Entrevista da Assassina

RENATO ALVES E JOÃO RAFAEL TORRES
DA EQUIPE DO CORREIO

Durante toda a manhã de ontem, a empregada doméstica Adriana de Jesus Santos, 20 anos, reclamou por conta da pressão da algema no pulso esquerdo. Impaciente no banco de concreto da 10ª Delegacia de Polícia (Lago Sul), ela confessou aos repórteres a co-autoria no assassinato da estudante Maria Cláudia de Siqueira Del’Isola, de 19 anos — estuprada, esfaqueada e asfixiada, na manhã de quinta-feira. Com pés descalços, calça de lycra e camiseta, a empregada tentava se defender do assédio da imprensa e se irritava ao lembrar de Bernardino do Espírito Santos Filho, 30, acusado de ser o mentor do crime. ‘‘Não tinha nada contra essa menina. Por causa de um homem, minha vida se acabou. Fiz o que ele quis e agora estou sozinha, levando a culpa de tudo’’, defendeu- se. Mas em um segundo depoimento na 10ªDP, das 15h30 às 16h20 de ontem, ela contou, com requintes de detalhes, e sem derramar nenhuma lágrima, o crime macabro. E confessou a participação na emboscada e no assassinato. Por quê? ‘‘Ele falava que ela era bonita, que era gostosa. Me fazia ciúmes com isso. Uma vez disse que a pegaria, se ela desse mole. Isso me deixava irritada’’, contou a doméstica. ‘‘O Bernardino queria me dar metade do dinheiro roubado (R$ 2 mil). Mesmo assim, ele pegou R$ 50 e colocou na minha carteira. Disse que era para meu filho (de cinco anos).’’ Bernardino e Adriana namoravam há pouco mais de dois anos. Mas ele tinha outra namorada, em Ceilândia, que está grávida de quatro meses. Adriana disse que só soube disso na madrugada de ontem, quando a mulher chegou à delegacia levada por policiais civis. Soube também que a outra namorada de Bernardino havia ganho R$ 200 do caseiro — parte do dinheiro roubado de Maria Cláudia. Adriana a e Bernardino se conheceram no interior da Bahia, onde nasceram. Ele veio de Salvador para Brasília há dois anos. ‘‘Dois meses depois, a dona Cristina (Del’Isola, mãe de Maria Cláudia) precisou de uma empregada. O Júnior (Bernardino) me recomendou e eu vim trabalhar na casa da família’’, lembrou a doméstica. Na casa dos patrões, além de um salário fixo e carteira assinada, eles ganharam abrigo. Ambos moravam em quartos próprios na casa da família, na QL 6 do Lago Sul. E eram muito bem tratados, segundo a própria Adriana. ‘‘Ela (Maria Cláudia) sempre foi boa pra mim e pro meu filho. Todos sempre foram bons patrões, me tratavam bem’’, disse. Leia a seguir o segundo depoimento de Adriana:

O AVISO ‘‘Na sexta-feira (dia 3), o Bernardino me disse: ‘Vou f… com a p… branquela da Maria Cláudia’. Ele falou que ela tinha uns R$ 1 mil a R$ 2 mil guardados no armário e que eu tinha que ajudá-lo no crime. Eu não sabia daquele dinheiro. Como ele é faxineiro, sabia de tudo que estava acontecendo na casa, onde ficavam todas as chaves.’’

O CIÚME ‘‘Eu sabia que ele gostava dela. Achava que ele tinha que ter respeito com a dona da casa e comigo. Eu tinha raiva e ciúmes por ela ser rica e bonita. Sentiame humilhada por ser pobre e feia.’’

A TRAMA ‘‘Na quinta-feira de manhã, ele (Bernardino) me acordou às 6h para eu fazer o café e arrumar a mesa. Contou que vinha cavando o buraco há uma semana e que guardava a terra no carrinho de mão, para ninguém desconfiar.’’

O ÓDIO ‘‘Logo que eu levantei, o Bernardino falou: ‘É hoje que vou f… com a p…, v…, loira burra da Maria Cláudia que tira uma onda. A partir de hoje, ela não vai mais tirar onda. Você vai me ajudar a segurá-la enquanto eu f… e depois estupro.’’’

A ARMADILHA ‘‘Os pais dela (Maria Cláudia) saíram às 7h. Ela acordou às 8h e tomou o café. Quando ia pegar o carro, o Bernardino a chamou para uma conversa, no jardim, perto da piscina. Ele já tinha colocado uma sacola plástica sobre o freezer.’’ O BOTE ‘‘Eu segurava a fita crepe e uma corda. Ela falou para mim: ‘Dri (assim a vítima chamava a empregada), não faz isso não, pois ele (Bernardino) vai te prejudicar e a polícia vai te pegar.’ Aí eu coloquei a fita crepe na boca dela. Depois, amarramos as mãos delas, pra frente.’’

O ESTUPRO ‘‘A gente jogou a Maria Cláudia de barriga para cima. Tiramos a blusa, o sutiã e a calcinha dela. O Bernardino baixou as calças e eu segurei as pernas dela para ele fazer aquelas coisas. Depois, a gente colocou ela de costas. Ele fez aquelas coisas com ela de novo.’

’ O HORROR ‘‘A Maria Cláudia chorava muito. Ela se debatia. Eu só xinguei ela uma vez, de branquela. Aí, o Bernardino deu um soco na cara dela e depois um chute nas costelas dela. Ela ficou desacordada. O Bernardino pegou a peixeira, que ele guardava no quarto e tinha o maior apego. Ele começou a cortar o rosto dela. Acertou o olho. Depois, cortou o peito e as pernas. Quando ele cortava, espirrava sangue.’’

O GOLPE FINAL ‘‘Eu bati no rosto dela e gritei: ‘Maria Cláudia, acorda!’ Acho que estava morta. O Bernardino pegou o saco plástico e pôs na cabeça dela. Depois, enrolou a corda no pescoço. Disse que era para o corpo não feder.’’

A COVA ‘‘O Bernardino pegou o corpo e arrastou até o buraco. Eu só empurrei o freezer, que estava na frente da porta. Atrás, estava o buraco. Ele colocou ela lá e depois jogou a terra, que estava no carrinho de mão.’’

A FRIEZA ‘‘O Bernardino disse que ia terminar o serviço sozinho. Ele mesmo limpou o chão. Pegou as roupas da Maria Cláudia e colocou no saco, depois levou tudo para fora e colocou no lixo da rua. Quando os pais dela chegaram (por volta das 12h30), ele foi na cozinha e falou que eu não deveria contar nada, porque eu tinha participado. Fiquei calada. Os patrões só sentiram falta da menina lá pelas 14h. Aí foram para a delegacia.’’

A DROGA ‘‘O Bernardino fumava maconha. No dia do crime, ele tinha ficado muito agressivo. Estava com os olhos vermelhos e suava muito. Fedia a maconha. Depois (do crime), começou a me tratar com ignorância. Como já tinha apanhado dele antes, resolvi ficar quieta.’’

A FUGA ‘‘O Bernardino saiu de casa no domingo de manhã. Disse que ia passear no Guará. Eu não falei nada do que tinha acontecido porque fiquei com medo da reação do Júnior (assim ela também chama Bernardino) porque estava com medo dele e da polícia. Ele disse pra mim: ‘Se falar, vai dançar sozinha’.’’