Meio milhão de mortos

 

Os dados são assustadores: entre 1996 e 2006, enquanto a população brasileira cresceu 16,3%, os homicídios aumentaram 20%. A partir de 2003, porém, a tendência é de queda na taxa de violência


Renata Mariz
Da equipe do Correio

 

Daniel Ferreira/CB
Eliana perdeu o irmão, morto a tiros, na semana passada: “não temos a quem apelar”
 

A violência explodiu entre 1996 e 2006. O número de mortes não-naturais no país subiu 20%, índice superior ao próprio crescimento da população, que foi de 16,3% no mesmo período. Apesar de uma tendência de queda verificada após 2003, quando houve um pico histórico de 51.043 vítimas, a quantidade de pessoas abatidas pela violência ainda é assustadora: 46.660 mortos em 2006. Os dados são do Mapa da Violência dos Municípios Brasileiros, estudo divulgado ontem pela Rede de Informação Tecnológica Latino-Americana (Ritla). O Distrito Federal ficou em 409º lugar no ranking nacional, mas com uma taxa de homicídios preocupante, de 32,1 por 100 mil habitantes, indicador maior que o da cidade de São Paulo, cuja média foi de 23,7.

O levantamento mostrou ainda que 73,3% dos assassinatos ocorridos no país em 2006 se concentraram em 10% dos municípios brasileiros. No ranking das 10 cidades com as maiores taxas de homicídios, a única capital é Recife (PE), em 9º lugar, que registrou 90,5 assassinatos para cada 100 mil habitantes. O indicador é calculado com base nos números de mortes violentas de 2002 a 2006. Coronel Sapucaia, na fronteira do Mato Grosso do Sul com o Paraguai, liderou a lista, com taxa de 107,2 homicídios. No segundo lugar ficou Colniza (MT), com 106,4. A cidade, em pleno arco do desmatamento, ocupava o posto de mais violenta do Brasil na edição anterior da mesma pesquisa, devido ao índice de 165,3 óbitos em 2004.

“Notamos que a violência tem migrado dos grandes centros urbanos para o interior do país. Esse fenômeno se deve ao fortalecimento dos sistemas de segurança das capitais, ao surgimento de pólos atrativos em cidades mais afastadas e também à melhoria no registro dos dados de mortes”, destaca Julio Jacobo Waiselfisz, sociólogo e autor do estudo. Segundo ele, as cidades no topo do ranking padecem da ausência do poder público. “São locais com ocorrências de grilagem, trabalho escravo, extração ilegal de madeira, onde não há lei nem direitos humanos”, explica. A região de fronteira é outro destaque na lista dos municípios violentos, a exemplo de Foz do Iguaçu, que ocupa o 5º lugar.

Distrito Federal
Em números absolutos de assassinatos ocorridos em 2006, São Paulo é o campeão, com pouco mais de 2,5 mil mortes registradas. O Distrito Federal aparece em 9º lugar, devido aos 769 homicídios notificados. Proporcionalmente ao tamanho da população, entretanto, a média de homicídios impressiona: 32,1 por 100 mil habitantes. A taxa é superior à da capital de São Paulo, que registrou 23,7 mortes. “Os números das cidades ao redor de Brasília empurram o índice para cima. Sabemos que há muita violência no Entorno”, destaca Jorge Werthen, diretor-executivo da Rede de Informação Tecnológica Latino-Americana (Ritla), que elaborou o estudo.

Eliane Lopes de Sousa conhece de perto a violência na capital. Ela perdeu o irmão, morto a tiros perto de casa, na Estrutural, há cinco dias. “Não temos a quem apelar, os policiais estão investigando, mas até agora não há pistas de quem fez essa maldade com ele”, diz a comerciante de 23 anos. A vítima, Lênio Lopes de Sousa, tinha 25 anos e deixou esposa e dois filhos, um deles com apenas um mês e meio de vida. “Não sei o que fazer. Agora é pedir ajuda a Deus e aos meus parentes”, lamenta a viúva Taíze Sousa.

PESQUISA AMPLA
Os números apresentados pelo Mapa da Violência dos Municípios Brasileiros têm como base o Sistema de Informações sobre Mortalidade do Ministério da Saúde, que centraliza informações das certidões de óbito emitidas em todo o país. Para controlar possíveis flutuações dos dados, as
taxas médias de homicídios foram calculadas a partir dos índices disponíveis dos últimos três anos (2004 a 2006), no caso de municípios com mais de 3 mil habitantes. Para localidades com população menor que essa, a média utilizada foi de cinco anos — 2002 a 2006.