Adriana pega pena máxima, mas fica presa só seis anos

O júri aplicou pena máxima para a empregada doméstica Adriana de Jesus Santos, 24 anos. Por volta das 5h de ontem, o juiz João Egmont Lopes proferiu a sentença dos sete jurados. Adriana foi condenada a 58 anos de prisão em regime fechado. No entanto, ela pode ganhar o direito de apenas dormir na cadeia dentro de pouco mais de seis anos. Na época do assassinato da estudante Maria Cláudia Del’Isola, estava em vigor o antigo código de execuções penais. Advogado e professor da UnB, Pedro Paulo Coelho explica que a legislação anterior prevê que réus primários, como é o caso da empregada doméstica, podem ter a progressão de regime quando cumprirem um sexto da pena. Isso ocorre se o preso tiver bom comportamento e não for constatada periculosidade. Estas regras mudaram a partir de janeiro deste ano. Agora, os réus só alcançam o benefício do regime semi-aberto depois de cumprirem dois quintos da pena. – Os psicólogos do sistema penitenciário analisam a conduta interna e fazem um exame criminológico no preso. Aspectos como a instabilidade emocional e a possibilidade de convívio com outras pessoas são levados em conta antes da concessão – esclarece o advogado. Segundo Coelho, no DF esses quesitos são analisados também para que os presos usufruam dos chamados saidões, em datas como o Dia dos Pais e das Mães. – Mas em outros estados, eles nem chegam a fazer exame criminológico para isso – comenta. Adriana foi condenada por um júri composto de quatro homens e três mulheres. Após a leitura parcial dos autos, depoimentos das testemunhas e debate entre defesa e acusação, o grupo foi convidado a responder quatro séries de perguntas. Os jurados foram unânimes em boa parte delas. Todos concordaram que a empregada doméstica ajudou a matar Maria Cláudia de forma cruel, por que sentia muita raiva e inveja da vítima. A defesa de Adriana vai recorrer da decisão. O advogado Frederico Donati não disse se irá apontar alguma irregularidade e pedir a anulação do julgamento. Mas ele ressalta que o recurso já se justifica pelo fato de a ré ter pego mais de 20 anos de prisão em um dos crimes (homicídio triplamente qualificado). – Isso trará a possibilidade de a Adriana ser julgada novamente. Tenho 10 dias para apresentar apelação – destacou. Para o promotor de Justiça Maurício Miranda, responsável pelo caso, a pena imputada a Adriana foi satisfatória. – A condenação foi razoável e compatível com a maldade que foi feita por ela – declarou. Miranda comentou que o julgamento é uma oportunidade para a sociedade refletir sobre a violência. Durante as quase 20 horas de duração, o plenário do Tribunal de Justiça permaneceu lotado, com cerca de 250 pessoas. Os mais ansiosos para ouvir a sentença eram familiares e amigos de Maria Cláudia. Ao final, a mãe da jovem, Cristina Del’Isola, se emocionou muito e teve uma queda de pressão. Em entrevista, ela contou estar com a sensação de dever cumprido. – Não é só por nós, pai, mãe, família mutilada, mas também pela sociedade toda. Saio confiante de que estamos motivados a continuar na luta contra a violência – destacou. Quanto à possível progressão de regime de Adriana, Cristina explicou que vai permanecer vigilante. Segundo ela, em julho deste ano, a empregada doméstica saiu da cadeia para ir ao banco, e esta situação não foi esclarecida pelas autoridades. – Apesar de toda a dor e o sofrimento, precisamos ser fiscais o tempo todo – disse. A mãe de Maria Cláudia ouviu muitos comentários de amigos sobre a postura de Adriana durante o julgamento. Algumas pessoas falaram da aparência da ré, que estava de barriga de fora e calça justa, com os cabelos alisados. Cristina prefere não julgar a atitude da ex-empregada, mas diz se questionar sobre a forma que se dá a ressocialização dos presos. – Temos um quadro notório de reincidência criminal no país. Os bandidos ousam cada vez mais e matam de forma indiscriminada, enquanto autoridades permanecem agindo com descaso – opinou. Logo depois da morte da filha, Cristina decidiu criar o Movimento Maria Cláudia pela Paz. Além de lutar pela Justiça no caso da estudante, o grupo auxilia outras famílias de vítimas da violência. – Não tenho a pretensão de salvar o mundo com o movimento, mas o pouco que fizermos é o bálsamo de Deus na minha vida. É uma forma de sentir que a minha filha está muito mais próxima do que eu posso imaginar – disse.

 

 

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