Jornal de Brasília – 03/402008

{mosimage}CASO TATINHA
Rastreamento minucioso

Polícia Civil aprofunda apurações para saber quem vazou imagens


Carlos Carone

A Polícia Civil mergulhou fundo nas investigações sobre o vazamento de 35 folhas que fazem parte do laudo pericial feito no corpo da universitária Maria Cláudia Siqueira Del'Isola, 19 anos, assassinada de forma cruel pelos próprios empregados de sua casa, em 9 de dezembro de 2004. Imagens sigilosas do processo foram difundidas na internet. Ao todo, 15 pessoas já foram ouvidas por agentes da Divisão de Repressão aos Crimes de Alta Tecnologia (Dicat) , inclusive uma estagiária do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT), que repassou as imagens por e-mail.

Conforme publicou ontem o Jornal de Brasília, alguns dos sete jurados que participaram do julgamento dos acusados de matar Maria Cláudia, em dezembro do ano passado, também passaram a ser alvo de investigação. As páginas que compõem o laudo contêm imagens que mostram o trabalho de peritos do Instituto de Criminalística (IC) no momento da retirada do corpo da universitária, encontrado no dia 12 de dezembro de 2004, após três dias enterrado debaixo da escada que fica na casa de Maria Cláudia, no Lago Sul.

Cada imagem reproduzida ainda possui o carimbo do Tribunal do Júri do DF. As suspeitas recaíram sobre os jurados pois todos receberam, dias antes do julgamento, cópias coloridas do documento, justamente como aparecem nos e-mails.

Ofício
Segundo o delegado titular da Dicat, Sílvio Cerqueira, um ofício foi enviado ao presidente do Tribunal do Júri, juiz João Egmont, pedindo a lista completa de todos os dados pessoais dos jurados. "Vamos intimar todos eles para prestarem esclarecimentos. Uma das linhas de investigação é de que as fotos podem ter vazado por um deles", explicou o delegado.

A promotora de Justiça que trabalhou no caso de Maria Cláudia, Maria José Miranda, foi uma das primeiras pessoas que procurou a Dicat para informar sobre o vazamento das imagens na internet. "A cada dia, fico mais impressionada com a maldade de algumas pessoas", observou. Segundo ela, existe a possibilidade de o laudo ter sido reproduzindo do local onde está arquivado, na Vara Criminal do Tribunal do Júri. "Como os advogados de defesa não recorreram da sentença que condenou os dois autores do homicídio, o processo já transitou em julgado", explicou.

A promotora lembrou que partes do processo deverão ser enviados logo para a Vara de Execuções Criminais (VEC) e, depois, para o arquivo do TJDFT, que fica no Setor de Garagens Norte. "Por enquanto, todo o processo continua no Tribunal", disse. No entanto, o que mais intriga a promotora é que todas as máquinas de xerox que existem no TJDFT não tiram cópias coloridas, como as que estão sendo repassadas. "Por esse motivo, a polícia está desconfiando dos jurados. Eles puderam levar para casa as cópias do laudo", disse.

O trabalho de investigação feito pelo Dicat vai além de apenas descobrir a identidade dos jurados. A Polícia Civil identificou o programa usado para publicar as fotos na rede mundial de computadores. A empresa de software, dona do programa, irá auxiliar os agentes na busca pela primeira pessoa que repassou as imagens do laudo pericial. Como as fotos foram criadas em formato PDF – espécie de extensão usada para compactar arquivos de texto e imagem, muito usada por gráficas – a empresa consegue rastrear o computador e o nome do usuário que jogou as fotos na internet.

Segundo o delegado, caso o computador usado para reproduzir as folhas do laudo seja identificado, o suspeito poderá ser localizado facilmente.


Cerco está se fechando

"Vamos esperar a resposta da empresa de software e ver se chegamos a algum lugar", afirmou o delegado Sílvio Cerqueira. Outros meio de localização também foram adotados pelos agentes da Dicat. O principal deles é lento e muito trabalhoso. Os policiais estão entrando em contato com os donos de todos os e-mails que receberam e depois foram usados para repassar as imagens. "É praticamente um trabalho braçal, já que se trata de centenas de endereços eletrônicos, mas vamos entrar em contato com todas essas pessoas", afirmou Cerqueira.

O titular da Dicat fez questão de frisar que, caso as folhas do laudo tiverem sido digitalizadas em alguma lan house, o dono do estabelecimento pode ser alvo de processo cível movido pela família de Maria Cláudia. Por lei, os responsáveis pela lan house são obrigados a registrar todos os usuários que utilizam as máquinas. "Se o computador localizado fizer parte de uma lan house, e os proprietários não tiverem o nome de todos que utilizaram o serviço, eles serão processados", disse.

O delegado que concluiu o inquérito na época do crime, Antônio José Romeiro, lembra que todo o trabalho foi feito em uma velocidade além do habitual. "Lembro que descobrimos o corpo no dia 12 de dezembro de 2004 e, antes do Natal daquele ano, já havíamos relatado o inquérito para o MP. Depois que o processo foi entregue à Justiça, não acompanhei mais a tramitação dos documentos ", disse.

Apesar do apoio da Dicat, o caso está sendo conduzido por policiais da 10ª Delegacia de Polícia (Lago Sul). A mãe de Maria Cláudia, Cristina Maria Del'Isola registrou ocorrência na delegacia, no último dia 12, após tomar conhecimento que as fotos da filha estavam sendo veiculadas nas internet.

O delegado-chefe da 10ª DP, Antônio Cavalheiro, disse que trabalho de identificação é demorado, mas que todos os responsáveis pela difusão das imagens serão identificados. Ele explicou que o responsável pelo vazamento das imagens poderá responder por violação de sigilo funcional e pegar até seis anos de prisão