Incluir crianças com Down é obrigação

CORREIO BRAZILIENSE – 03/04/2012

EDITORIAL

Conviver com diferentes faz parte da educação. A escola constitui microcosmo da sociedade. Deve, por isso, ser representativa da variedade existente no meio. Não se admitem colégios que fechem as portas para esta ou aquela etnia, para este ou aquele sexo, para esta ou aquela religião. Tampouco se aceita instituição de ensino que recusa crianças por apresentarem distúrbio genético.

Choca, pois, a notícia de que escolas particulares do Distrito Federal não aceitam meninos e meninas com síndrome de Down. Ou que condicionam a matrícula a pagamento de taxa extra. O Conselho Nacional de Educação (CNE) e a Secretaria de Educação consideram discriminatória a cobrança pelo acompanhamento. O direito está consagrado na Constituição Federal e na legislação específica da matéria.

A prática, que chega a dobrar a despesa dos pais, funciona como muro intransponível para a maioria dos estudantes. A barreira afugenta os postulantes a vaga, privando-os do direito de escolher onde estudar. É verdade que crianças com Down necessitam de cuidados especiais. Tutores as acompanham para evitar defasagens na aprendizagem. Mas não é legal cobrar da família o salário do profissional.

A remuneração deve constar da planilha de custos, que define o valor da mensalidade. Assim diluído, o montante não sobrecarrega ninguém. É justo que assim seja. O convívio heterogêneo beneficia a todos. Vale lembrar que a responsabilidade social constitui exigência da sociedade. Nenhuma instituição pode ignorar que se beneficia do meio e ao meio deve retornar parcela das vantagens auferidas.

Antigamente ações solidárias eram consideradas favor. Hoje são dever. As escolas, que se comprometem com o Estado a desempenhar função educadora, têm a obrigação de incluir. Classes especiais destinadas a alunos com deficiência são lembranças do passado. Colégios que não se deram conta da transformação de mentalidade que se operou no país pertencem também ao passado.

São da época em que os pais escondiam os filhos que apresentassem qualquer característica que os diferenciava da maioria. Isoladas, eram pessoas sem visibilidade e sem direitos. Os tempos mudaram. Incluir é a ordem. Escolas que ignoram o mandamento privam os alunos da necessária convivência com o diferente. Em vez de formar cidadãos, correm o risco de criar intolerantes.

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OPINIÃO – CORREIO BRAZILIENSE – 03/04/2012

CARLOS ALEXANDRE

carlosalexandre.df@dabr.com.br

O deserto das letras

O brasileiro lê em média quatro livros por ano, segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, divulgada na semana passada pelo Instituto do Livro. As razões para esse quadro desolador são fartamente conhecidas — baixa qualidade da educação, tradição oral na cultura brasileira, preços proibitivos dos livros, o apelo da tecnologia, etc. — e permanecem intocadas por gerações.

A pesquisa sobre nossos parcos hábitos de leitura se associa a outro dado relevante, mais antigo, para diagnosticar a delicada situação brasileira. Segundo informações publicadas em 2010, o país ocupa a 88ª posição no Índice de Desenvolvimento de Educação para Todos, ranking elaborado pela Unesco a fim de medir a capacidade e o compromisso das nações com o trabalho desenvolvido nas escolas. A sexta economia mundial está em posição inferior ao Equador, à Bolívia e ao Paraguai; e muito longe de Argentina, Uruguai e Chile, para ficar apenas na América do Sul.

Mais grave do que analisar os antecedentes históricos e fazer estudos comparativos, porém, é verificar a perspectiva do problema. A pouca intimidade do brasileiro com o conhecimento guardado nos livros projeta situações preocupantes. O grave déficit educacional acarreta dificuldades nas escolas, no mercado de trabalho, na economia internacional, nas políticas públicas, no exercício da cidadania. Enquanto o país mantiver indicadores tão precários na formação intelectual dos brasileiros, encontraremos sérios limites para qualificar nossa pauta de exportação, aprofundar o estudo científico, encontrar soluções inovadoras, acelerar o ritmo de crescimento, ser uma sociedade mais justa.

Estatísticas econômicas indicam que o brasileiro demonstra grande interesse em comprar carro, televisão, geladeira, celular. Não se observa, porém, a mesma voracidade no consumo de livros, instrumentos poderosos para alcançarmos um grau de desenvolvimento mais avançado. No mundo pós-industrial, apenas a valorização da leitura permitirá atravessar o deserto das letras.