Cristina Del’Isola diz que progressão banaliza o crime

 Rosane Garcia

 

Menos de uma semana depois do julgamento da doméstica Adriana de Jesus do Santos, condenada a 58 anos de prisão, por participação na tortura, estupro e execução da estudante Maria Cláudia Del’Isola, em dezembro de 2004, o movimento que leva o nome da vítima se prepara para novas ações de mobilização da sociedade contra a impunidade. A retomada das manifestações começa dia 1º de dezembro. Dia 9, haverá um grande ato no Colégio Marista, quando completa três anos do assassinato da jovem. No dia 10 de dezembro deve ocorrer o julgamento do caseiro Bernardino do Espírito Santo Filho, de quem Adriana era amante. Réu confesso de todas as atrocidades cometidas contra a jovem, o caseiro chegará ao Tribunal do Júri com um histórico de condenação por tentativa homicídio, praticado na Bahia, e de estupro de uma jovem, à época com 13 anos de idade, no Lago Sul. Nos dias que se seguiram ao desaparecimento da jovem, o caseiro e a doméstica se mantiveram na casa. Frios e dissimulados, mostravam-se solidários com a família, quando haviam ocultado o cadáver de Maria Cláudia sob a escada da sala em que a jovem morava com os pais e a irmã. À frente do Movimento Maria Cláudia Pela Paz, a mãe da vítima, Cristina Del’Isola, revela seu inconformismo com a punição aplicada a Adriana de Jesus. Apesar de condenada a 58 anos de prisão, a doméstica não ficará seis anos atrás das grades. Como outros criminosos con- denados por prática de crime hediondo, Adriana será beneficiada pela progressão da pena. – A minha dor é imensurável e definitiva e em nada será diminuída como ocorre com os assassinos da minha filha. Minha mutilação como mãe, mulher e educadora será para sempre – lamenta Cristina. Apesar do sofrimento indescritível, Cristina diz que consegue reunir forças para, junto com outros integrantes do movimento e parentes de vítimas da violência, tentar escrever uma nova página na história do país, evitar que a impunidade prevaleça em detrimento da Justiça e que os crimes sejam banalizados. Para a mãe de Maria Cláudia, não tem sentido esvaziar as punições previstas na lei para os crimes hediondos pelo artifício da progressão da pena, que devolve à sociedade criminosos que desprezaram o bem maior de qualquer indivíduo: a vida. Segundo ela, o Brasil é o único país que tem uma progressão tão aberta que favorece o criminoso de “forma tão escancarada”. Ao mesmo tempo em que revela inconformismo com a crueldade praticada contra sua filha, Cristina se mostra disposta a lutar para que a mesma tragédia não se repita em outras famílias. – Não posso permitir que o que me foi tirado ocorra com o meu próximo. A minha Maria não está mais aqui, mas quantas Marias ainda temos pela frente? – indaga Cristina Del’Isola, que se diz disposta a cobrar das autoridades, em qualquer instância de poder, o respeito, acima de tudo, pela vida humana.

Em Brasília, o assassinato de Maria Cláudia, com 19 anos em 2004, foi o primeiro a resultar em pena máxima para um dos homicidas. A mãe da jovem atribui o resultado, em grande parte, à mobilização da sociedade. Esse ânimo e sentimento de que é possível provocar mudanças que o Movimento Maria Cláudia Pela Paz pretende aproveitar, de agora em diante, para alcançar um dos seus objetivos que é o de reverter a decisão que garante o não cumprimento integral das penas aos que cometem crimes hediondos. – Infelizmente as nossas autoridades, com honrosas exceções, se tornaram insensíveis e não se colocam no lugar do cidadão comum, que trabalha dois ou três turnos para pagar os impostos que garantem a elas mordomias, seguranças particulares e outros benefícios que as distanciam da realidade imposta à sociedade – diz Cristina Del’Isola. Ela lamenta ainda que senadores e deputados, ao receberem proposições de autoria popular, reconheçam que o Congresso é a casa do povo, mas engavetam as propostas subscritas pelos cidadãos. – Esse comportamento coloca em xeque a própria democracia – afirma Cristina.