CORREIO BRAZILIENSE -1/5/2008

Marcelo Abreu
Da equipe do Correio

 

Fotos: Gustavo Moreno/Especial para o CB
Patrícia e Ricardo (na frente) começaram o trabalho com as crianças há seis anos: simpatia, dedicação e conquista da comunidade

"É fantástico tirar som do próprio corpo e fazer ritmo. Minha mente evoluiu"
Rayanne Santos, 11 anos, aluna do Instituto Batucar
 

A rua é simples. Como simples é sua gente e suas casas. Dentro de uma igreja de fachada igualmente simples, uma verdadeira revolução se faz todos os dias. É a melhor revolução daquele lugar. E ela, a revolução, é toda feita com batucada. Mãos batidas contra o peito, pernas, braços, boca. Um estalar de dedos. E surge o som, feito de percussão corporal, em forma de samba, baião, forró e funk. Ali, mais que som, se batuca a vida.

Vida que sonha, pulsa, dá oportunidade, faz acreditar num mundo melhor, se refaz e resgata esperança. Se tem essa certeza disso quando a menina Rayanne Santos Barbosa, de 11 anos, filha de um mestre-de-obras e de uma dona-de-casa, confidencia, com os olhos marejados de emoção: "É fantástico tirar som do próprio corpo e fazer ritmo. Eu nunca pensei que um dia fosse estar aqui. Minha mente evoluiu".

Estamos no Recanto das Emas, na quadra 307, conjunto 4, casa 24, endereço de toda essa história. Há seis anos, um professor de música, formado pela Universidade de Brasília (UnB), recebeu um inusitado convite. Daria aulas para jovens daquela igreja presbiteriana. Ricardo Amorim, hoje com 41 anos, topou o desafio. Chegou ao local e se deparou com 12 adolescentes. Na igreja, apenas uma bateria e um violão. "O que fazer, meu Deus?", indagou o professor. Ele mesmo encontrou a resposta.

Como tinha experiência em percussão corporal, Ricardo começou a improvisar. Sensibilizou os adolescentes, que ficaram extasiados com o som que o próprio corpo produzia. E, maravilhados, deixaram aquele professor maluco lhes conduzir para uma viagem nunca feita antes. Em pouco tempo, a turma aumentou. Logo, havia 20 alunos. Começaram os primeiros convites para apresentações. A igreja, onde toda essa revolução teve início, ficara pequena para tanto talento e tanta arrebatação. O professor Ricardo chamou sua mulher, a pedagoga Patrícia Amorim, 34. Ela se juntou ao marido no desafio de levar música àquele lugar carente, onde vivem crianças e adolescentes, alguns em situação de risco e vulnerabilidade social.

Ricardo queria mais ajuda. Em 2004, chamou o irmão, Gilberto Amorim, 45, para juntos montarem um projeto. Deu certo. O projeto foi aprovado pelo Fundo de Arte e Cultura (FAC), do Governo do Distrito Federal. Pela primeira vez, os jovens que produziam som com o próprio corpo receberam apoio. Uma verba como apoio à cultura. Logo o grupo cresceu. E mais 20 crianças e adolescentes se juntaram àquela família. E eles mesmos escolheram o nome: batucadeiros.

As apresentações passaram a ser constantes. Em 2005, o grupo recebeu o apoio do Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet. E, no final daquele ano, nascia o Instituto Batucar. Logo em seguida, um laboratório importante da cidade também apoiou a iniciativa. E uma empresa de telefonia se fez parceira do projeto. O número de participantes dobrou. Subiu para 80 jovens. Meninos e meninas que passaram a sonhar com a possibilidade de um mundo melhor.

Revolução de almas
O professor Ricardo virou o coordenador-geral do Instituto Batucar; Patrícia, a coordenadora pedagógica; e Gilberto, o presidente. Dentro da mesma igreja — na mesma Recanto das Emas que tem 140 mil habitantes, nenhuma sala de cinema, nem escola de música —, vidas começaram a ser transformadas. A evasão escolar e a repetência das crianças que freqüentavam o instituto diminuiram. E a procura pelo projeto aumentou. Filas se formaram na frente da igreja. A procura foi tão grande que foi necessário aumentar a faixa etária dos alunos. Jovens com até 21 anos passaram a ser aceitos.

Seis anos depois, muita coisa mudou. Só não a igreja, que cede todo seu espaço, durante o dia, para o projeto. Nas instalações bem simples, as crianças e os adolescentes têm aulas de reforço escolar, oficinas de violão, raciocínio lógico (com jogos de xadrez) e leitura e produção de textos. Além, claro, das aulas

Os primeiros alunos, hoje, tornaram-se monitores. Alguns deles, pelo incentivo que receberam no instituto, chegaram à faculdade. Alceu Avelar, 24, é um deles. De manhã, é cobrador de ônibus. À tarde, vira professor de reforço escolar. E à noite, estuda administração. "O que eu aprendi no Instituto Batucar? A correr atrás dos meus sonhos, a força de não desistir", responde ele, numa salinha cheia de crianças atentas ao que ele fala. Assim como em outra sala, os alunos da professora Kaleide Batista Veleda, 23, admiram-na falando. "Quando cheguei aqui, queria aprender música. Fui chegando, cheguei de mansinho, aprendi a batucar e a viver. Minha vida não seria a mesma se não tivesse passado por aqui", admite, comovida, a estudante de psicologia.

Tempo integral
Ricardo se lembra do primeiro dia que ali chegou: "Era um professor que ensinava crianças a batucarem. Tudo de que precisávamos era de um teto para nos acolher. Hoje, minha vida está aqui, em tempo integral", diz o morador de Águas Claras. E se emociona: "É gratificante ver essas crianças se desenvolvendo, fazendo escolhas certas e apostando no futuro, com a auto-estima crescendo". Gilberto emenda: "O projeto ajuda na percepção da criança dentro do meio social em que ela vive". Patrícia não se arrepende: "Dei aulas em escola particular durante 10 anos. Mas o projeto foi tomando corpo. Aí, tomei uma decisão radical: pedi demissão e estou cada dia mais feliz".

E a felicidade pode ser medida em números. S&
oacute; no ano passado, o grupo fez 54 apresentações em todo o DF. Mais de 16 mil pessoas já viram o espetáculo. No final, a emoção toma conta de todos. Há um quê de perplexidade. Talvez a mesma emoção que tomou conta da dona-de-casa Terezinha Felipe dos Santos, de 34 anos, mãe de Rayanne, a menina do começo dessa história. Na tarde de ontem, assistindo a uma pequena apresentação da filha, no meio da rua, ela não segurou as lágrimas: "O céu é o limite. A mão de Deus tocou nesse projeto".

Ainda no meio da rua, uma menininha canta Asa Branca. Arrepia. O restante a acompanha com o som vibrante e inacreditável feito pelo corpo. A vizinhança espia. Depois, um grupo canta: "Quem te ensinou a nadar? Foi, foi marinheiro, foi os peixinhos do mar…" O professor Ricardo entoa: "Quem te ensinou a batucar?…" As crianças vão ao delírio. É comovente e ao mesmo tempo espetacular ver e ouvir a cena, naquela rua humilde do Recanto das Emas. E perceber que ali, naquele lugar tão longe do poder e de tudo que lembre Brasília e seus monumentos, o que aqueles meninos e meninas fazem é mais do que produzir som com o movimento frenético do corpo. Eles batucam vida com gosto de vida e esperança. É preciso ver pra acreditar.

SOLIDARIEDADE
O instituto Batucar, agora sem apoio institucional, precisa de parceiros para tocar seus projetos. Contatos: Ricardo — 8419-9675, Patrícia — 8419-9674 e Gilberto — 8419-9701 site: www.institutobatucar.org.br