Que a Justiça não Permita

No dia 09 de dezembro de 2004, um caseiro e uma empregada doméstica espancaram, estupraram, mataram e enterraram debaixo da escada da sala de estar da casa em que trabalhavam, no Lago Sul, em Brasília, a jovem Maria Cláudia Del’Isola de apenas 19 anos. Não houve motivo forte para que a barbaridade ocorresse, a não ser roubar alguns trocados.
“O inferno está vazio, e todos os demônios estão aqui”. Foi desse jeito que Brasília viu esse crime. Foi como se entes diabólicos estivessem entre nós. A brutalidade, a torpeza, a perversidade, a crueldade, a frieza como o crime foi cometido parecia coisa de endemoninhados. Entre outras coisas, porque os dois monstros das profundezas, os filhos do inferno, moravam na casa da jovem, gozavam da sua confiança e simpatia, e eram bem tratados por ela e sua família.
O crime foi solucionado rapidamente, e as duas bestas confessaram o crime, que foi reconstituído, revelando os detalhes sórdidos, covardes e bestiais que os dois filhotes de Satanás perpetraram. O julgamento foi rápido, para os padrões brasileiros, em pouco mais de dois anos os dois animais foram julgados e condenados a 58 anos de prisão e enjaulados no presídio da Papuda, em Brasília. Muita embora, a pena tenha sido reduzida depois para 37 anos. De qualquer forma, palmas para o trabalho da polícia, ministério público e judiciário.
Lembro-me como se fosse hoje, e não é força é de expressão, o meu choque ao ler no jornal em 2004, em detalhes, o ato monstruoso. Pus as mãos na cabeça e chorei, pensando em tudo aquilo. No sofrimento da jovem, na dor dos pais, da família, dos amigos. E do desamparo que todos nós, principalmente, os pais brasileiros sentiram naquele momento. A dor de ver uma filha jovem, bela, estudiosa, no esplendor da idade encontrar o Mal em sua forma mais devastadora. Brasília teve reações parecidas, e demonstrações de pesar e de dor foram registradas por toda cidade.
Juro que veio a mim, naquela semana – e não digo isso por ser shakespeariano – o desespero da família Capuleto ao ver o corpo de Julieta sem vida: “Ai, minha filha está morta, e com minha filha estão enterradas todas as minhas alegrias”. E não estou fazendo poesia. Sei que é assim que se sentem os pais de Maria Cláudia, conhecidos pelo povo de Brasília como portadores dessa dor infinita, que não passa nunca.
Pois agora essa correta punição corre risco. A legislação brasileira tem um sistema de progressão de penas que permite a um criminoso condenado sair da cadeia para trabalhar, após cumprir 1/6 da pena. Se isso ocorrer, a tal Adriana, a serpente endemoninhada, pode ser solta há qualquer momento. Se algo não for feito, seja lá o que for, nessa confusa legislação penal brasileira, a sociedade de Brasília está prestes a enfrentar um pesadelo, e de cada um de nós levar um tapa na cara, tal o absurdo legal que está prestes a acontecer. E isso deve ser evitado!
Permitir que esse monstro saia às ruas é ameaçar toda a sociedade. É preciso que essa figura satânica continue enjaulada e que cumpra toda a sentença sem qualquer tipo de benefício, pois se trata de uma fria assassina. Que o juiz responsável por esse caso não permita que esse disparate legal aconteça.
A dor da família Del’Isola deve ser respeitada, suas lágrimas ainda não secaram. A dor deles é semelhante a de Marco Antônio ante o corpo de Júlio César: “Meu coração está nesse caixão com César…”. O coração deles foi junto com Maria Cláudia, e por enquanto a justiça terrena é necessária, até eles reencontrarem sua filha no paraíso.
Theófilo Silva é articulista colaborador da Rádio do Moreno