Polícia investiga golpistas que tentam furtar milhas aéreas pela internet

Hackers usam e-mails com vírus para obter os dados dos usuários dos programas de fidelidade das companhias aéreas e furtar os pontos acumulados. As reclamações estão dispersas, mas, no DF, a Polícia Civil está prestes a alcançar dois golpistas
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Julia Borba
Publicação: 10/01/2012 07:00 Atualização: 10/01/2012 07:02

Débora Pimentel conseguiu recuperar 70 mil milhas. Ela suspeita que seu computador tenha sido contaminado por um e-mail viral

Uma nova modalidade de crime contaminou a internet e vem fazendo vítimas todos os dias. O furto de milhas — pontos dos programas fidelidade das empresas aéreas — chama atenção pela simplicidade da execução e pelo tamanho do estrago que causa. Basta um descuido do consumidor para que o benefício, acumulado pelo uso do cartão de crédito ou pela quantidade de voos feitos, caia na mão de estelionatários. Muitas vezes, o fato só é percebido na hora de usar os créditos, o que acaba estragando os planos de viagem, ou, ao menos, tornando o passeio muito mais caro do que deveria.

As empresas aéreas não conseguem reagir com a energia necessária para combater o crime. Fazem um ou outro alerta aos usuários. No fim, acabam reembolsando quem foi prejudicado, depois de vários dias e muita insistência por parte dos passageiros. A Polícia Civil do Distrito Federal não descarta que a ação seja orquestrada por quadrilhas e garante que as investigações estão adiantadas e há alguns criminosos na mira.

O golpe chega por e-mail, que reproduz mensagem, logomarca e fotos que em nada diferenciam do padrão da home page da companhia. Ao garantir vantagens ou requisitar a atualização do cadastro, o hacker, que enviou o vírus, induz o usuário a digitar o nome e a senha de acesso. Logo que os dados são informados, ele consegue trânsito livre para marcar viagens de terceiros, esvaziando em minutos, todo o benefício que havia na conta do cliente da companhia.

Mudança de planos
A socióloga Lenita Turchi, 60 anos, conhece o problema a fundo. “Eu tinha perto de 170 mil milhas na TAM. Passei algum tempo pensando em gastá-las para passar o fim do ano em Portugal”, conta. No dia em que tentou emitir a passagem, a desagradável surpresa: no saldo de pontos havia apenas 3 mil milhas. “Fiquei muito assustada e passei uma tarde tentando me comunicar com a empresa. No fim, me disseram que eu havia emitido bilhetes de cortesia para outras pessoas em novembro”, recorda.

A primeira medida que conseguiu tomar foi a de cancelar os trechos marcados. “Ocorre que para suspender o bilhete é preciso pagar uma multa e eles cobraram isso de mim, o que é mais absurdo ainda. Já os voos que haviam saído em dias anteriores me deram mais trabalho. Depois de muita briga, consegui recuperar alguma coisa e voltei a ter algo como 120 mil pontos. Apesar de a companhia ter devolvido, eu perdi a viagem”, lamenta. Sem intenção de tirar do bolso o dinheiro para pagar o bilhete internacional, Lenita adiou os planos.

A socióloga não descarta a possibilidade de ter aberto e clicado em alguma mensagem falsa. “Mas a companhia perde a credibilidade, porque eu não sabia dessa possibilidade”, afirma Lenida. Interessada no assunto, ela começou a notar alguns cartazes fixados nas ruas da cidade com o anúncio de compra e venda de milhas. Para encontrar quem faça esse tipo de negócio, não é preciso sair de casa. Pela internet, diversos sites, com nomes desconhecidos, oferecem o serviço de aquisição de milhagens de todas as companhias aéreas e prometem pagar, em média, R$ 300 a cada 10 mil pontos. Além de remunerar quem não vai usar o benefício, as falsas empresas virtuais prometem ainda de emitir passagens a preços mais baixos.

Recomendações
O delegado-chefe da Delegacia de Falsificações e Defraudações de Brasília (DEF), Júlio César de Oliveira Silva, alerta para os cuidados necessários ao fechar acordos com firmas que atuam na internet. “Há uma chance real de essas empresas fazerem tanto o serviço legal, de comprar e vender as milhas de pessoas interessadas nessas transações, como de usarem artifícios ilegais, que furtam as milhas por meio de vírus.” Segundo ele, caso os envolvidos sejam alcançados pela polícia, eles serão denunciados pelo crime de estelionato, que prevê pena de um a cinco anos de reclusão. A mesma punição recairá sobre os compradores que participam do esquema, que responderão por aquisição fraudulenta.

O crime, segundo ele, tem ocorrido em outros estados. No Distrito Federal, ganhou força no fim do ano passado. “Não podemos descartar que seja ação de uma quadrilha. Investigamos, especificamente, três casos. Estamos na iminência de prender alguns dos responsáveis”, completa.

Conforme o delegado, em algumas situações, o vírus se instala no computador e não é necessário digitar a senha ou aceitar a oferta, porque, depois de instalado, o programa submete todos os dados digitados até em páginas oficiais ao hacker.

Débora Cristina Guimarães Pimentel, 52 anos, aposentada, acredita que esse tenha sido o caso dela. “Não foi desatenção, tenho certeza que não confiei em uma proposta qualquer”, diz. Ela conta que, ao reclamar das 70 mil milhas que desapareceram, funcionários da companhia chegaram a dizer o nome de quem havia embarcado usando os pontos à sua revelia. A solução do caso levou meses. “Eu cheguei a desistir de correr atrás, porque me deu muito trabalho. Mas, um certo dia, me ligaram para dizer que haviam devolvido meus pontos. Entrei no site da companhia e gastei todo o crédito, porque não pretendo mais passar por esse aborrecimento.”

Dicas
As empresas aéreas costumam personalizar as mensagens e chamar cada usuário pelo nome. Desconfie ao receber um e-mail que começa com a expressão “caro cliente”.

Verifique sempre quem é o remetente. Os e-mails virais chegam com nomes estranhos, criados apenas para cometer o delito.

Ao abrir a mensagem, desconfie das informações. Consulte a página oficial da empresa antes de clicar em promoções que chegam por e-mail.

Se o conteúdo do texto o direcionar para uma nova página, cheque qual é o endereço do site que vai aparecer no navegador.

Instale antivírus no computador. Saiba que ele não impede todos os tipos de golpes, então não baixe a guarda.

Evite fazer compras de passagens em empresas desconhecidas, que garantem ofertas muito vantajosas ou pedem cadastro com nome de usuário e senha dos programas de fidelidade.

Ao notar a menor alteração na sua conta, entre em contato com a companhia aérea.

Tenha o hábito de fazer alterações nas senhas de acesso. Não é recomendado usar sequência numérica ou informações comuns, como data de aniversário.

Especialistas recomendam que se façam códigos de acesso diferentes para contas distintas, de modo a dificultar a possibilidade de o hacker movimentar todas as contas da pessoa.

Se tiver dúvidas, entre em contato com a empresa aérea antes de efetuar transações que não são costumeiras.