Histórias de quem contava histórias


Quando o repórter vira nome de macaco

Em tantos anos de redação, colecionei histórias de uma gente anônima, completamente fora dos holofotes, dos tapetes acarpetados. Fora sobretudo do poder. E isso, em se tratando de uma cidade como Brasília, onde tudo gira em torno do poder, era um desafio constante pra mim. Gente que muito provavelmente jamais teria a oportunidade de aparecer em página inteira, com sua vida exposta, contando as suas mais profundas alegria ou dores. Conquistas, sonhos, planos. Contando a história de sua vida.
E, por mais incrível que pareça, eram essas as histórias mais lidas do jornal. E não sou eu quem diz isso. As pesquisas feitas com o leitor apontavam todos os dias. Gente gosta de ler sobre gente, aprendi isso com um grande jornalista. Pois bem, garimpei essa gente por onde andei. E olha que andei muito – aqui e fora daqui. Fui atrás de gente que pudesse me emocionar, para que eu emocionasse o leitor.
Onde havia a possibilidade de alguém abrir a porta de sua casa, lá estava eu. Era uma conquista, um desafio diário. Colegas me perguntavam como que conseguia arrancar os segredos mais íntimos dos entrevistados. Eu lhes respondia: “Sem perguntar nada. Apenas ouvindo. As pessoas precisam falar, elas só não encontram quem as ouça”. Jornalista, via de regra, está sempre com pressa.
Nem sempre era de gente que ia atrás. É bom que se diga. Mas, de tão desconcertante e genial, essa criatura de quem falarei hoje virou gente. Há 12 anos, estava eu, num plantão, quando recebi a ligação de uma fonte. Um detalhe: minhas fontes nunca foram assessores de nada. Eram pessoas comuns que me liam e me contavam o que viam pelas ruas. Quer privilégio maior do que ser pautado pelo leitor? Talvez tenha sido essa a minha maior conquista nos anos que estive numa redação. Mais do que os prêmios. Digo isso com muita sinceridade.
Atendi a ligação. A fonte me dizia: “Marcelo, tenho uma história que é a sua cara. Uma macaca do Zoológico de Brasília aprendeu a nadar para ir ao encontro do amante, em outra ilha, a dez metros de onde vive. Tá uma confusão só”. Mal ouvi aquilo, peguei o fotógrafo e fomos correndo para o lugar. Se não me engano, a primeira matéria, de uma série que se seguiu, fiz com Wanderlei Pozzembom.
Ao chegar, deparei-me com a cena mais inusitada que já tinha visto. Capitu, era o nome da macaca adúltera, estava om o amante, Eliseu, um jovem macaquinho. Otelo, o marido traído mais velho, rodopiava na ilha, olhando a safadeza da macaca. Estava enlouquecido de ódio. Só Capitu sabia nadar. Macacos, soube depois, nunca nadam. Mas ela, tresloucadamente, aprendeu. No meio da tarde, a desinibida voltou à ilha do marido. Afinal, tinha filhos para cuidar. Foi recebida a sopapos pelo marido traído. Do outro da ilha, o amante uivava, como se quisesse defender a amada. Essa história era muito humana. Muito real. Muito genial. E repito o que ouvi um dia: as pessoas gostam de ler sobre pessoas.
Contei isso tudo no jornal. No dia seguinte, o Zoológico lotou. O engarrafamento ia parar no Parkshopping. Temos fotos que comprovam isso. Todos queriam apenas ver a história do triângulo amoroso mais famoso de Brasília: Otelo-Capitu-Eliseu. Vinha gente de outros estados. O Zoo nunca arrecadou tanto. Virei “setorista” dessa história. Ia todos os dias ao encontro de Capitu. E contei a saga da macaca mais arrebatadora que já vi na vida. Cientistas europeus vieram estudar o comportamento da criatura.
Doze anos se passaram. Otelo e Eliseu morreram. Capitu sofreu. Entristeceu. Era visível o recolhimento dela na ilha. Emagreceu. Mas precisava cuidar das filhas. A danada sempre foi boa mãe. Hoje é uma senhora resignada e muito recatada (tem 20 anos, o que equivale a 40 na vida humana). Cuida das filhas e dos netos com esmero. E ainda manda na casa. Basta um olhar dela para que as filhas (Fernanda e Hamuta), os netos e até o genro garanhão (Luiz) murchem na hora.
É senhora de si. Escreveu a melhor história do Zoo de Brasília. Revolucionou, transgrediu, ousou. Quebrou todos os conceitos que, até então, os estudiosos sabiam sobre primatas. Colocou pra quebrar. Desceu o barraco. Aprendeu a nadar, minha gente! Só Capitu!!!
Em tempo: ano passado, nasceu o segundo neto, filho da filha caçula, Hamuta. O nome? A direção o batizou de Marcelinho Abreu. Isso mesmo. O macaquinho tem até certidão de nascimento. Definitivamente, não dá para esquecer essa história. Saudade de você, Capitu!