Casa do Saber inaugura a sua centésima biblioteca, na zona rural da Vargem Bonita

Marcelo Abreu, Especial para o Correio

Publicação: 29/09/2011 09:39 Atualização: 29/09/2011 09:59

Ramon dos Santos, à frente dos colegas, sonha em ser professor. Aluno dedicado, ele tem promovido o encontro do pai, um pedreiro,com as letras

Ele mal dormiu. Esperou por esse dia faz algum tempo. Tem criança que espera por brinquedo. O menino esperava pelas letras como milagre. E lá estava ele, com cara de descobrimento. Ávido por saber. Queria perguntar. Folhear tudo. O pai pediu-lhe que calçasse o tênis. Está meio surrado, mas é o único que tem. Afinal, ia estar diante de uma gente importante. Todo mundo que sabe escrever e ler, para o pai do menino, vira doutor. Ramon Rocha dos Santos, 9 anos, é o protagonista da história de hoje. E não poderia haver protagonista melhor. Ramon faz gente acreditar em gente. Ainda.

E quando essa história começou, há 4 anos, o menino ainda aprendia a falar, com o pai, que nunca foi à escola. Estamos na Vargem Bonita, um lugar com 1,5 mil habitantes, a 30km do Plano Piloto e cheio de contrastes. Não há lazer algum, o transporte público é precário e a região é toda cercada por chácaras e suas plantações. Ao lado de toda essa precariedade, está o nobre Park Way e suas mansões cinematográficas. Dois mundos — tão próximos, mas imensuravelmente distantes

Ramon mora com o pai numa dessas chácaras. O pai é pedreiro, não sabe ler nem escrever o próprio nome. Mas ensinou ao filho que só pela escola ele pode ter outro caminho. O menino quer ser professor. É um dos mais aplicados da sala onde estuda. Na manhã de ontem, ele estava lá, com suas calças curtas e o tênis surrado, no meio daquela gente letrada. E carregava um sonho: “Vou ser professor pra ajudar mais gente”. Mais que isso: “Vou ensinar meu pai a ler e a escrever”. Como? “Eu pego a mão dele e junto as letras. Ensino pra ele como se forma uma palavra. Ele tá aprendendo.”

A professora de Ramon, Irelene Lúcia Bose, 39 anos, testemunha o esforço do aluno: “Ele faz isso mesmo. A mãe não mora com eles. É ele quem ajuda o pai a entender as coisas. O Ramon quer vencer, é esforçado demais. Ele emociona a gente”.

Mas, afinal, o que o mirrado Ramon fazia ontem pela manhã no meio daquela gente, na zona rural da Vargem Bonita? Ele e toda a sua escola — a única da região — foram convidados para um grande evento: a inauguração da primeira biblioteca comunitária do lugar. Festão àquela manhã, naquela comunidade humilde. Ia ter até banda dos fuzileiros navais. A música quebraria a rotina do lugar normalmente pacato.

 

Carmen Gramacho, coordenadora-geral do projeto, leva livros e sonhos a pessoas quase esquecidas

Sem governo
E o dia chegou. Sob o comando de uma mulher de graúdos olhos verdes e que ainda se emociona com gente, o evento foi aberto. Carmen Gramacho, 66 anos, estava lá, com energia de menina, para mais uma missão: levar àquela comunidade onde não existe nada um espaço de leitura e pesquisa.

Há quatro anos, Carmen virou a coordenadora-geral do Projeto Casa do Saber, da Rede Gasol. Nesse tempo, ela e sua equipe abriram bibliotecas em lugares aonde o governo, pelo menos com este fim, jamais chegou. E, provavelmente, nunca chegará. Essa gente esteve em presídios, em abrigos para menores infratores e em muitas, muitas escolas da zona rural do DF. Levou livros e sonhos a uma gente que, por pouco, não é quase completamente esquecida.

Na manhã de ontem, na Vargem Bonita, o número foi redondo. A Casa do Saber inaugurou a sua centésima biblioteca. Um velho galpão foi reformado, pelo grupo Gasol. Chegaram ali cadeiras, mesas e estantes. E a população do DF doou os 10 mil livros que ocupariam seus espaços. Era hora, então, de inaugurar. E assim se fez.

A Casa do Saber, em quatro anos, inaugurou a sua centésima biblioteca comunitária. Havia motivos de sobra para a comemoração. O espaço foi instalado ao lado do único posto de saúde e perto da também única escola da região. Mauro Rocha, 37 anos, diretor do Centro de Ensino Fundamental da Vargem Bonita, era só alegria: “Essa biblioteca é de suma importância pra nossa comunidade. Só temos a da escola e, mesmo assim, só dispomos de dois mil livros”. Elisimar Lima, 42, a vice-diretora, vibra: “Agora temos como incentivar mais a leitura e a pesquisa. Não só dos nossos alunos, mas também dos ex-alunos que nos procuram sempre e, às vezes, não temos como atendê-los”.

Festa e bolo
A Banda dos Fuzileiros Navais, parceira constante, se aproximou. Tocou o Hino Nacional. Os funcionários e pacientes do posto de saúde foram assistir a apresentação. Ramon estava inquieto. Queria logo entrar na biblioteca. Carmen agradeceu à equipe, em especial a Isa Antunes, 71 anos, que, assim como ela, engajou-se voluntariamente nesse projeto há quatro anos. Bibliotecária experiente, coube a Isa catalogar todos os 2 milhões de livros que chegaram ao projeto. Trabalho sem fim. Dedicação sem preço: “Foi um longo e gratificante trabalho”.

Antônio Matias, 68 anos, diretor operacional da rede Gasol, estava como Ramon. “Eu não dormi nada nessa noite”, revela. E deixa escapar por que tamanha emoção: “É a sensação de cidadania, de podermos ajudar a população que mais precisa”.

Os fuzileiros navais pararam de tocar. Encerraram-se os discursos, do lado de fora da biblioteca. Ramon contava os segundos para entrar naquele espaço cheio de possibilidades. E, finalmente, todos foram convidados para entrar. Um mundo de faz de conta estava ao alcance de todos.

Iuri Coutinho, 10 anos, foi direto: “Aqui é como uma oficina. Só que não tem peças, mas livros. E com eles a gente aprende ”. De chinelo de dedo, Lucas Gomes, 9, folheou um livro de histórias infantis: “Todo dia que leio, aprendo mais um pouco. É como se minha cabeça fosse aberta”. “Ah, o que eu vou ser quando crescer? Médico”, responde o filho de uma doméstica.

Anita Geovana dos Reis, 9 anos, não tem mais dúvida. “Quero ser desenhista e escritora, mas preciso ler muito, se quiser escrever bem. A biblioteca vai me ajudar pra sempre”, diz a menina, filha de um mecânico.

E cada um comemorou da forma que pôde a chegada da biblioteca. A moradora Vildenir Negrão Miho, 44 anos, sonha em levar àquele espaço, onde todos os sonhos são possíveis, rodas de saraus. “Nossa comunidade precisa disso e esse lugar veio para nos resgatar”, avalia.

Hora do bolo, do outro lado da rua, na sede da Emater (Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural). A meninada fez fila pelo pedaço. Alguns quiseram ficar na biblioteca. Ramon foi um deles. Havia muito para ver, ler, pesquisar. Havia um mundo inteirinho para descobrir. Carmen, tentando disfarçar as lágrimas, comemorou a centésima biblioteca em apenas quatro anos. Um recorde.

A partir de hoje, o espaço é de toda a comunidade. Parou por aqui? “Agora, é o momento de revermos o projeto como um todo, avaliar o que deu certo, fazermos levantamentos, o que podemos melhorar em cada espaço”, explica a coordenadora-geral. E Carmen, sempre forte, fraqueja a voz: “Passamos por toda sorte de experiência com esse trabalho”. E compara: “É como um filho, que cresceu, ficou grande demais e agora ganhou o mundo”.

Dentro da biblioteca, o miúdo Ramon sonha ser professor. Folheou páginas de livros como se folheasse a vida de menino. Pensa no pai. Quer ensiná-lo a ler, sem que precise pegar mais na mão calejada do homem que carrega pedras e tijolos. Ramon quer inventar um mundo diferente pra ele mesmo. O menino da zona rural da Vargem Bonita quer ser professor. Livros são capazes de transformar rumos e mudar vidas completamente. Fazem até renascer. Essa é uma história de possibilidades.

ARTIGO
O sábio que não sabia ler

Sem pompa, sem tapete vermelho, sem político descerrando faixa e fazendo disso marketing para voto em disputa eleitoral. Sem verbas ou emendas faraônicas. Sem desvios. Sem maracutaias. Foi assim, simplesinho desse jeito, que a Casa do Saber inaugurou 100 bibliotecas em quatro anos. E nos lugares mais diversos — alguns inimagináveis — aqui no DF, no Entorno e até muito longe dos limites da terra de JK.

Onde havia espaço, elas chegavam. Dentro de escolas públicas, em associações comerciais, em centros de ressocialização de menores infratores, em presídios… E a matemática desse projeto é assustadora. E fascinante. Em quatro anos, 2 milhões de livros arrecadados: 960 mil colocados diretamente nas bibliotecas. Cem mil foram levados para o Nordeste do país, Angola e Rio de Janeiro — esse último teve endereço certo: as regiões castigadas pelas enchentes do ano passado.

Quem ajudou? A comunidade de Brasília. Uma gente solidária que ia aos postos de coleta e lá depositava o que sobrava em suas casas. Livros quase novos. Ou até mesmo novos, decorando estantes mudas. Toda doação teve endereço certo. Chegou até aonde só se chega a cavalo, em estrada de terra batida. Lá, a biblioteca virou patrimônio sagrado. Nas inaugurações, gente humilde colocava sua melhor roupa para a chegada do evento. Aquilo era uma celebração.

Tive o privilégio de acompanhar algumas delas. Estive no presídio da Comeia, em escolas públicas e na zona rural. No Capão Seco, região do Paranoá, 70km de Brasília — um lugar tão perto e a anos-luz do poder da capital —, conheci um homem chamado Santil Alves Ribeiro. Aos 87 anos,em setembro passado, ele inaugurou a primeira e única biblioteca do lugar. E nada mais justo que levar seu nome.

Sem saber escrever o nome, Santil lutou contra a ditadura, peitou homem fardado e instalou uma escola por lá, há quase 50 anos. Os nove filhos aprenderam as letras que o pai sempre quis decifrar. Hoje, os netos e os bisnetos estudam na biblioteca que leva o nome do avô. No dia da inauguração, todas as condecorações foram pra ele. Ele vestiu o melhor terno. Segurando seu velho chapéu Panamá no peito, lembrou, com a voz trêmula de emoção: “O estudo salvou a vida dessa gente daqui”. E levou quem ali estava às lágrimas: “Eu não sei ler, mas o coração sabe sentir. Deus vai proteger todos vocês. Que ninguém mais passe pela vida sem conhecer as letras”.

Mesmo que a Casa do Saber tivesse inaugurado apenas essa biblioteca no Capão Seco, na terra do sábio Santil, já teria valido a pena todo o projeto. Lição de casa: solidariedade se espalha. Gente reunida faz. E o que é melhor: não depende de autoridade de plantão, louca pelos flashes para colher dividendos. Ainda há esperança.( Marcelo Abreu)