DF perde a mulher que transformou a Biblioteca Demonstrativa de Brasília

Rafael Campos
Publicação: 08/01/2012 08:08 Atualização: 07/01/2012 21:24
O sábado chuvoso não impediu que várias pessoas fossem até a Biblioteca Demonstrativa de Brasília (BDB). O entra e sai não causava surpresa. Ao assumir a direção do local, em 1983, Maria da Conceição Moreira Salles estipulou como meta deixar a imagem escura e pouco convidativa das bibliotecas tradicionais para trás.

Ela sempre quis — e conseguiu — que os corredores abarrotados de livros tomassem vida, que estudantes esforçados sanassem suas dúvidas em meio à arte e, principalmente, que aquele leitor adormecido em cada um pudesse se sentir em casa ao entrar na colorida BDB. As cores continuam lá, mas ganharam um tom de cinza não esperado. Ontem, por volta das 7h, Maria da Conceição morreu. De súbito, dando um tom ainda mais soturno à perda. Ela estava hospitalizada desde quarta-feira com o diagnóstico de água na pleura — tecido sensível que reveste o pulmão —, mas em momento algum deixou seus afazeres de lado.


Conceição fez da BDB um modelo para o restante do país

Na última sexta-feira, trabalhou, do seu apartamento no hospital, até as 18h, entre trocas de e-mails e telefonemas aos funcionários. Segundo colegas de trabalho, uma parada cardíaca fez com que as previsões de alta para a segunda-feira não se concretizassem. A mineira, nascida em Santo Hipólito mas que se considerava belorizontina, chegou a Brasília acompanhada da mãe, que faleceu quando ela tinha 19 anos. Conceição havia feito 65 anos em 26 de novembro passado.

Foi da matriarca a sugestão que cursasse biblioteconomia. Conceição foi da primeira turma do curso na Universidade de Brasília e, depois de uma especialização na área médica da formação, em São Paulo, voltou à capital e trabalhou em vários locais, como o Hospital Sarah Kubitschek, até assumir o BDB.

A instituição que, apesar de ter o nome da capital do país é federal, não carrega o nome demonstrativa à toa. Ela é, atualmente, o grande modelo de biblioteca pública no país e o mérito é de Maria da Conceição. “Ela estava sempre disposta a criar novos projetos, experimentar, e isso serviu de exemplo para o Brasil inteiro, criando um modelo do que deve ser feito nas bibliotecas públicas”, lembra Ana Maria da Costa Souza, pesquisadora e responsável pelo setor de projetos especiais da biblioteca.

Entre os projetos que encabeçou estão o Quinta Sonora, de concertos musicais didáticos; o Tira Dúvidas, que colocou professores voluntários à disposição para retirar qualquer dúvida de quem estuda na biblioteca; e o Tele Idoso, que leva obras aos mais velhos que têm dificuldade de locomoção. “Ela era uma pessoa muito dedicada e queria um trabalho de qualidade. A biblioteca tem essa projeção por causa do seu esforço em fazer sempre o melhor. Conceição sempre teve uma visão totalmente diferente de biblioteca. Ela via algo dinâmico, vivo e queria que quem trabalhasse aqui enxergasse da mesma forma”, frisa Anna Paula Ayres Seabra, responsável pelo setor de promoção e divulgação cultural da BDB.

Em um ambiente que respirava saber, Maria da Conceição foi conhecendo amigos: artistas, intelectuais, professores. E, deles, ganhava sempre reconhecimento. “A Conceição foi das pessoas mais generosas, mais sincronizadas com as necessidades de Brasília. A maior qualidade dela era ser amiga dos amigos e amiga dos amigos dos amigos — tamanha era sua generosidade. O que ela fez para a promoção da cultura, a assistência que ela oferecia aos estudantes, aos artistas da cidade, isso a gente nunca pode esquecer”, garante a editora de Opinião do Correio Braziliense, Dad Squarisi, amiga pessoal de Conceição.

Chocado, o artista plástico Henrique Gougon afirmou que a perda de Conceição é lamentável sob todos os aspectos. Para ele, nenhuma pessoa teve a coragem e a determinação para transformar o ideal de bibliotecas como ela. “A Conceição era a alma e um pedaço importante da história de Brasília. Ela atuava em todos os pontos da cultura e transformou aquele espaço em algo muito além de uma biblioteca.”

O diretor da Biblioteca Nacional de Brasília, Antônio Miranda, disse que ela moldou a forma como os bibliotecários do país hoje encaram o ofício. Segundo ele, Conceição, com seu viés de animadora cultural, tornou a biblioteca um espaço em que a comunidade não tem receio de entrar, usar e se integrar. “Ela ainda foi uma figura ímpar como ser humano, sempre disposta a transformar seu espaço de trabalho em um local de vivência. Conceição representa o que há de melhor na cidadania de Brasília.”

Maria da Conceição não era casada nem tinha filhos, mas considerava as sobrinhas Mariana e Juliana como tais. O corpo dela será velado hoje, a partir das 7h, na Capela 6 do Cemitério Campo da Esperança. O sepultamento está marcado para as 11h.