Jornal de Brasília – 02/04/2008

 

CASO TATINHA
Ferida exposta de novo

Fotos de laudo vazam na internet. Polícia Civil e TJ investigam


Carlos Carone e Mara Puljiz

Imagens que retratam a crueldade, a violência e o que existe de pior no ser humano correm como um rastro de pólvora pela rede mundial de computadores. A internet passou a ser usada, de forma criminosa, como veículo para difundir fotos relatadas no laudo pericial que compõe o inquérito sobre o assassinato brutal da estudante Maria Cláudia Siqueira Del'Isola, 19 anos, em dezembro de 2004. Os responsáveis pela veiculação das imagens são alvos de investigação da Polícia Civil e da Justiça.

Sem qualquer preocupação,  alguém copiou 35 páginas do laudo, feito por peritos do Instituto de Criminalística (IC) da Polícia Civil, por meio de um scanner (aparelho que digitaliza o conteúdo de documentos impressos), e jogou, na íntegra,  todas as fotos na internet.

As imagens mostram o trabalho da perícia no momento da retirada do corpo, que foi encontrado no dia 12 de dezembro de 2004, após três dias enterrado debaixo da escada que fica na casa de Maria Cláudia, no Lago Sul.

Quem transmitiu as fotos fez questão de publicar somente as páginas do laudo em que existem fotografias do corpo (inclusive passando por exames de necropsia nas dependências do Instituto Médico-Legal). Todas as páginas digitalizadas possuem o carimbo do Tribunal de Justiça do DF (TJDFT) e a assinatura dos peritos criminais que trabalharam no caso.

Trabalho conjunto
Há cerca de um mês, a Polícia Civil trabalha para identificar quem foi a primeira pessoa a veicular as imagens na internet. Trabalhando juntos, agentes da Divisão de Inteligência (Dipo) e da Divisão de Repressão aos Crimes de Alta Tecnologia (Dicat) tentam mapear o caminho virtual percorrido pelo arquivo que jamais poderia ser repassado por meio de e-mails.

A Dicat trabalha com um método de investigação chamado "engenharia reversa". A ação identifica os IPs (uma espécie de identidade que cada computador possui) para localizar as pessoas que estão repassando as imagens. Segundo o diretor do Departamento de Atividades Especiais (Depate), delegado Celso Ferro, várias pessoas já foram intimadas a prestar esclarecimentos na delegacia. "É uma questão de tempo até encontrarmos quem decidiu, de forma criminosa, jogar esse laudo completamente sigiloso na internet&q
uot;, garantiu.

A polícia acredita que as folhas do laudo possam ter sido reproduzidas no local onde ficam, no TJDFT. "De dentro do IC, da delegacia ou do IML eu garanto que não foi", disse Celso Ferro. Uma das principais provas do vazamento é que as reproduções foram feitas a partir de documentos originais, daí a aparência colorida das fotos que  são veiculadas por e-mail.

O laudo pericial, que faz parte do inquérito concluído pela polícia, percorre um caminho sinuoso até chegar até o TJDFT. Quando ele é concluído pelo delegado, todas as partes do processo são enviadas para a apreciação do Ministério Público. Depois, retorna à delegacia, caso haja a necessidade de novas apurações. Finalmente, tudo é encaminhado ao TJDFT para análise do juiz, que irá julgar os suspeitos apontados como autores do crime

 

Alguns suspeitos já estão na mira

De acordo com Celso Ferro, alguns advogados e funcionários do MP foram identificados repassando o conteúdo dos laudos pela internet. "Estamos investigando até um jurado que participou do julgamento", afirmou. Informações de bastidores na Polícia Civil também da conta de que um estagiário do MP teria digitalizado as páginas e repassado a amigos, por e-mail.

O TJDFT abriu investigação interna para apurar o caso. A direção da Polícia Civil enviou ofício ao presidente do Tribunal do Júri, juiz João Egmont. Ontem à tarde, o magistrado respondeu, também por meio de ofício, que irá apurar a denúncia.

A família Del'Isola teve conhecimento que as fotos haviam vazado, no início do mês passado. A mãe, a pedagoga Cristina Maria Del'Isola, recebeu a informação por meio de uma amiga que trabalha na Câmara Legislativa. As fotos também estavam chegando às caixas de e-mail dos servidores da Casa.

No dia 12 último, Cristina registrou a ocorrência da 10ª Delegacia de Polícia (Lago Sul). O delegado titular, Antônio Cavalheiro, já abriu inquérito para apurar o caso. "Vamos trabalhar em conjunto com a Dicat para chegar até as pessoas responsáveis por colocar as imagens do laudo na internet", ressaltou. O delegado explicou que o responsável pelo vazamento poderá responder por violação de sigilo funcion
al. A pena para esse crime varia de dois a seis anos de prisão.

Dor para a família
A notícia do vazamento reascendeu a dor da família Del'Isola. A inconseqüência da pessoa que divulgou as imagens trouxe de volta as lembranças de um passado triste e difícil de ser suportado. Depois de passar pelo julgamento dos assassinos de Tatinha (como era conhecida Maria Cláudia), no final do ano passado, Cristina e Marco Antônio, o pai, correm agora em busca de punição para os responsáveis pelo vazamento destas informações.

Ontem, Cristina esteve Dicat em busca de informações sobre o caso. Ainda no início da tarde, a mãe de Tatinha passou mal e voltou para casa. "Não estou em condições de falar sobre esse assunto no momento. Tem sido um tormento muito grande para nós", disse. Cristina está sob cuidados médicos.

O Movimento Maria Cláudia pela Paz, estarrecido diante dos fatos, divulgou nota sobre o assunto. "É inimaginável o que leva o ser humano a cometer atos tão sórdidos. Como se já não bastasse todo o sofrimento da família Del'Isola, sacrificada ao longo dos últimos três anos, desde a tragédia que ceifou a vida de Maria Cláudia, ter de encontrar forças para se deparar com mais um ato inescrupuloso, onde pessoas de má-fé tem a crueldade de divulgar material subtraído ilegalmente e com interesses obscuros de processo que se encontra sob a tutela do TJ, utilizado para julgamento dos bárbaros e covardes assassinos", diz a nota.

O movimento destaca, ainda, na nota que o caso está sendo investigado pelas autoridades competentes, o que soma à súplica da família.

 

 

 

 NOSSA OPINIÃO
A crueldade perpetuada

Jorge Eduardo Antunes

Editor Chefe do Jornal de Brasília

 

A internet é um instrumento poderoso de difusão cultural e de informação. Mas é, também, um perigoso biombo que esconde os criminosos da era moderna. Já convivíamos com bandidos que assaltavam contas, instalando vírus nos computadores para roubar dados bancários. Estes ladrões, porém, são evitáveis, como os de carne e osso, bastando tomar certas precauções.

Recentemente, passamos a dividir espaço com outros criminosos, os pedófilos. Protegidos pelas telas de seus computadores e dos cybercafés, estes bandidos sexuais difundiam mundo afora as práticas nojentas que são capazes de cometer com crianças e adolescentes. Há pouco tempo, tivemos outro péssimo exemplo: os incitadores de suicídios, que encontram vasto campo no suposto segredo da internet. Fora os caluniadores, os alarmistas… enfim, fora uma gama de "pessoas" que usam a internet como ponto de satisfação de suas mentes doentias.

Agora, estamos diante de um novo caso explícito do péssimo estado de certas almas humanas. A família Del'Isola, já sup
liciada pelo martírio da doce jovem Tatinha por dois bárbaros assassinos, descobriu que fotos sigilosas, de conteúdo processual e reservado, caíram na mão de "pessoas" de caráter distorcido – se é que há algum resquício de caráter nelas. E que essas "pessoas" simplesmente escanearam fotos de um laudo pericial, instumento poderoso numa investigação policial, e as difundiram por e-mail, para outras "pessoas" do mesmísimo quilate, que as propagaram pela rede.

A notícia chegou ao Jornal de Brasília, na noite de segunda-feira, e instalou-se na redação um dilema: noticiar o caso não seria uma forma de incitar a curiosidade mórbida que certos seres humanos têm diante da violência?

Mesmo diante desta questão, o Jornal de Brasília optou por não esconder o fato da sociedade, mas sim as cruéis imagens. Só assim, jornal e sociedade, podem alinhar-se à família de Tatinha na busca por todos os responsáveis pela difusão das fotos, que nada acrescentam a um ser humano fora de um ambiente de investigação ou de julgamento de um crime.

O caso do vazamento destas fotos é emblemático e deve marcar uma posição em nossa sociedade. Não basta "não ver" fotos deste tipo; é preciso denunciar quem as difunde pela internet, com o mesmo rigor que se faz quando se está diante de um assaltante cibernético ou com o mesmo nojo que faríamos se estivéssemos diante de um caso de pedofilia. Quem não denuncia é conivente. Nós, do Jornal de Brasília, não seremos.

A partir de agora, após tornar público o caso, nossa função, como veículo de imprensa, será acompanhar passo a passo esta investigação, até a identificação, indiciamento e prisão dos responsáveis. O Jornal de Brasília tem, em sua redação, pais e mães que tentaram se colocaram no lugar da família Del'Isola neste novo momento de sofrimento, e que se indignaram com a nova barbaridade cometida. Por isso, vamos cobrar das autoridades uma solução rápida para o caso, com punição exemplar dos culpados, pois acreditamos ser inconcebível este abjeto uso da internet.

Paralelo a isso, vamos liderar uma campanha pelo uso consciente da rede mundial de computadores. Queremos uma internet sadia, na qual nossos filhos possam se informar e absorver cultura, e não ter lições explícitas de sadismo, pornografia e outras baixezas. Queremos, acima de tudo, não ver repetidas cenas como esta – e como em outros tantos casos de crimes e acidentes, cujas fotos acabam em powerpoints e outros arquivos apenas para satisfazer a sanha de baixeza de algumas pessoas que não merecem sequer ser chamadas de seres humanos.