O milagre de cada dia

Francisco, 13 anos, trava uma dura batalha para vencer doença que o paralisa, e ensina o prazer de viver


Marcelo Abreu
Da equipe do Correio

 

Fotos: Daniel Ferreira/CB/D.A Press
Francisco está na 6ª série, no Centro de Ensino Fundamental 2, do Guará I: admiração dos colegas e professores
"Ele não precisa da pena alheia, mas de solidariedade, respeito e de compaixão do próximo"
Christiane, mãe de Francisco
 

Ele nunca andou. Mas falou rapidamente. Com um ano e meio, dizia tudo com perfeição. As frases eram completas. Verbos corretos. Isso impressionava quem o conhecia. Aos 2 anos, numa manhã, a mãe foi deixar a mamadeira na cama com lágrimas no rosto. O menino perguntou por que ela chorava. A mãe tentou disfarçar. Disse que não estava chorando. Seria apenas um cisco que caíra nos olhos. Ele não se conformou. Insistiu em saber o motivo daquele choro. A mãe, então, tentou explicar: "É por que há dois anos eu espero por um milagre, meu filho". O menininho a olhou fixamente e respondeu: "Mãe, milagre acontece todo dia". Naquele dia, a mulher que chorava decidiu que sua vida — e a do filho — mudaria para sempre.

Essa história é feita de determinação, garra e uma coragem desenfreada de viver. É a história de Francisco Canidé Silva Júnior, hoje com 13 anos, corpo frágil, aparência de uma criança de 4 anos. É a história da luta incessante de uma mãe, Christiane Vasconcellos, 36. É a história desse milagre pelo qual tanto esperou a mãe. Depois de tanto desejá-lo, ela descobriu que ele bate à sua porta todos os dias. Hoje, ainda caem lágrimas. A maioria delas de alegria.

Para entender essa história, é preciso voltar a Natal, capital do Rio Grande do Norte. Lá, há 13 anos, nasceu Francisco. Era o segundo filho da dona-de-casa Christiane e do cabo da Marinha, Francisco Canidé, hoje com 43 anos. "A gestação da minha primeira filha foi normal. Na do Júnior, emagreci muito. Tinha desmaios e passava muito mal", conta. Para os médicos que a acompanhavam no pré-natal, tudo estava normal. E Francisco nasceu, de nove meses, parto cesariano. "Quando eu vi meu filho, percebi que era perfeito, mas havia alguma coisa diferente nele. Era molinho demais. Mas os três pediatras que examinaram ele disseram que estava tudo bem", diz. Depois que saiu do hospital, Christiane levou o bebê para outra pediatra. Queria ter a certeza de que tudo estava normal.

A quarta médica lhe disse: "Ele teve anoxia (falta de oxigênio durante o parto). Terá sérias dificuldades físicas e mentais pelo resto da vida". Christiane não aceitou aquele diagnóstico. "Ele tinha o olho vivo demais, tinha vida." Começaram as sessões de fisioterapia. No Rio de Janeiro, para onde a família se mudaria tempos depois, mais uma consulta. Um médico disse que Francisco tinha uma síndrome muscular. Demoraria, mas com exercícios corretos, ele andaria. "Comecei a pesquisar na internet e vi que os sintomas da tal síndrome não batiam com o que Francisco tinha", relata a mãe.

Primeiro laudo
A peregrinação pelos médicos era constante. Alguns eram mais taxativos. Outros cruéis: "Me diziam que eu precisava me conformar. Meu filho teria vida breve. E não diziam mais nada". Christiane não aceitava aqueles laudos. "Os médicos não entendiam que eu não estava buscando cura, mas a melhor maneira de cuidar dele". Com 3 anos e nove meses de vida, lutando contra todos os preconceitos, Christiane colocou o filho na escola. "Ele só não andava, mas tinha a cabeça perfeitamente normal. O lado cognitivo dele foi preservado. Era preciso acreditar na inclusão." Deu certo. Francisco começou a conviver com outras crianças e a ver o mundo real. O que o esperava do lado de fora de casa. Aos 5 anos, lia perfeitamente e escrevia, mesmo com dificuldade para segurar o lápis.

Quando Francisco completou 6 anos, o pai foi transferido para Brasília. Christiane conseguiu uma consulta no Hospital Sarah. "Era como se eu tivesse ido a outro planeta. Pela primeira vez me disseram o que meu filho tinha". O laudo indica que Francisco tem uma Distrofia Muscular Espinhal Degenerativa, Tipo 1. "No Sarah, os médicos disseram como proporcionar melhor qualidade de vida. Isso fez toda a diferença na minha vida e na dele", lembra.

Em Brasília, a luta de Christiane continuou. Há dois anos, ela se separou do marido. Ficou com os três filhos em um apartamento modesto de dois quartos na QI 14 do Guará I. Trabalha como recepcionista de um consultório dentário, ganha R$ 484 por mês e cuida de Francisco com força de leoa. Conseguiu, em 2002, no Hospital Naval, uma cadeira de roda motorizada para o menino. E lutou pela integração do filho nas escolas públicas.

Numa delas, um professor o chamou de aleijado. Francisco chorou. Passou por mais outra, até chegar ao Centro de Ensino Fundamental 2, no Guará I. Está na 6ª série e é um dos alunos mais aplicados da escola. Aos 13 anos, pesa 13kg e tem compleição física de uma criança de menos de 5 anos. Precisa de ajuda para tudo: tomar banho, escovar dentes, trocar de roupa, comer.

Fio de esperança
Nenhum obstáculo impede Francisco de acreditar na vida. "O que me dá força é a vontade de viver do meu filho. Ele nunca desiste", ela diz, comovida. A matéria de que mais gosta? "Educação física", responde ele. Educação física? "Tirei nove. O professor me avalia com prova oral e trabalhos", continua. Francisco gosta também das aulas de artes: "Quero ser arquiteto, adoro desenhar e gosto de fazer casas".

De gel no cabelo, sandália de Superman, calça verde e camisa azul, Francisco recebeu o Correio. A primeira impressão é que se está diante de um menino frágil. Fisicamente, sim. Braços e pernas, de tão finos, parecem que vão se quebrar. Emocionalmente, porém, percebe-se um menino forte. "Na minha separação, ele dizia: 'Mãe, eu ainda tô aqui. Vou cuidar de você'. Foi ele quem me deu força", conta Christiane. Num determinado momento da conversa, o adolescente com voz de menino fi
ca triste. E chora, como gente grande que sente a dor da discriminação. "Eu sofro preconceito. Algumas pessoas ainda me olham diferente, com cara de espanto ou pena". Christiane intervém: "Ele não precisa da pena alheia, mas de solidariedade, respeito e de compaixão do próximo".

Nesse instante, no colo da mãe, como se fosse ainda um bebê, ele se sente protegido. Limpa as lágrimas e fala da escola. E vê que está quase na hora de partir. Ajudado pelas duas irmãs — Bruna, 15 anos, e Nicole, 11 — , ele chega ao colégio, na sua cadeira de roda motorizada, que, pelo tempo de uso, só vive dando problema e no conserto. Ontem, quebrou mais uma vez. Francisco teve de ser carregado. Ao encontrar os colegas de sala e os professores, o riso é incontido. Tem um chamego especial pela amiguinha Suzana de Jesus, de 12 anos. "Ela me ajuda muito", ele diz. "Gosto muito dela", ruboriza. A professora Maria da Paz Santos, 51, da Sala de Recursos, é só elogios: "Ele é um aluno destaque. E o exemplo dele se torna uma lição de vida para todos nós".

Christiane Nascimento, 32, também professora, endossa: "É gratificante trabalhar com o Francisco. A gente se renova. É um fiozinho de esperança todos os dias na nossa vida". O diretor Jairo Peixoto, 46, concorda: "O Francisco aprendeu a lidar com a própria situação e seus limites". E Suzana, a amiguinha especial, o que acha? "Ele é bem legal, a gente faz muita coisa junto." Diego Corrêa,12, fica impressionado: "Ele tem muita vontade de vir pra escola, participa de tudo, não se isola, brinca com a gente. É igual a nós…"

Na parede da Sala de Recursos, bem no alto, em letras coloridas, há uma frase: "Somos todos iguais. Apenas temos diferenças". Foi Francisco quem a escreveu, no seu caderno, com sua letra bem desenhada. Ele, quando inspirado, também gosta de criar poemas. A professora Maria da Paz encantou-se com o que leu. Reproduziu a frase em letras gigantes, para que todos os alunos vissem. Aos poucos, aquela escola vai percebendo a verdade daquela frase, escrita por um menino que luta todos os dias para permanecer vivo.

No fim da conversa, ainda em casa, veio a pergunta sobre felicidade. Com os olhos bem vivos e sorriso espontâneo, ele diz: "Felicidade é o que eu sinto quando acordo todo dia e sinto que tô vivo…" Algum sonho, menino valente? Sem pestanejar, ele responde, sentado no sofá: "Andar. Em todos os meus aniversários, quando apago as velinhas, só penso e peço isso". Há um momento de silêncio naquela sala. Os olhos, de todos ali, marejaram. Depois, como catarse, o menino valente continua: "Outro dia, dormi e sonhei que tava correndo. Foi bem legal. Eu tinha superpoderes e fugia de um monstro gigante". Francisco ri, imaginando-se o menino mais feliz do mundo. Há encontros na vida que são decisivos.

Solidariedade
Francisco precisa de uma nova cadeira de rodas motorizada e de um notebook, para que possa desenvolver melhor suas atividades escolares. Os telefones de contato de Christiane são — 9937- 8528 e 3382-7743