Em busca do primeiro e-mail



Adriana Bernardes e Guilherme Goulart
Da equipe do Correio
Kleber Lima – 7/1/05
Indignação de mãe: Cristina acompanha de perto a investigação e espera a punição dos culpados

José Varela/CB
Para Cerqueira, pessoa que passou e-mail não tem moral
 

A polícia está cada vez mais perto de descobrir a origem do primeiro e-mail com as fotos sigilosas do processo sobre o assassinato da estudante Maria Claudia Del’Isola, reproduzidas e disseminadas ilegalmente pela internet. A Divisão de Repressão aos Crimes de Alta Tecnologia (Dicat) aprofunda as investigações com ajuda do fabricante de um software que gera documentos no programa PDF. Foi esse o formato de arquivo usado para agrupar e divulgar as imagens feitas por peritos da Polícia Civil na casa da vítima, no Lago Sul, e também do exame de necropsia realizado no Instituto de Medicina Legal (IML).

A Dicat pediu a colaboração do fabricante do programa de informática na semana passada. Caso a empresa tenha controle dos usuários, será possível descobrir o computador usado para mandar a primeira mensagem. O levantamento pode dar detalhes como dia, hora e até se houve impressão das imagens feitas exclusivamente para esclarecer as causas da morte e levantar pistas dos assassinos da estudante. “O que interessa é descobrir a mensagem número um. Aí, vamos perguntar para quem a recebeu ou mandou como teve acesso às fotos”, explicou o diretor da Dicat, delegado Silvio Cerqueira.

Cerca de 15 internautas que receberam e replicaram e-mails com as imagens foram ouvidos pela equipe da Dicat nas duas últimas semanas. O nome deles será incluído no relatório que a especializada entregará ao delegado-chefe da 10ª Delegacia de Polícia (Lago Sul), Antônio Cavalheiro, responsável pela investigação do caso.

A polícia diz não ter como estimar quantos e-mails foram encaminhados porque a difusão dos arquivos acontece de forma geométrica. Mas suspeita que o primeiro a ter acesso às imagens as copiou com um scanner. “Analisamos as imagens e percebemos as sombras características desse tipo de reprodução”, adiantou Cerqueira. “Quem copiou e repassou tem valor moral perto do zero. A pessoa que recebe e passa para frente também. É um ato de extremo mau gosto e de uma característica de prazer mórbido indescritível”, avaliou. Ele recomenda a quem receber o arquivo que o apague sem ler.

Prioridade
O vazamento das imagens ocorre pelo menos desde 12 de março último, quando a mãe de Maria Cláudia, a pedagoga Cristina Del’Isola, denunciou o caso à polícia. Por enquanto, os investigadores trabalham com dois suspeitos. Acredita-se que eles manusearam o processo judicial, pois algumas imagens escaneadas revelam o carimbo do Tribunal de Justiça do Distrito Federal (TJDF). Assim, a polícia desconfia que o crime de violação de sigilo funcional foi cometido enquanto o processo estava sob os cuidados da Justiça local.

A divulgação das fotos pela internet provocou tristeza e indignação na família Del’Isola. A mãe da estudante esteve no fim da tarde de ontem na 10ª DP e conversou informalmente com o delegado Antônio Cavalheiro para saber detalhes da investigação. “Vim pessoalmente porque quero saber exatamente o que aconteceu. Depois dessa visita, estou bem mais tranqüila. Me disseram que tratam o caso com prioridade máxima”, contou.

Maria Cláudia foi assassinada em dezembro de 2004 pelos ex-empregados dos Del’Isola: o ex-caseiro Bernardino do Espírito Santo e a ex-doméstica Adriana de Jesus dos Santos. Ambos foram julgados por estuprar, espancar, matar e ocultar o cadáver da vítima na própria casa da família, no Lago Sul. Em dezembro passado, Bernardino recebeu pena de 60 anos de prisão. Adriana, de 58 anos.