Polícia investiga jurados



Érica Montenegro
Da equipe do Correio

Breno Fortes/CB – 11/12/07
Sessão do tribunal do júri: fotos feitas durante a perícia não foram mostradas no julgamento
 

Acaça ao responsável pela divulgação das fotos sigilosas da estudante Maria Claudia DelIsola ganhou novos rumos na tarde de ontem. Agora, a polícia também investiga os jurados que participaram dos julgamentos em que Bernardino do Espírito Santo e Adriana de Jesus dos Santos foram condenados pelo assassinato da jovem. Durante os dois júris, 14 pessoas — sete em cada um deles — receberam cópias do processo com impressões coloridas das fotos que haviam sido feitas pela perícia da Polícia Civil no local do crime e durante a autópsia do corpo da estudante.

A Justiça já repassou à polícia o nome dos 14 jurados. Na tarde de ontem, os agentes da 10ª DP (Lago Sul) buscavam localizá-los para que eles prestassem depoimento na delegacia. No Tribunal do Júri, a praxe é projetar fotos das vítimas e do local do crime. As imagens servem de provas para o processo, ajudam no esclarecimento dos fatos e no convencimento dos jurados. Nos julgamentos pelo assassinato de Maria Cláudia, a defesa e o Ministério Público concordaram em dispensar esse expediente e distribuir cópias individualizadas das fotos para poupar a família e os amigos da estudante da crueza das imagens.

Segundo o diretor da Divisão de Repressão aos Crimes de Alta Tecnologia (Dicat), Silvio Cerqueira, já se sabe que parte dos jurados não devolveu a cópia do processo à qual teve acesso. Essa situação pode ter facilitado o vazamento do material confidencial. “É uma das hipóteses que estamos investigando. Pode ser que nem tenha sido o jurado, mas alguém de seu convívio”, pondera o delegado Silvio Cerqueira. Apesar dessa nova linha de investigação ter surgido, a polícia não descarta a hipótese anterior — que um dos funcionários do Tribunal de Justiça do Distrito Federal, do Ministério Público ou da Defensoria Pública tenha vazado as imagens confidenciais. “Estamos seguindo essas duas frentes de investigação. Por enquanto, só temos certeza de que o divulgador foi uma das pessoas que manuseou o processo”, afirma Silvio Cerqueira.

Os profissionais da polícia estariam excluídos da suspeita porque nos arquivos que estão sendo distribuídos por e-mail aparece o carimbo do TJDF. Ao todo são 35 páginas, cada uma com uma foto, e o carimbo no canto superior direito. “O vazamento ocorreu quando o processo já estava na Justiça”, assegura Silvio Cerqueira. “As fotos faziam parte do processo”, esclarece.

Até a semana passada, uma moça que faz estágio no Ministério Público estava entre as principais suspeitas da polícia. Interrogada, ela explicou que havia se limitado a repassar as imagens. Apesar de moralmente condenável, a conduta de redistribuir o e-mail não constitui crime, no entendimento dos delegados que estão à frente do caso. “Nos interessa saber quem mandou o primeiro e-mail. Esse foi o autor do ato criminoso”, reforça o delegado Antônio Cavalheiro, da 10ª DP.

O caso foi denunciado à polícia pela própria família de Maria Cláudia DelIsola. O e-mail com as imagens confidenciais circula pelo menos desde 12 de março, quando a mãe da estudante assassinada em dezembro de 2004 foi à Delegacia do Lago Sul registrar a ocorrência. O ato de expor na internet o material produzido como prova processual constitui crime de violação de sigilo funcional e prevê pena de dois a seis anos. Se confirmada a hipótese de que o divulgador foi um dos jurados, ele pode ser condenado por analogia, já que, no momento em que teve acesso ao material confidencial, prestava um serviço à Justiça.

Paralelamente aos interrogatórios, a Dicat pediu a colaboração do fabricante do software usado para repassar as imagens. O arquivo foi enviado em formato PDF e, caso o fabricante faça o controle de utilização, é possível levantar qual a identificação do computador usado para mandar a primeira imagem.

Em nota divulgada à imprensa, o movimento Maria Cláudia Pela Paz repudiou o constrangimento a que a família da estudante está sendo submetida: “(…)é inimaginável o que leva o ser humano a cometer atos tão sórdidos(…)”. Para que a família não seja ainda mais penalizada, os amigos da família DelIsola pedem que os internautas deixem de repassar as fotos.

 

Editor: Samanta Sallum // samanta.sallum@correioweb.com.br
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