos, estava visivelmente abalada. Afilhada de Cristina,mãe de Maria Claudia, Fernanda contou que tem certeza de que Adriana será condenada, mas que não iria acompanhar o julgamento. – Tenho certeza de que será feita justiça. Não vou assistir ao julgamento. Não quero ouvir detalhes, os requintes de crueldade que eles usaram. Nada disso vai trazer a minha amiga de volta. Prefiro ficar aqui fora, rezando e pedindo a Deus para que a Justiça seja feita – disse. Rita Coelho Borges, 46 anos, amiga da família Del’Isola, também participou da manifestação. Mas apenas o marido dela, Tarcisio Borges, assistiu ao júri.– Sou amiga da família há 15 anos. Não tenho estrutura para assistir ao julgamento. Também sou mãe, tenho filhos da mesma idade da Maria Cláudia. Por isso, me coloco no lugar dos pais dela – disse. Além de amigos e familiares, pais que também perderam seus filhos em crimes bárbaros foram até o Tribunal para dar apoio a familia Del’Isola. Entre eles, Silvana Maria Cardoso Leal, que teve o filho João Claudio assassinado, após ser espancado na saída de uma boate, – Hoje, sou amiga da família de Maria Cláudia. Nós nos unimos pela dor. Vou assistir ao julgamento hoje. Vim aqui para dar força a família. O julgamento é um momento difícil, já passei por isso e sei como é. Porém, sei que os pais de Maria Cláudia serão fortes. Dor maior que essa do julgamento é a dor de perder um filho – disse. Cleyde Prado Maia, psicóloga, veio do Rio de Janeiro apenas para assistir o julgamento. Ela é mãe de Gabriela, morta aos 14 anos, em um tiroteio entre policiais e bandidos, no Metrô do Rio, em 2003. – Vim prestar solidariedade a família. Por mais difícil que seja ouvir os detalhes relatados no julgamento, o pior é saber que nossos filhos não tiveram nem chance de se defender. Espero que seja feita a justiça pela morte de Maria Claudia. Espero que não aconteça como no julgamento dos acusados da morte da minha filha, em que, dos cinco acusados, dois estão nas ruas – contou. A jornalista Valéria Velasco também acompanhou o julgamento. Ela estava emocionada, disse que se lembrou do dia do julgamento dos acusados da morte do filho dela. Em 1993, Marco Antonio Velasco foi morto aos 16 anos, espancado por 10 integrantes de uma gangue. – O julgamento é um sofrimento a mais para a família. Mas a presença de tanta gente, de todas essas pessoas, mostra que a justiça deve e vai ser feita – disse.