Conclusão do laudo é adiada

Peritos protelam para hoje a entrega do documento que vai esclarecer como ocorreu o acidente que matou duas crianças na BR-060 em dezembro de 2010
Lilian Tahan

Vyviane e Marcos Campos Moraes lutam pela investigação do acidente que tirou a vida de seus dois filhos, de 7 e 3 anos

O casal Vyviane e Marcos Campos Moraes terá de aguardar pelo menos mais um dia para conhecer o teor do laudo capaz de esclarecer as circunstâncias e apontar os responsáveis pela tragédia que matou seus dois filhos, Pedro Lucas, 3 anos, e João Marcos, 7. Em 17 de dezembro do ano passado, a família viajava pela BR-060 (Brasília-Goiânia), quando bateu de frente com um carro que tentava ultrapassar uma carreta. Testemunhas do acidente e relato da Polícia Rodoviária Federal indicam que o motorista da Saveiro estava em alta velocidade e fazia uma manobra imprudente quando acertou o Idea da família Campos Moraes. A sinalização de trânsito proibia a ultrapassagem no local.

Apesar das evidências de desrespeito às leis de trânsito, dos ferimentos, das mortes de duas crianças, da dor da perda, Vyviane e Marcos lutam pela investigação do caso, como mostrou reportagem do Correio publicada no último domingo. As apurações só foram iniciadas seis meses depois do desastre e, para que tenham um desfecho, dependem de um laudo da Polícia Técnico-Científica, prometido para ontem pelo coordenador da Divisão de Perícias Externas do Instituto de Criminalística de Goiás, Jair Alves da Silva, mas cuja conclusão foi adiada. A expectativa é de que a perícia seja entregue hoje ao Ministério Público e ao delegado que acompanha as apurações do acidente.

A perícia foi feita no dia do desastre, mas o documento será finalizado sete meses e meio depois. O laudo pode confirmar, por exemplo, se Fabrício Camargos Cunha Rodovalho — o motorista da Saveiro que bateu de frente com o Idea de Marcos e Vyviane — dirigia mesmo em alta velocidade como relatam testemunhas ouvidas recentemente no inquérito em curso na delegacia de Guapó, município onde ocorreu o acidente.

O delegado Davi Freire Rezende, responsável pelas investigações, disse ao Correio que só aguarda a chegada do laudo para relatar o inquérito e apresentá-lo ao Ministério Público. O promotor de Justiça à frente do caso, Marcelo Franco Assis Costa, assegurou que abrirá mão do prazo de 10 dias legais e dará encaminhamento à ocorrência logo após receber o inquérito. O Ministério Público deve denunciar Fabrício à Justiça pela morte das crianças e ferimentos em Marcos e Vyviane. Os dois recuperam aos poucos a condição física. Mas a dor na alma, essa não passa. O promotor estuda se irá acusar o motorista por dolo eventual (quando a pessoa assume o risco de matar).

“Não somos mais pais”

“Esperamos nove meses para ter o nosso João. Esperamos um ano para ele andar. Esperamos dois anos para ele falar. Esperamos sete anos para ele ler. Agora, não podemos esperar mais nada. Ele morreu. O mesmo aconteceu com seu irmãozinho, Pedro, que nem chegou a ler, mas aprendeu a andar e a falar. Como pais, esperar era parte da vida. Mas já não somos mais pais. Por isso, não tem sido fácil esperar uma solução que traga conforto e paz à nossa dor”. As palavras de Marcos e Vyviane expressam a angústia pela demora no desfecho das investigações que apuram o desastre de 17 de dezembro de 2010, quando seus dois meninos morreram.

O atraso no encaminhamento à Justiça sobre a tragédia que matou os irmãos deve-se em parte à demora da Polícia Civil em iniciar a apuração do caso. As investigações só começaram em 15 de junho e agora dependem de laudo da perícia, considerado decisivo para o assunto ser remetido aos tribunais de Justiça. O chefe das perícias externas de Goiás, Jair Alves da Silva, diz que a ausência de inquérito sobre o desastre por seis meses interferiu nos prazos de finalização do laudo, mas reconhece que a falta de estrutura do próprio departamento também provoca atrasos na solução de casos graves. Jair conta que há um desenhista para fazer o croqui de uma média de 15 a 20 perícias por dia.

O trabalho técnico é feito em seguida às ocorrências, mas a conclusão do documento pode demorar quase um ano, pois há outras etapas envolvidas. “Isso pode levar meses, pois a demanda é grande e o pessoal, insuficiente”, justificou Jair Alves, que reclama da pendência de mil laudos no aguardo de croquis. É justamente esse desenho que estava faltando ontem quando o Correio tentou ter acesso ao laudo que mostrará as circunstâncias do acidente ocorrido com a família Campos Moraes.

À espera de respostas, Marcos e Vyviane lutam para colocar em ordem uma vida que girava em torno dos filhos. No apartamento do casal, na 304 Norte, há lembranças dos meninos em cada cômodo. O casal doou carrinhos, bicicletas, velocípede, roupas, muitas peças. Mas a tartaruga e o pinguim de pelúcia com que eles dormiam abraçados ainda estão no quarto dos meninos. O homem-aranha, o homem de ferro, o batman também são doces recordações de uma infância interrompida com violência. Por meio de seu advogado, Fabrício, o motorista da Saveiro, disse que não vai se manifestar antes de conhecer o teor dessa perícia. (LT)
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Imprudência impune

O Estado que não se faz presente é fraco e aliado da impunidade. Esperamos que as autoridades acordem enquanto é tempo de os cidadãos de bem não serem obrigados a viver sob o comando de uma Justiça que não quer enxergar, que não quer cumprir o seu papel e por isso usa a venda nos olhos. O sentido dela, como sabemos, não é esse, mas está sendo, como em inúmeros casos denunciados diariamente pela imprensa responsável — inclusive pela matéria “Destruídos pela imprudência”. Além de extremamente doloroso, o caso é exemplo de que nós somos sobreviventes da displicência e abandono de quem é pago para nos proteger. Não me permitindo desistir da esperança de que o Brasil acolha seus filhos, torço firmemente para que os pais, Marcos e Vyviane, com seus corações dilacerados pela dor que não tem nome, encontrem respaldo nos profissionais e nas autoridades que ainda respeitam seus nomes e cargos.
Katia Aguiar, Lago Sul

» Com muita revolta, li a reportagem “Destruídos pela imprudência” (31/7, pág. 29). Ver uma família destruída pela irresponsabilidade e imprudência de um assassino travestido de motorista já é revoltante. Essas pessoas se julgam indestrutíveis, imortais, porque, indiscriminadamente, dirigem em velocidades altíssimas e ultrapassam em qualquer lugar e condição. Pior que isso é a certeza da impunidade. E pior ainda (sim, existe o pior do pior!) é o descaso das autoridades do estado de Goiás que, se fizeram algo, foi tão pouco que se pode chamar de quase nada. Louvo o Ministério Público pela iniciativa. Que as autoridades policiais e judiciárias assumam sua responsabilidade e deem um imediato basta na impunidade. Assumam esse caso como o maior dos exemplos e mostrem que Goiás ainda não é terra sem lei. Que a punição pela morte das duas inocentes crianças marque o início de uma era de justiça no estado. Ao Correio Braziliense, peço que acompanhe o caso até o desfecho.
Luciano Rodrigues de Faria, Asa Sul