Mais uma violência contra Maria Cláudia



Adriana Bernardes
Da equipe do Correio
Gustavo Moreno/Especial para o CB
Crueldade chocou Cristina: “O impacto desse horror não passa”

Reprodução de internet – 01/04/08
Material divulgado mostra carimbos e assinaturas do TJDF
 

Atormentada pelo pesadelo da morte brutal da filha, a família Del’Isola sofreu um novo golpe. Fotos sigilosas do processo Maria Cláudia Del’Isola foram parar na internet. As imagens usadas pela polícia e pela Justiça para desvendar a causa da morte e os vestígios dos assassinos tornaram-se públicas, alimentando a curiosidade mórbida de qualquer um que buscasse pelo material. A estudante foi brutalmente assassinada em dezembro de 2004 e enterrada dentro da própria casa.

As cenas chocaram até quem trabalha na polícia e, por dever do ofício, está acostumado com a violência de que pessoas podem ser capazes. Ao todo são 35 páginas, cada uma com uma foto. Descrevê-las em detalhes reforçaria o ato criminoso de quem reproduziu e divulgou o material ilegalmente na internet. As imagens são o registro feito por peritos do Instituto de Criminalística no dia em que o corpo da estudante foi descoberto e desenterrado. Também foram divulgadas as fotos feitas pelos médicos do Instituto de Medicina Legal durante a necropsia.

Estarrecidas com a crueldade dos responsáveis pela divulgação do material, pessoas próximas da família contaram que Cristina Del’Isola, a mãe da estudante, está sob cuidados médicos. “Eu não estou bem. O impacto desse horror não passa. Preciso me recompor”. Essas foram as únicas palavras que a mãe da estudante conseguiu dizer ao Correio, por telefone. O marido, Marco Antônio Del’Isola, que está fora de Brasília em uma viagem a trabalho, limitou-se a dizer: “Meu coração está partido. Essa é uma atitude descabida, absurda”.

Suspeitos
A divulgação das fotos é considerada crime de violação de sigilo funcional. O Correio apurou que a polícia tem dois suspeitos, que manusearam o processo de Maria Cláudia. No canto superior direito de cada página, há o carimbo do Tribunal de Justiça do DF (TJDFT). Por isso, a polícia acredita que o vazamento das imagens ocorreu quando o processo já estava sob os cuidados da Justiça.

O vazamento das imagens é apurado desde 12 de março, quando a família da estudante registrou queixa na 10ª DP (Lago Sul). Não é possível saber a origem e nem quantas pessoas receberam o e-mail. Quem espalhou as mensagens teve o cuidado de enviá-las com cópia oculta. Por isso só aparece o último remetente.

O delegado-chefe da 10ª DP, Antônio Cavalheiro, pediu apoio à Divisão de Repressão aos Crimes de Alta Tecnologia (Dicat), para descobrir a origem das mensagens. Os investigadores estão rastreando os e-mails. “Quem fez isso pode ter cometido mais de um crime. Não sabemos se as fotos foram furtadas do processo. Vamos descobrir quem fez, como fez, e com que objetivo distribuiu esse material”, informou um agente da Dicat que preferiu não se identificar.

Se condenado, o responsável pode pegar até seis anos de prisão. “É um absurdo, um constrangimento para a família, para a Justiça e para a polícia”, declarou Antônio Cavalheiro. Por meio da assessoria de imprensa, o Tribunal do Júri avisou que só vai comentar o caso após o final das investigações. O promotor Maurício Miranda, que acompanhou o processo, também preferiu aguardar a conclusão da investigação policial.

O Movimento Maria Cláudia Pela Paz divulgou nota de repúdio no início da noite de ontem. A coordenação do movimento diz estar estarrecida diante dos fatos. “… é inimaginável o que leva o ser humano a cometer atos tão sórdidos…”. A nota destaca o sofrimento da família e a necessidade de superar mais esta dificuldade: “…ainda tem de encontrar forças para se deparar com mais um ato inescrupuloso, onde (sic) pessoas de má-fé têm a crueldade de divulgar material subtraído ilegalmente e com interesses obscuros, de processo que se encontra sob a tutela do TJDFT, utilizado para o julgamento dos bárbaros e covardes assassinos…” A nota encerra com um pedido, em nome dos pais e da irmã de Maria Cláudia, para que as pessoas não repassem as fotos.

Os assassinos de Maria Cláudia, a empregada doméstica Adriana de Jesus Santos, 25 anos, e o caseiro Bernardino do Espírito Santo Filho, 34, eram empregados de confiança da família. Foram julgados e condenados em dezembro de 2007 — ele a 60 anos de prisão, e ela a 58.


É um absurdo, um constrangimento para a família, para a Justiça e para a polícia, para todos nós. A família sofre duas vezes, na época do crime e agora, com o vazamento das informações
Antônio Cavalheiro, delegado-chefe da 10ª DP