Jornal de Brasília – 05/04/2008

Mistério foi desvendado

Jurada é responsável por divulgação de fotos do laudo


Luís Augusto Gomes

Uma jurada que participou do julgamento do ex-caseiro Bernardino do Espírito Santo, um dos autores do bárbaro assassinato da universitária Maria Cláudia Siqueira Del'Isola, 19 anos, conhecida como Tatinha, é a responsável pelo vazamento das imagens da perícia feita pelo Instituto de Criminalística (IC), no corpo da estudante. Ela levou o processo que continha as fotografias sigilosas para o trabalho e as imagens foram escaneadas por um colega e colocadas na internet por outro rapaz.

Estas afirmações foram feitas, ontem, pelo delegado Antônio Cavalheiro Filho, chefe da 10ª Delegacia de Polícia (Lago Sul), responsável pelas investigações que apurou como as fotografias pararam na internet. Porém, o delegado não revelou o nome da jurada e nem dos outros envolvidos no vazamento.

Cavalheiro acredita que as imagens chegaram à internet logo após o julgamento. Os colegas da jurada disseram à polícia que não agiram de má-fé e só colocaram as fotografias na rede de computador por acreditarem ser uma maneira de revelar a crueldade dos criminosos.

A jurada, que é estudante de Direito, foi identificada e prestou depoimento quinta-feira última, na 10ª DP. Ela confessou não ter sido alertada e, por isso, levou a documentação para casa e para o trabalho. A jurada disse que só ficou sabendo do vazamento das fotografias quando o caso foi divulgado pela imprensa.

Ontem, policiais da 10ª DP apreenderam dois computadores por onde as imagens foram distribuídas. Um estava no escritório, onde a estudante de Direito trabalha, e o outro, na casa do colega que surrupiou as fotos. Os equipamentos estão na Divisão de Repressão aos Crimes de Alta Tecnologia (Dicat), da Polícia Civil, e serão periciados pelo IC.

O delegado afirma que o caso é um fato atípico e não caracteriza crime. Por isso, ele não poderia revelar os nomes dos envolvidos. "Só os familiares da vítima podem entrar com uma ação na área civil para pedir reparação por danos morais, porque ainda não existe legislação específica para crime cibernético", disse Cavalheiro.

Notificação
A polícia notificou todos os jurados que participaram do julgamento de Bernardino, no final do ano passado, para devolver a documentação, caso não tenham feito. Para o delegado, o inquérito está concluído e será encaminhado ao Ministério Público (MP), na próxima semana, apontando os nomes dos envolvidos no vazamento. O Judiciário &eacut
e; quem vai analisar se houve negligência do Tribunal do Júri por não ter recolhido a documentação com os jurados.

Cavalheiro avalia que os acusados pela reprodução e divulgação das imagens só poderiam ser julgados e condenados se ficasse comprovado que o responsável pelo vazamento das fotos era funcionário público.


Família pode mover ação

A família da universitária Maria Cláudia Siqueira Del'Isola, 19 anos, estuda a possibilidade de entrar com uma ação civil contra os envolvidos no vazamento das imagens da perícia do Instituto de Criminalística (IC) realizada no corpo da estudante, que foi morta com requintes de crueldade dentro de sua própria casa, no Lago Sul.

A pedagoga Cristina Maria Del'Isola, disse, ontem, ao Jornal de Brasília, que a família vai se reunir, neste final de semana, com advogados e amigos, para avaliar qual a decisão a ser adotada. "Ainda estamos digerindo tudo que aconteceu, porque fomos pegos de surpresa com a divulgação (das fotos) na internet", disse.

O vazamento das 35 folhas que fazem parte parte do laudo da perícia, realizada pela Polícia Civil, e que estão inseridas do processo que condenou o caseiro Bernardino do Espírito Santo Filho, a 65 anos de prisão e a doméstica Adriana Jesus dos Santos, a 58 anos, causou comoção à família de Maria Cláudia e à sociedade brasiliense.

A família não pretende que os responsáveis pela divulgação das imagens sejam condenados a pagar dinheiro. Mas, se isso, acontecer toda a renda será revertida para obras de caridade do Movimento Maria Cláudia Pela Paz, que luta contra a violência. Antes de decidir pela ação judicial, os pais da estudante pretendem conhecer os responsáveis pelo vazamento.

Real intenção
Cristina Del'Isola quer saber qual a real intenção das pessoas na divulgação das fotografias, mesmo depois de os parentes e amigos de Maria Cláudia terem passado por momentos tão difíceis com a morte prematura da estudante. Para a pedagoga, o vazamento das imagens foi mais um momento difícil, desde o assassinato da filha.

A pedagoga diz esperar que, do episódio, as pessoas aprendam a não cometer o mesmo erro. Segundo Cristina Del'Isola, a impunidade não pode prevalecer diante de um fato grave como este. "Sem dúvida, este caso não pode ficar em impune", disse. As fotos do laudo que vazaram mostram em detalhes a perícia do corpo da estudante.

Colaborou Mara Puljiz


Mãe é que fez a denúncia

Maria Cláudia foi assassinada brutalmente por um casal de empregados de sua própria família, dia 9 de dezembro de 2004, dentro de casa, no Lago Sul. O corpo da estudante só foi localizado três dias depois do crime, enterrado debaixo da escada da residência da família, a quem cabe processar ou não os responsáveis pela divulgação da imagens.

Foi a pedagoga Cristina Del'Isola, mãe de Maria Cláudia, quem denunciou o caso à Polícia Civil, depois de ser alertada por amigos da circulação das fotos do laudo, desde o último dia 12, na internet. "Para alívio da família, a polícia agiu e resolveu o caso num tempo recorde", informou o diretor de Comunicação Social da Polícia Civil, Miguel Lucena.

Violação
O esclarecimento do caso foi divulgado, na edição de ontem, pelo Jornal de Brasília. a Polícia Civil ouviu pelo menos 15 pessoas para tentar identificar quem vazou as informações, que são sigilosas. Segundo os policiais, se o caso envolvesse um funcionário público poderia configurar crime de violação de sigilo funcional, cuja pena pode chegar a seis anos de prisão. Mas este não é o caso, por isto é a família que poderá processar os acusados de envolvimento no caso, que voltou a chocar o Distrito Federal.

O Sindicato dos Policiais Civil do DF (Sinpol), divulgou nota, ontem, em seu
site de repúdio aos envolvidos no vazamento das imagens e se solidarizando com a família Del'Isola. "O Congresso Nacional precisa colocar os crimes cibernéticos na Constituição Federal", afirma o presidente do Sinpol, Wellington Luiz Souza