Quando morrem os pais, perde-se o passado, mas quando morre um filho perde-se o futuro

Sérgio, Pai do Mário

‘Tudo o que é necessário para o triunfo do mal, é que os homens de bem nada façam’ . (Edmund Burke)

Meus amigos:
Esta quarta-feira é mais um daqueles dias tristes e sombrios para mim, como a grande maioria de vocês já sabem. Neste dia 29, se completam 76 meses do brutal assassinato do meu filho Mário, um jovem de apenas 20 anos que tinha uma vida inteira pela frente, mas que, como milhares de outros, teve sua trajetória interrompida por covardes assassinos que certamente cumpriram ordens.
São 2.280 dias que espero providências do chamado poder público constituído para que elucide este hediondo crime. Mas até agora, o que recebi em nome da competência do poder público, foi a sanção de uma lei municipal que condecorou a memória do meu filho Mário, dando-lhe o nome a uma rua da cidade de Canoas. Foi o máximo que o poder público conseguiu fazer ao longo deste tempo todo. Outra conquista do poder público constituído foi a premiação aos bandidos através do Instituto da Impunidade.
Mário foi assassinado a sangue frio na noite de 29 de setembro de 2005, quando se dirigia à casa de amigos de infância para uma confraternização sadia. Teve sua vida ceifada momentos antes de chegar ao encontro dos amigos que tanto gostava.
São 2.280 dias da mais completa e absurda angústia por até hoje não saber o que realmente aconteceu naquela trágica noite, quem foram na verdade os assassinos do meu filho Mário, qual o motivo do crime hediondo e quem foram os mandantes.
Fui fadado a conviver com a ausência física do meu filho Mário, enquanto os representantes do poder público comemoram uma vitória política atrás da outra; trabalham incessantemente em busca de votos. Este, na prática, é o grande objetivo daqueles que têm o dever constitucional de elucidar os crimes, identificando os assassinos e os encaminhando para julgamento no poder Judiciário.
O que acontece, no entanto, é o mais absoluto descaso (e o assassinato do meu filho Mário não é caso único. Como ele, há centenas de outros) com o crime em si e com quem cobra resultados principalmente da área da segurança pública. Bradei aos quatro cantos por Justiça, escrevi milhares de correspondências eletrônicas e essas autoridades parece desconhecerem minha dor, a dor de um pai que tem o direito quase que sagrado de saber o que aconteceu com seu filho, quem o matou, por que e a mando de quem.
Enfim, são 2.280 de uma dor indescritível, só aquilatada por alguém que já tenha passado por situação idêntica. Dias se sucedem e a dor no meu peito jamais diminui. As lágrimas são companheiras inseparáveis e incontroláveis dos meus olhos. Chegam a qualquer momento do dia ou da noite. Não escolhem sequer, o lugar.
E o descaso dessas autoridades é tamanho que por vezes penso que a intenção, além da coleta de votos, é a de me vencer no cansaço. Isso, jamais conseguirão. Sai governo, entra governo e a situação não muda. O descaso é uma constante, tem escola. Mas isso só me torna cada vez mais forte para cobrar resultados do poder público que tem na inércia a sua marca registrada.
Enquanto houver um sopro de vida em mim, estarei cobrando. Quero saber sim, quem realmente assassinou o meu filho Mário, quais os motivos que teve para fazer tamanha maldade e quem mandou ceifar sua vida tão cedo. Este é meu direito de pai. Inalienável.