Homens presos pela Polícia Federal planejavam matar alunos da UnB

Ex-estudante da universidade e um comparsa mantinham site que incitava a violência contra negros, homossexuais, mulheres e judeus.
Edson Luiz
Grasielle Castro – Correio Braziliense
Publicação: 23/03/2012 07:10 Atualização: 23/03/2012 07:12

Após receber quase 70 mil denúncias e conduzir uma investigação ao longo de quatro meses, a Polícia Federal (PF) prendeu nesta quinta-feira (22/3) dois homens que planejavam um ataque a estudantes de ciências sociais da Universidade de Brasília (UnB). Por meio de um site, o ex-estudante da UnB Marcelo Valle Silveira Mello e o especialista em informática Emerson Eduardo Rodrigues postaram mensagens combinando o massacre.

Ontem, durante buscas realizadas em Brasília e em Curitiba, os policiais encontraram um mapa apontando uma casa de festas frequentada pelos universitários no Lago Sul. Local onde, segundo a PF, poderia ocorrer a tragédia. A página da internet também incitava a violência contra negros, homossexuais, mulheres, nordestinos e judeus, além pregar o abuso sexual contra menores.

Homem preso por racismo já havia sido denunciado quando era calouro da UnB
Renato Alves
Helena Mader
Publicação: 22/03/2012 14:18 Atualização: 22/03/2012 16:31
Um dos presos pela Polícia Federal na manhã desta quinta-feira (22/3) acusados de postarem na internet mensagens de apologia a crimes contra mulheres, negros, homossexuais, nordestinos e judeus, além de incitar abuso sexual, havia sido investigado por alguns desse crimes quando estudava na Universidade de Brasília (UnB). Então com 22 anos, Marcelo Valle Vieira Mello foi acusado, em 2005, usar o Orkut para disseminar idéias racistas e agredir negros e afrodescendentes. Ele escreveu termos como “sujos” e “macacos” em uma comunidade para se referir aos estudantes que ingressam na UnB pelo sistema de cotas. O caso veio à tona por meio de série de reportagens do Correio Braziliense. Clique aqui e saiba mais.

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No espaço virtual, os opositores à política de inclusão racial usavam palavras agressivas e ofendiam os estudantes cotistas. A iniciativa pioneira da UnB havia já inserido, até então, mais de 900 universitários negros no sistema público de educação superior. Alguns universitários, no entanto, a questionaram de forma criminosa, por meio do Orkut. “Preto tem que morrer mesmo… Estudar a vida inteira e ficar de fora da faculdade por causa de um pretinho de m…. Nessas horas é que dá vontade de pegar uma arma e sair matando todo preto desse país”, postou um integrante da comunidade.

A polêmica começou quando um participante do fórum começou uma discussão sobre as cotas, afirmando que para passar no vestibular era necessário “tomar um banho de sol e passar cera no cabelo, para ele ficar bem duro”, ou ainda “as cotas só colocam gente estúpida na universidade”. O autor das frases era Marcelo Valle Vieira Mello, recém-aprovado para o curso de Letras.

O Grupo de Atuação Especial contra o Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público de São Paulo já investigava o rapaz desde o início de 2005 e garantiu, na época, que ele era conhecido dos promotores por mensagens racistas em páginas do Orkut. “Esses macacos pobres vão estragar as universidades públicas. Eles não sabem nem escrever”, dizia a mensagem colocada pelo calouro da UnB em uma página do site.

Prisões em casa

As prisões de Marcelo Valle Silveira Mello e Eduardo Rodrigues, na manhã desta quinta-feira, ocorreram em Brasília e Curitiba, onde os dois moravam respectivamente, durante operação intitulada Intolerância. Também foram cumpridos mandados de busca e apreensão nas casas dos suspeitos em seus locais de trabalho.

Nota divulgada pela Polícia Federal aponta que o Núcleo de Repressão aos Crimes Cibernéticos recebeu inúmeras denúncias relacionadas ao conteúdo discriminatório do site promovido pela dupla. “Outras denúncias, de mesmo teor, foram dirigidas ao Ministério Público Federal e à ONG SaferNet, onde se registraram 69.729 pedidos de providências a respeito do conteúdo criminoso do site investigado. Um número recorde da participação de populares no controle do conteúdo da internet brasileira”, afirma a nota.

A polícia afirmou ainda que dentre os conteúdos publicados havia declaração de apoio dos criminosos ao atirador Wellington Menezes, que em 2011 atacou a tiros uma escola em Realengo, no Rio. Ele matou diversas crianças e se matou em seguida.