"Verdade é saber", diz presidente da Avós da Praça de Maio



Avós da Praça de Maio se candidatam ao Nobel
Foto: AFP

JUAN CARLOS JAIMES
Da Alemanha
As Avós da Praça de Maio, grupo de representantes de desparecidos durante a ditadura militar na Argentina (1966-1973), apresentaram nesta quinta-feira sua candidatura ao Prêmio Nobel da Paz. Em uma entrevista concedida na Alemanha, antes de seguir para a Suíça, a presidente da entidade, Estela de Carlotto, fala sobre direitos humanos na Argentina e comenta o desenrolar do escândalo nas Mães de Maio, organização abalada em denúncias envolvendo Sergio Schoklender, o ex-procurador da entidade, e Hebe de Bonafini, sua líder.

Terra: Como você avalia o tratamento que os meios de comunicação argentinos dão ao tema dos direitos humanos?
Estela de Carlotto: É um tema diário. Não somente entre os familiares das vítimas, mas também na sociedade como um todo. Nos meios mais progressistas, também se faz menção ao tema, e por isso a população está esclarecida e acompanha as demandas que os organismos de direitos humanos têm.

Terra: Como parte ativa da mobilização em defesa dos direitos humanos, o que você entende por verdade, justiça e reparação?
Carlotto: São palavras que dizem tudo. Verdade é saber. Uma mãe que tem um filho desaparecido quer saber a verdade do que aconteceu. A responsabilidade histórica de ter privado a vida de um ser humano, pois é o direito primeiro. A justiça é que, se alguém é um assassino, tem que pagar com o cárcere e todo o peso da lei.

Terra: Na Argentina, esses três pilares foram cumpridos?
Carlotto: Sim. A reparação existiu pois a Comissão interamericana de Direitos Humanos que visitou a Argentina avaliou que o Estado terrorista foi responsável pelos sequestros e mortes. Esse Estado tinha que compensar as vítimas, foi uma ordem. Então o governo Menem aceitou essa condição de castigo ao país, e a lei 24.411 deu uma reparação econômica às vítimas.

Terra: Que compromisso têm os jovens de hoje com a defesa dos direito humanos?
Carlotto: Na Argentina há uma ressurgimento incrível da participação política da juventude. Isso foi provocado por Kirchner quando formou grupos de jovens e os convocou, e nasceram organizações. No dia do seu velório, foi visível o acompanhamento. Estes jovens estão em movimento e exigem mudança.

Terra: Você acredita que o escândalo Schoklender pode vir a impactar de maneira negativa os órgãos de direitos humanos na Argentina?
Carlotto: As Avós mantêm o diálogo com todos os governos constitucionais. Um a um nos receberam. Temos feito pedidos; alguns nos responderam, outros não. Mas as duas últimas gestões fizeram muito. No entanto, consolidou-se algo eu estava pairando no ar, a atitude de Shoklender como integrante das Mães da Praça de Maio num empreendimento multimilionário de construção de casas. Era uma pessoa de comportamento depreciável, mas ninguém se envolvia pois não era nossa função. As denúncia vêm, e também afetam a imagem da presidente da instituição, Hebe de Bonafini.

Terra: Se Bonafini admitiu que suas discussões com Schoklender começaram há 12 anos, por que você acha que não o denunciou?
Carlotto: Se penso corretamente, posso concluir que talvez a confiança que tinha nele era tão grande que talvez tenham a fraudado sem que ela soubesse o que estava acontecendo. Não esqueçamos que ela adotou este homem quando saiu da prisão, chamando-lhe de seu filho. Eu afirmei que nós que dirigimos os órgãos não podemos ignorar o que ocorre dentro deles. Isso foi interpretado como se eu acusasse a senhora (Bonafini).

Terra: Você está bem informada sobre as finanças das Avós…
Carlotto: Sim, mas são finanças muito pequenas. Agora que crescemos e temos muita gente trabalhando de maneira remunerada, recebemos apoio do Estado pelo orçamento nacional e nos entrega uma quantidade de dinheiro.

Terra: Cristina Kirchner anunciou que concorrerá à reeleição. Como as Avós da Praça de Maio enxergam essa decisão?
Carlotto: É uma ótima notícia para a maioria dos argentinos. Pois Cristina realizou obras incríveis, é honesta, inteligente, e tem muita coragem. Quatro anos não são suficientes para cumprir com seu projeto de inclusão nacional e popular. Sua decisão vai ajudar muito a consolidação deste momento democrático. Nós iremos apoiá-la – não de maneira partidária, pois nunca apoiamos partidos políticos, mas sim sua gestão.