Eles vão pagar pelo crime


Assassinos de Maria Cláudia Del´Isola pegam 123 anos de cadeia


Grasielle Castro e Márcia Leite

Foram dois dias inteiros e mais de 30 horas de julgamento para que o caso Tatinha chegasse ao fim. À 0h35 de hoje, o juiz-presidente do Tribunal do Júri, João Egmont, começou a ler a sentença que condenou Bernardino do Espírito Santo e Adriana de Jesus dos Santos pela morte da estudante Maria Cláudia Del'Isola. Os dois foram condenados à pena máxima, que juntas totalizam 123 anos de prisão.

O ex-caseiro pegou 65 anos de cadeia por matar, violentar, estuprar e ocultar o cadáver de Tatinha, e por ter roubado dinheiro da família. A ex-empregada já havia sido condenada, no último dia 13 de novembro, a 58 anos de prisão pelos mesmos crimes, com exceção do de furto. Assegurada pela legislação brasileira, a defesa recorreu e Adriana teve direito a um novo júri pelo crime de homicídio, ao qual ela havia sido condenada a 30 anos. Nesta madrugada, a pena foi mantida. Considerando os benefícios que a lei penal os concede, Bernardino deve ficar, na verdade, 11 anos preso, e Adriana, sete.

Ao final do julgamento, à 1h15, as pessoas presentes no plenário lotado deram as mãos e a família Del'Isola puxou a oração do Pai Nosso, seguida de uma salva de palmas.

O que ajudou a manter o destino de Adriana e a condenar Bernardino foram os depoimentos prestados pelas testemunhas. Durante o julgamento, no Tribunal do Júri, os testemunhos desmentiram a nova versão apresentada pelos réus durante o interrogatório, na segunda-feira, a qual inocentava a ex-empregada e amenizava os crimes cometidos por Bernardino.

Na época do crime, os acusados confessaram que assassinaram a estudante juntos. Já na segunda-feira, no início do segundo julgamento do caso, Bernardino contou outra história. Ele disse que em nenhum momento Adriana participou da morte de Tatinha. Afirmou que fez tudo sozinho porque queria dinheiro para fugir. Adriana confirmou a nova versão de Bernardino.

No entanto, as testemunhas que foram convocadas pelo Ministério Público desmentiram a versão dos acusados. Um jornalista e o agente policial que ouviram a confissão dos réus disseram que ambos admitiram, sem pressão ou medo, que agiram juntos. Segundo o agente, assim que o corpo foi encontrado, enterrado na casa da família Del'Isola, Adriana disse: "Foi o Bernardino, eu só ajudei". Em seguida, ainda de acordo com o policial, a ex-empregada começou a chorar e contou toda a história. Na delegacia, ela deu detalhes e disse como o crime havia sido executado.

Três dias após matar Tatinha, Bernardino fugiu de táxi para a Bahia, onde foi preso. Segundo o agente, no dia da prisão do réu, o delegado de Salvador lhe perguntou se Adriana já estava presa e aconselhou que isso fosse feito logo, já que em seu depoimento, o ex-caseiro contou detalhes da participação de sua ex-namorada no crime. "Ela já estava na cadeia e a versão que o delegado me contou batia com a dela", ressaltou o agente.

Emoção
O depoimento do jornalista, que entrevistou a acusada quando ela foi presa, também contradiz com a suposta inocência da ex-empregada. Durante a entrevista, ela teria admitido que segurou Maria Cláudia para que Bernardino a estuprasse. Na segunda-feira, durante seu depoimento no Tribunal do Júri, a ex-empregada disse que só contou a versão antiga na delegacia porque os policiais a torturaram para obter a confissão.

O professor Marco Antônio Del'Isola, pai de Tatinha, primeira testemunha a depor, destacou que Adriana confessou a participação no crime logo que o corpo foi descoberto. Marco Antônio se emocionou em vários momentos e disse que Tatinha era "tranqüila e ingênua". Ao final de seu depoimento, o pai de Tatinha virou para os réus e desabafou. Disse que com o crime, todos perderam: ele, a filha; e os réus, a oportunidade de serem pessoas melhores. E encerrou com um recado. "Vocês merecem pagar exemplarmente pelo que fizeram".


Tentativa de amenizar culpa

Por mais de três horas, os advogados de Bernardino e Adriana usaram de todos os artifícios para tentar convencer o júri a "fazer justiça". Os dois defensores públicos queriam amenizar a culpa dos réus. Em um de seus argumentos, o defensor do ex-caseiro, André Ávila, procurou sustentar a tese de que não houve tortura e que o crime foi um homicídio comum. Ávila pediu que as qualificadoras de "meio cruel" e "recurso que impossibilitou a defesa da vítima" não fossem consideradas pelo júri com relação ao homicídio. O advogado tentou provar, ainda, que Bernardino não cometeu o crime de atentado violento ao pudor.

Ávila chegou a dizer que Maria Cláudia teve a chance de se defender, mas não o fez, porque confiava no empregado da família. "Não houve crueldade e sofrimento inútil", alegou. "Ele apenas a estuprou, não houve conjunção carnal (sexo anal)", defendeu, recorrendo a detalhes do caso.

O defensor reconheceu a "atrocidade" cometida pelo réu e qualificou o crime como um "teatro dos horrores". "O que Bernardino fez é macabro. Ele enganou Maria Cláudia e a levou para uma arapuca. Mas não podemos agir com sentimento de vingança, devemos fazer justiça", pediu Ávila.

Nas duas horas em que teve para defender Adriana, o advogado Michel de Souza Lima usou a mesma versão declarada pela acusada. A defesa alegou que não há provas nos autos sobre a participação da ex-empregada no crime de homicídio e pediu sua absolvição.

O defensor criticou a imprensa e disse que as declarações que Adriana deu aos veículos de comunicação, na época do crime, confessando sua participação no assassinato, não deveriam ser consideradas. "Em nenhum momento ela confessou ter matado Maria Cláudia. Bernardino não precisou da ajuda de Adriana para cometer esse crime", afirmou.

No entanto, a versão apresentada por uma das testemunhas, um agente policial, reforça a tese de que o crime foi mesmo premeditado pelos dois acusados. Segundo esse policial, o ex-caseiro teria comentado com Adriana que pretendia roubar a família e fugir. Então, a ex-empregada sugeriu que ele estuprasse Tatinha, já que ele tinha desejo por ela. Bernardino respondeu que se fizesse isso teria que matá-la para ninguém saber. "Então mata", teria respondido Adriana, de acordo com o depoimento do policial. O agente contou ainda que após o acordo, nas palavras de Bernardino, ela ficou "infernizando" ele para que executasse logo o plano.

Publica
do em: 12/12/2007