Mais um julgamento

 

 


Acusados de assassinar brutalmente estudante, em dezembro de 2004, serão submetidos ao Tribunal do Júri de Brasília na segunda-feira


Helena Mader
Da Equipe do Correio

Edilson Rodrigues/CB – 12/11/07
Adriana já foi condenada a 58 anos. Bernardino pode pegar 66
 

Depois de condenada a 58 anos de prisão por espancar, violentar, matar e ocultar o corpo da estudante Maria Cláudia Del’Isola, em dezembro de 2004, a ex-empregada doméstica Adriana de Jesus dos Santos, 24 anos, será submetida a um novo julgamento nesta segunda-feira. O primeiro júri foi realizado nos dias 12 e 13 de novembro. A legislação penal brasileira assegura um segundo julgamento a todos os condenados a mais de 20 anos de prisão. Também está marcado para a próxima segunda-feira o júri do ex-caseiro Bernardino do Espírito Santo, que responde pelos mesmos crimes que Adriana e ainda por roubo qualificado. Ele levou US$ 1,8 mil da casa dos Del’Isola após o assassinato e usou o dinheiro para fugir para a Bahia.

Com a confirmação do segundo júri da ex-doméstica, a sessão que vai decidir o destino de Bernardino pode ser adiada mais uma vez, caso haja um novo desmembramento. Isso acontece quando os advogados de defesa dos dois réus e a promotoria divergem sobre a escolha de pelo menos um dos jurados. Se todos concordarem sobre a formação do júri, Adriana e Bernardino serão julgados juntos. Se os defensores públicos optarem por jurados diferentes, a ex-empregada e o ex-caseiro terão julgamentos separadamente.

É a promotoria que escolhe quem irá primeiro para o banco dos réus, caso realmente haja desmembramento. O promotor do Tribunal do Júri, Maurício Miranda, espera que Adriana e Bernardino sejam julgados de uma única vez nesta segunda-feira. “Preferimos julgar os dois juntos, porque aproveitamos uma única sessão. Essa é a intenção da promotoria”, explica Miranda. A defesa dos acusados pode optar pelo desmembramento para não deixar um réu acusar o outro durante a sessão.

 

Os réus

Adriana de Jesus dos Santos, 24 anos
A ex-empregada doméstica já foi sentenciada a 58 anos de prisão no julgamento realizado nos dias 12 e 13 e novembro. Ela foi condenada por homicídio triplamente qualificado, atentado violento ao pudor, estupro e ocultação de cadáver. No novo julgamento desta segunda-feira, Adriana será julgada apenas por homicídio, único crime cuja pena foi superior a 20 anos.

Bernardino do Espírito Santo, 33 anos
O ex-caseiro seria julgado com Adriana, mas o júri foi desmembrado e o julgamento foi remarcado para 10 de dezembro. Ele responde pelos crimes de homicídio triplamente qualificado, atentado violento ao pudor, estupro, ocultação de cadáver e roubo qualificado, já que levou US$ 1,8 mil da casa dos Del’Isola. Se pegar a pena máxima, será condenado a 66 anos de prisão.

 

Punição rigorosa

Paulo H. Carvalho/CB – 13/11/07
Cristina, mãe da estudante, espera a pena máxima para os réus
 

O promotor Maurício Miranda critica o recurso que permitiu o cancelamento do primeiro julgamento de Adriana de Jesus dos Santos. “Isso causa desconforto, faz com que todo nosso trabalho seja apagado. É um recurso totalmente inadequado, que atrapalha a celeridade processual. No caso de um crime grave como esse, acho que teríamos é que acelerar a aplicação da pena”, avalia o promotor.

Adriana será julgada novamente apenas por homicídio qualificado, cuja pena foi de 30 anos (leia quadro). As penas pelos crimes de atentado violento ao pudor, estupro e ocultação de cadáver são inferiores a 20 anos e, por isso, não haverá um novo julgamento para essas acusações.

O defensor público que advoga por Bernardino, André Ávila, garante que o desmembramento é indiferente. “Isso não faz diferença, nem afeta nossa disposição. Estamos preparados para fazer a defesa na segunda-feira”, garante o advogado. Ele não quis adiantar como será feita a defesa de Bernardino, nem que argumentos usará. “Nosso discurso é voltado para os jurados. Mas não posso adiantar nada”, explicou André Ávila. O defensor público que representa Adriana não foi localizado.

A expectativa entre os familiares de Maria Cláudia é grande. Principalmente porque, neste domingo, véspera do julgamento, parentes e amigos vão lembrar o terceiro aniversário de morte da estudante, no Colégio Marista, na 615 Sul, a partir das 15h. “Todos os dias 9 de dezembro a família realiza uma missa. Mas, este ano, estamos preparando um evento que tem como objetivo a celebração pela vida, que foi o que Maria Cláudia mais amou”, conta Cristina Del’Isola, mãe da estudante.

Mais de mil crianças e idosos do Lar São Francisco, atendidos pelos voluntários do movimento Maria Cláudia pela Paz, vão participar da celebração. O grupo também organiza uma manifestação em frente ao Tribunal de Justiça, para a manhã do julgamento. Os voluntários chegarão ao local a pa
rtir das 7h, com faixas e cartazes, para homenagear Maria Cláudia e pedir a pena máxima para os dois assassinos da estudante.

Com um novo julgamento, a estratégia da defesa de Adriana de Jesus dos Santos deve ser reduzir o tempo de condenação. No primeiro júri, ela recebeu a pena máxima, pedida pela promotoria. “Sabemos que é possível que a pena seja reduzida desta vez. Nessa hora, nos sentimos impotentes, vulneráveis diante de uma legislação penal tão fragilizada”, explica Cristina Del’Isola. “Sou contra a pena de morte, mas espero a pena máxima. Essas pessoas não têm condições de serem ressocializadas. Vou fazer o que for possível para que esses dois criminosos fiquem afastados do convívio social e não ceifem novas vidas”, completa a mãe de Maria Cláudia.

Condenação
O primeiro julgamento de Adriana de Jesus dos Santos durou 19 horas e 50 minutos. A ex-empregada foi julgada por quatro homens e três mulheres. Ela recebeu a pena máxima por todos os crimes dos quais era acusada: 30 anos por homicídio triplamente qualificado, 12 anos e seis meses por atentado violento ao pudor, 12 anos e seis meses por estupro e outros três por ocultação de cadáver. A pena máxima que Bernardino do Espírito Santo pode pegar é de 66 anos: todas as decretadas para Adriana mais oito anos por roubo qualificado. (HM)