Correio Braziliense – 06/7/2008 – Talento reconhecido


Aos 13 anos, violinista brasiliense recebe permissão especial para se apresentar no prestigiado festival de Bayreuth, na Alemanha. Ele se juntará a músicos de 30 países

Luiz Roberto Magalhães
Da equipe do Correio
Edilson Rodrigues/CB/D.A Press – 20/6/08
 
 

O pequeno Ayrton Coelho Pisco ainda não havia completado 13 anos quando, no último 3 de março, apareceu na Universidade do Rio de Janeiro para se apresentar diante de três mestres alemães. De posse de seu violino, o clássico instrumento originado na Itália entre o fim do século 16 e o início do século 17, Rei, como é conhecido entre os familiares e amigos mais próximos, começou a dedilhar em frente àquela pequena e rigorosa platéia uma das maiores obras produzidas para o instrumento: o Concerto para Violino em Ré Maior do russo Piotr Ilitch Tchaikovsky.

Enquanto seus pequenos dedos da mão esquerda corriam pelas cordas, impulsionadas pelo arco manipulado pela mão direita, um capítulo importante desse talentoso e precoce músico da capital do país começava a ser desenhado. No Rio de Janeiro, o menino de Brasília, que começou a estudar violino aos 4 anos, incentivado pelo pai, o maestro da Escola de Música Ayrton Pisco, não seria o único a tocar para os alemães.

Assim como Rei, dezenas de músicos brasileiros se esforçaram diante daquela banca, revezando-se em dois dias de testes. A intenção de todos era a mesma: impressioná-los, de modo que fossem aceitos para se apresentar, entre 6 e 30 de agosto, no Festival de Bayreuth, na Alemanha. O evento é tão prestigiado que os ingressos estão esgotados para este e os próximos anos.

O festival, reaberto em 1951, ocorre todos os anos para homenagear a memória do compositor alemão Richard Wagner e reúne músicos de mais de 30 países. Este ano, o Brasil foi convidado, pela primeira vez, para participar. Ao final dos testes no Rio, apenas 17 músicos foram aprovados. Pelas regras do festival, além de passarem na avaliação da banca alemã, eles devem se enquadrar em algumas regras. Primeiro, precisam ter entre 16 e 25 anos. E uma vez selecionados, pagam 600 euros (cerca de R$1,5 mil) de inscrição.

Com apenas 12 anos (completou 13 em 14 de abril), Rei não preenchia a exigência inicial. Mas, ao final de sua apresentação e após ouvir o restante dos candidatos, os estrangeiros, encantados com o talento do pequeno violinista candango, resolveram abrir uma exceção. Assim, Ayrton Coelho Pisco não só ganhou uma permissão especial para juntar-se aos músicos em Bayreuth, como ficou isento da taxa de inscrição.

“Quando eles viram o Rei tocar, gostaram tanto que ainda deram uma bolsa de estudos a ele. Rei ganhou a hospedagem e a alimentação”, comemorou, orgulhoso, o maestro Ayrton Pisco, que, agora, luta para conseguir patrocínio para as passagens. “Só falta isso, que foi a única coisa que eles não deram. Estamos procurando alguém que nos ajude”, ressaltou o maestro.

Diversão
Quem vê Rei em ação, mesmo que por alguns instantes, percebe logo que aquele garotinho de expressivos olhos negros e dedos habilidosos encontrou cedo seu caminho na vida. Aos 6 anos, participou de seu primeiro concerto, ao lado do pai, na Escola de Música. E, desde então, jamais abandonou as apresentações no Distrito Federal e nos estados.

Quando toca, o menino parece divertir-se tanto quanto se estivesse chutando uma bola de futebol, embora a dedicação à música seja tão grande que o impeça de praticar esportes. “Ele não pode correr o risco de cair e machucar as mãos”, explicou o pai. “Os esportes que ele pratica são só no videogame mesmo”, contou.

Se por um lado a carreira musical o impede de desfrutar alguns dos prazeres da infância, por outro Rei acumula vitórias que dificilmente são atingidas pela maioria dos meninos de sua idade. Ele sabe que o direito que ganhou de tocar no Festival de Bayreuth é algo excepcional. “Fiquei muito feliz em ter sido aceito para tocar na Alemanha”, disse o garoto, dono de um jeito um pouco tímido de falar. A timidez, no entanto, desaparece no momento em que começa a extrair clássicos de seu instrumento.

Orgulho
Perguntado como foi se apresentar diante dos alemães, Rei compartilha com o pai o orgulho de ser aprovado nos testes. “Não foi fácil. Mas eu consegui”, alegra-se. Assim como seu pai (averso a viagens de avião e a longos períodos longe da família), Rei jamais esteve fora do país. Por isso, não consegue imaginar o que encontrará ao desembarcar na Alemanha. A referência que tem vem da irmã mais velha, Flávia, 22 anos, também violinista, que se apresentou na Alemanha em 2006.

“Ela me disse que lá as pessoas são muito frias. E falou que até o ar é diferente”, contou Rei. “Mas eu acho que vai ser lindo e bem interessante. É um país muito desenvolvido e foi um dos lugares onde nasceu a música”, ensinou o violinista, que sabe bem o que pretende alcançar na Alemanha. “Espero fazer sucesso por lá”, disse, com convicção. “Quero ganhar bolsa para estudar na Europa e conhecer músicos importantes e ter aulas com pessoas que admiro”, completou.

Ouvido
Rei estuda o instrumento cerca de quatro horas por dia. O que não o impede de ser aluno aplicado da 7ª série do Colégio Leonardo da Vinci. “Ele é ótimo aluno. Este mês, nas férias, o Rei vai estudar as matérias de agosto, porque quando voltar, terá que fazer as provas”, explicou o maestro Ayrton Pisco.

Como todo músico com formação clássica, o garoto sabe ler partituras. “Mas gosto de tocar mais de ouvido mesmo”, destacou. A teoria, entretanto, foi fundamental para que o violinista brasiliense pudesse executar o Concerto para Violino de Tchaikovsky. Trata-se de uma das obras mais complexas já escritas para o instrumento (veja abaixo) e há mais de um ano Rei vem se dedicando ao estudo da peça. “Falta estudar muito mais”, destacou o pai, que, apesar de não ter planos de encarar uma avião para a Europa, conhece a cultura musical daquele continente.

“Esse festival acontece em um teatro que o próprio Richard Wagner mandou fazer. E ele mandou fazer também uma estátua dele. Todos os dias, quando ia ao teatro, Wagne
r tirava seu chapéu e cumprimentava a ele mesmo, antes de entrar”, contou o maestro.

Ao desembarcar em Bayreuth para viver sua aventura com seu violino, o pequeno Ayrton Coelho Pisco poderá também dizer um “olá” para a estátua do grande Richard Wagner. Afinal, se não fosse por ele, o festival alemão não existiria e essa história não poderia ter sido contada.



PARA SABER MAIS
Herói russo

Nascido em 7 de maio de 1840, em Votkinsk — hoje pertencente à República Autônoma de Udmurtes, na Rússia —, Pietr Ilyitch Tchaikovsky é considerado em seu país o grande compositor nacional. Com uma vida repleta de momentos de angústias e glórias, Tchaikovsky notabilizou-se não apenas na Europa como nos Estados Unidos, onde se apresentou entre 1981 e 1892.

O prestígio do russo na América era tanto que ele inaugurou, em maio de 1891, a casa que se tornaria um dos palcos mais famosos da música clássica mundial: o Carnegie Hall de Nova York. Outra turnê triunfal foi a de 1893, pela Alemanha, Suíça, França, Bélgica e Inglaterra.

Autor de inúmeras balés, óperas, sinfonias, concertos e trabalhos para orquestras e corais, Tchaikovsky morreu em 6 de novembro de 1893, vítima de cólera. Admirador de Mozart, o russo compôs uma das mais importantes obras já desenvolvidas para o violino, o Concerto para Violino em Ré Maior.

A obra não é uma peça fácil de ser reproduzida. Tchaikovsky finalizou esse concerto em 1878, para homenagear o mestre húngaro Leopold Auer que, ao receber a partitura, recusou-se a tocá-la sob a justificativa que tratava-se de um concerto “intocável”.

“Ele viu aquela partitura e disse que a obra, de tão difícil, era inexeqüível”, explicou maestro da Escola de Música Ayrton Pisco. “Anos depois é que apareceu um maluco por lá e disse: ‘Me dá aqui que eu toco”, brincou o maestro. O “maluco” em questão foi o violonista russo Adolf Brodsky, que estudou a obra e, em 8 de dezembro de 1881, a apresentou sob a regência de Hans Richter. Depois disso, Brodsky tratou de popularizar o concerto ao redor do globo. (LRM)

 
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