AMOR PARA A SAÚDE

 Meu nome é Cláudia Seixas Ximenes, sou advogada, servidora pública Federal, moro em Brasília há  34 anos e não me recordo de ter me emocionado tanto com uma história como a dos meninos com Adrenoleucodistrofia-ALD, relatada de maneira emocionante pelo jornalista Marcelo Abreu, do Correio Braziliense.

Lembram-se da história de Lorenzo Odone que deu origem ao filme "ÓLEO DE LORENZO"? Da doença que o acometeu? É a  mesma de Ítalo e Kelvi.

O "Óleo de Lorenzo" é uma estória verdadeira, de um menino, Lorenzo Odone, que aos oito anos começou a demonstrar os sintomas desse mal genético e incurável. Quando seus pais foram informados do terrível diagnóstico de seu filho único, não se conformaram e iniciaram uma batalha científica para melhor entender o "inimigo" invisível que lentamente destruía o cérebro de Lorenzo, deixando-o cego, surdo, paralítico, incapaz de engolir e de se comunicar. Ao invés de simplesmente ficarem sentados aguardando os resultados dos estudos médicos, eles decidiram estudar nos livros de medicina e nos poucos artigos científicos da época, tudo que pudesse ajudar na compreensão do mecanismo de ação da ALD e assim, poder discutir com os médicos a melhor forma de tratamento para amenizar os sintomas de Lorenzo."… (REVISTA CIÊNCIA)

"…Geralmente vivemos nossa vida da melhor forma possível, buscando nossa realização diariamente no estudo, no trabalho, no lazer, etc. Normalmente não pensamos nos riscos implícitos do fato de simplesmente viver. Quando subitamente somos confrontados com uma ameaça real à nossa vida e à nossa felicidade, percebemos como é efêmera a nossa permanência na Terra e como é pequena a nossa capacidade de mudar esta realidade. No entanto, este texto não trata de uma aceitação conformista de nosso destino, mas de uma avaliação de até onde podemos ir para tentar mudar uma realidade difícil."

No Brasil existem  oito  casos desta doença.  Dentre eles, dois são de Brasília: dois irmãos, dois únicos filhos de uma humilde dona-de-casa,  que residem  nos arredores de Brasília.

 Ontem, quando saí  do trabalho, fui até ao HRAS-Hospital Regional da Asa Sul, visitar o Ítalo, que tem oito anos.

Após sete anos de visita àquele hospital, a de ontem foi inédita. Por todos esses anos me visto de Papai Noel e vou em alguns hospitais, principalmente o HRAS, levar, não só o presente, mas, principalmente, levar afeto, carinho, fazer brincadeiras, e poder tirar sorriso daqueles rostinhos. Para mim, dormir escorada na parede de um hospital, não se torna cansativo, pois recebo energia redobrada ao sentir o olhar de tantos "olhinhos" despertando para um novo amanhecer e dar de cara com o Papai Noel. Quem é Papai Noel sabe do que falo…

As alas que percorri ao longo desses sete anos, sempre me pareceram pequenas e sempre cheias. Ontem, as mesmas pareciam não ter fim além de vazias.

Quanto mais eu caminhava em direção à enfermaria da ALA  "B", mais distante ela se tornava. Parecia um mundo estranho em minha vida, um ambiente jamais visto. No caminho, uma Capela onde fiz uma pequena parada para pedir a Deus que me desse forças para levar muito carinho para a criança e também para poder encarar a mãe, com muita naturalidade, sem que ela percebesse a minha angústia pela sua única e inevitável certeza: que seus dois únicos filhos, amados, idolatrados estão fadados a morrer prematuramente.

Quando cheguei à enfermaria fui direto ao leito do Ítalo, a mãe não estava, pois tinha ido para a casa ficar com o outro filho, mais novo – 5 anos – que também tem a doença.

Ao sair do hospital, não pude conter minhas lágrimas. A minha dor era muito grande e se tornava maior ainda quando pensava na dor daquela mãe, nas noites de angústia, na incerteza do amanhecer.

Só chorava e clamava a Deus por misericórdia. Agradeci a Jesus Cristo todo aquele sofrimento, pela doença dos meninos e pelo Seu Amor incondicional. Pedi uma luz, e Ele me deu.  Colocou diante de mim o Dr. Alberto Barbosa, diretor do HRAS que, sentado ao meu lado em um banco chorou dizendo: Você é forte, sempre foi uma super parceira aqui no hospital trazendo amor a todas as crianças que aqui estão na época do Natal e em outras. Você é "um Papai Noel" que já se deparou com tantos sofrimentos, que hoje fazem de você o que é: caridosa. Tenha a certeza de que, tudo o que estiver a meu alcance e de minha equipe será feito.

Sei que Dr. Alberto não mede esforços. Sempre lutou pelo HRAS, não pelo cargo, mas pelo ser humano. Fez daquele hospital um exemplo de hospital infantil através de uma coisa que poucos sabem fazer: HUMANIZAÇÃO.

Fiquei mais consolada pois tinha a certeza de que Deus colocou o Ítalo em um hospital cuja equipe é unida, humana e caridosa.

Agradeci mais uma vez a Cristo pela luz pois tinha a certeza de que Dr. Alberto cuidaria com muito amor do Ítalo e também de todas as crianças como sempre fez.

Diante deste quadro, não me resta outra alternativa senão a de tentar ajudar essa família.

As matérias já estão no site e peço a Deus que ilumine os corações de todos que receberem essa mensagem e que de alguma maneira possam ajudar a essas crianças e seus pais.
 
Li muito sobre a doença. Perguntei para a mãe se ele gostava de TV e música  e a resposta foi sim.
Sabe o que pensei? Vamos ver filme e ouvir música. Deus há de me iluminar e vou conseguir , tenho FÉ, uma TV de plasma pequena, dvd, mini-som. Vou adaptar a TV nos pés da cama e colocá-lo para assistir. Com o som vamos motivar sua audição, renascer a memória com filmes que ele gosta , como Rei Leão.
Também vou conseguir, com a Graça de Deus, reformar o quarto dele para quando ele for para casa, ossim como os  equipamentos necessários (oxigênio, tensiometro, aparelho de pressão, aspirador, porta soro, cadeira de rodas especial que reclina, colchão "ovo".)
 
Colocando-me à disposição para maiores informações, desde já, agradeço o carinho

Cláudia Seixas Ximenes
61 – 99660401
e-mail: claudia_seixas@globo.com

 

 

O óleo da vida

Doença rara e letal atinge dois irmãos, e pais recuperam a esperança com medicamento fabricado no Canadá e Estados Unidos


Marcelo Abreu
Da equipe do Correio

Kelvi, 5 anos
 

Ítalo, 8 anos

Um Frasco de 500ml do Óleo de Lorenzo custa R$ 591 e só dá para 15 dias

Fotos: Cadu Gomes/CB/D.A Press
 

Receituário prescrito por neurologista do Hras para Kelvi e Ítalo
 

Este é um relato feito de dor, lágrimas, luta e uma esperança de vida arrebatadora. E de como essa mesma vida, de uma hora para outra, pode mudar para sempre e alterar projetos e sonhos. Esta história, antes de qualquer coisa, espera por um milagre. Ítalo e Kelvi, dois irmãos, o mesmo diagnóstico, a mesma doença. O mais velho, Ítalo, de 8 anos, está no hospital. Não anda, não fala, não enxerga mais. Alimenta-se por sonda. Até o ano passado, era o melhor aluno da escola. Aprendeu a ler e a escrever bem depressa. Vibrou quando rabiscou o nome completo pela primeira vez. De terno branco e gravata borboleta azul, era o mais feliz na festa de formatura do jardim de infância. Fez pose para tirar retrato com o irmãozinho.

Vascaíno roxo, Ítalo adorava jogar futebol e empinar pipa. Disse certa vez à mãe que, quando crescesse, iria trabalhar na farmácia onde o pai é balconista. Em fevereiro deste ano, porém, começou a perder a visão. Pediu à mãe, como súplica: "Tira essa coisa escura dos meus olhos…" Ela lhe prometeu tirar aquela coisa dos seus olhos. Ele confiou na mãe. A mãe acreditou que o salvaria.

Kelvi, 5 anos, o filho mais novo, há dois meses começou a sentir dificuldade para andar. Tem arrastado a perna direita. E reclama que não enxerga bem. Os olhos se perdem no vazio. Mesmo de perto, tem dificuldade para ver pessoas e coisas. Tropeça e cai com facilidade.

Ítalo e Kelvi têm adrenoleucodistrofia (ADL) — doença rara que provoca mutações genéticas. Essa mutações destroem completamente o sistema neurológico. Existem, segundo os últimos registros em hospitais públicos, apenas oito casos em todo o Brasil. Não tem cura e leva o paciente a um estado vegetativo e à morte. Ítalo está há um mês no Hospital Regional da Asa Sul (Hras). Luta para continuar vivo. Kelvi, em casa, pergunta pelo irmão. Quer brincar com ele.

No domingo, Dias dos Pais, Kelvi tomou o remédio que não irá curá-lo, mas poderá evitar que a doença progrida mais rapidamente. Os pais lhe deram a primeira dose do Óleo de Lorenzo (leia Para Saber Mais). A ADL se caracteriza pelo acúmulo de ácidos graxos saturados nas células do cérebro, o que leva à destruição da mielina — substância formada de proteínas e gorduras que ajudam na condução das mensagens nervosas. Sem a mielina, os neurônios perdem a capacidade de transmitir corretamente os estímulos que fazem o cérebro funcionar.

O Óleo de Lorenzo é a mistura de dois ácidos graxos insaturados — o ácido oléico e o ácido erúcico. Essa mistura evita o acúmulo dos ácidos saturados nas células e tenta restabelecer a transmissão dos estímulos nervosos. Desde que o garoto tomou a primeira dose do remédio, a mãe e o pai de Kelvi passaram a acreditar em milagre. "Não sei se é apenas ansiedade, mas o olhinho dele ficou mais vivo", comemora a dona-de-casa Denise Araújo Cardoso, de 27 anos. O balconista de farmácia Edilson da Silva Urany, 28, disfarça as lágrimas, segura a dor diante da mulher e do filho e continua: "Até a perna ele tá arrastando menos. A gente tem muita fé".

Primeiros sintomas
Na tarde de terça-feira, Edilson e Denise receberam o Correio. Na casa modesta, em Santo Antônio do Descoberto (GO), 50km do Plano Piloto, a família contou a dor ao se deparar com a doença dos dois únicos filhos. A princípio, Denise falou de culpa. É a mulher que transmite o gene para o filho. Ela é portadora, mas não a desenvolverá. "Só soube que tinha isso quando o Ítalo adoeceu e eu fiz exames específicos", ela conta.

A gestação de Ítalo foi absolutamente tranqüila. "Até o teste do pezinho foi normal", diz a mãe. O menino cresceu como qualquer criança saudável. Em fevereiro de 2007, aos 7 anos, teve a primeira convulsão. "Ele ficou pálido e muito mole. Levamos pro hospital daqui", ela lembra. De Santo Antônio, o menino foi encaminhado para o Hospital de Taguatinga (HRT).

Medicado, Ítalo voltou para casa. Seria apenas uma indisposição. Precisaria ficar em observação. Os pais perceberam que ele começou a ficar agitado. E caía com facilidade. Em março, mais uma convulsão. Mais uma ida ao hospital, desta vez ao Hras. Depois, foi encaminhado para uma consulta com uma neurologista, no Hospital de Base (HBDF). Ela suspeitou de epilepsia. No HRT, marcaram uma tomografia. Numa clínica particular, ressonância. Os resultados foram le
vados para uma especialista, no Hospital Anchieta, em Taguatinga. Não havia mais o que contestar: Ítalo tinha ADL.

A médica falou sobre o que poderia acontecer com o menino. "Eu disse a mim mesma: 'Ela só pode tá errada. Meu filho tá bem'. Eu não me conformei com aquele diagnóstico", lembra Denise. Em fevereiro deste ano, o pior aconteceu: Ítalo parou de andar. Em abril, não mais enxergou. Os pais conseguiram uma consulta no Hospital Sarah. A equipe de genética confirmou o diagnóstico.

Dor e esperança
O mundo de Edilson e Denise desabou. Se Ítalo tinha a doença, provavelmente Kelvi a teria também. Os exames ratificaram. O filho mais novo padecia do mesmo mal. Como não havia apresentado sintomas clínicos, os médicos chegaram a sugerir um transplante de medula. Na última hora, uma ressonância detectou uma mancha de gordura no cérebro. O transplante não adiantaria. Há dois meses, Kelvin começou a andar com dificuldade. E a perder, pouco a pouco, a visão.

Uma médica do Anchieta falou sobre o filme O Óleo de Lorenzo para Denise. "No começo deste ano, eu assisti com meu marido. Choramos muito, ficamos tristes, mas também tivemos mais esperança", conta a mãe. E continuou, comovida: "Foi quando entendemos tudo sobre a doença e o que poderia acontecer com nossos filhos. Hoje, quando eu chego no hospital e vejo o Ítalo eu sei que ele me reconhece, mesmo que não fale nem me enxergue mais".

A luta agora seria para ir atrás do Óleo de Lorenzo, remédio caro, não disponível na rede pública. Uma médica do Hras disse aos pais que valeria a pena tentar. "No Ítalo, como os sintomas estavam mais avançados, talvez não fizesse mais efeito. Mas no Kelvi seria importante experimentar", conta Edilson. E começou a luta. Até mesmo contra alguns médicos, contrários à idéia. Aos pais, uma mulher de jaleco branco, despreparada e insensível, sentenciou, sem meias palavras: "É muito caro esse custo pro Estado. E além do mais as chances de recuperação são mínimas. Quem garante que vai dar certo?".

O neurologista pediatra Sérgio Henrique Veiga, do Hras, resolveu se juntar aos pais, na esperança da vida. Acredita no Óleo de Lorenzo e o receitou para Ítalo e Kelvi. O mais novo começou a tomar o remédio no Dia dos Pais. O mais velho, internado, tomará depois que se curar completamente da pneumonia e fizer um procedimento cirúrgico para colocação de uma sonda no estômago.

Cada frasco de 500ml do óleo custa R$ 591. Dá apenas para duas semanas. A medicação, produzida nos Estados Unidos e no Canadá, é vendida por um distribuidor de São Paulo, sob severa prescrição médica. Denise e Edilson, que ganha R$ 700 como balconista de farmácia, saíram à luta. Santo Antônio do Descoberto fez uma corrente de solidariedade para juntar dinheiro. Teve bingo, rifa, partida de futebol beneficente. Até a igreja entrou na campanha.

Na semana passada, chegaram dois frascos do Óleo de Lorenzo. No Dia dos Pais, Kelvi tomou as primeiras doses. Feliz, perguntou à mãe: "Tem que tomar pra ficar grande e forte, né?". Ela lhe garantiu que sim. Edilson e Denise sabem que o remédio não é a cura da doença, apenas retardará os danos que ela causará. "Mas faremos qualquer coisa pra retardar os sintomas dela", reflete a mãe. Enxugando as lágrimas, o pai emenda: "É nossa única esperança, a única chance de lutar enquanto houver vida. E não importa quanto tempo a vida vai durar" . Junto à Secretaria de Saúde, a família luta para conseguir o medicamento. "Encaminhamos toda a papelada. Agora só falta a resposta do governo", aguarda Edilson, apreensivo e com nenhuma certeza.

Naquela casa modesta de paredes azuis, aconteceu uma história improvável. Os dois únicos filhos de Denise e Edilson têm uma doença rara. Lentamente perdem a capacidade de se relacionar com o mundo. Vivem agora à espera de um milagre. E se agarraram a um óleo, o de Lorenzo, como a única esperança de suas vidas.

SOLIDARIEDADE
A família precisa de ajuda para comprar o Óleo de Lorenzo. Contato: 8414-5562. Conta Banco do Brasil, agência 4545-4, conta corrente: 11151-1.


No começo deste ano, eu assisti o filme com meu marido. Choramos muito, ficamos tristes, mas também tivemos mais esperança

Denise Araújo Cardoso, a mãe

É nossa única esperança (o Óleo), a única chance de lutar enquanto houver vida. E não importa quanto tempo a vida vai durar

Edilson da Silva Urany, o pai


Para Saber Mais
Realidade no cinema

O filme Óleo de Lorenzo (Lorenzo's Oil) conta o drama de um menino e sua luta para continuar vivo. Aos 6 anos, Lorenzo Odone
começou a apresentar os sintomas da adrenoleucodistrofia (ADL) — doença degenerativa rara e incurável. Seus pais, informados do que aconteceria com o filho, não aceitaram o diagnóstico e iniciaram uma verdadeira batalha científica para melhor entender a doença e ajudar o menino. Aos poucos, com a destruição de células do cérebro, Lorenzo parou de andar, enxergar, comer e se comunicar.

Em livros de medicina, mergulhados dias e noites em bibliotecas, os pais de Lorenzo, Mickaela e Augusto Odone, passaram a estudar o mal que acometia o filho. Discutiam com os médicos o que haviam descoberto, buscavam opinião e, quase sempre, esbarravam no preconceito e na desinformação da própria classe médica em relação à doença de Lorenzo.

Depois de muitos estudos, os pais descobriram um tratamento à base de azeite de oliva e canola, que ficou conhecido em todo o mundo como o Óleo de Lorenzo. O medicamento não representa a cura, mas pode, segundo pesquisas médicas, retardar os sintomas da ADL.

Ainda criança, Lorenzo passou a tomar o medicamento. Não se curou porque as lesões do sistema nervoso central já haviam deixado seqüelas irreversíveis, mas a doença estacionou. Em maio deste ano, aos 30 anos, ele morreu em sua casa, na Virgínia (EUA). Não resistiu às conseqüências de uma pneumonia. O pai acredita que não houve ligação com a ADL. Na época que descobriu a doença, aos 6 anos, os médicos deram ao menino alguns meses de vida.

O Óleo de Lorenzo, que comoveu platéia do mundo inteiro, foi lançado em 1992 . No elenco, Susan Sarandon, Nick Nolte e Peter Ustinov. O filme teve duas indicações para o Oscar — o de melhor atriz e roteiro original. (MA)


Ítalo, irmão de Kelvi, começou a tomar o Óleo de Lorenzo. Medicamento retarda sintomas da doença rara e fatal. Defensoria Pública luta para o governo pagar o tratamento


Marcelo Abreu
Da equipe do Correio

 


Fotos: Carlos Vieira/CB/D.A Press
 

No hospital, com Ítalo, que bebeu o óleo ontem pela primeira vez. Kelvi beija o irmão, que está no Hras, e torce para que ele fique bom logo

 
Kelvi vem reagindo bem à nova fase de sua vida após receber doses do Óleo de Lorenzo: planos de voltar a estudar e a jogar futebol
 
Tarde de quarta-feira, 14h30. Kelvi, de 5 anos, chega ao quarto do hospital e olha o irmão fixamente. Toca-o com carinho no braço. Depois o beija na testa. É beijo de quem gosta. Quer que ele levante dali, pra brincar de pique-esconde e pique-pega. Mas Ítalo, 8, de bermuda laranja e camisa verde, não responde. Na verdade, o irmão mais velho de Kelvi não anda, não fala nem ouve mais. Há oito meses, jogava futebol, empinava pipas e era o melhor aluno da sala. Mas ainda há esperança. Não de cura, mas de que os sintomas danosos da doença cessem. Pelo menos retardem mais um pouco.

Kelvi também tem a mesma doença. Começou a arrastar a perninha direita e tem reclamado de alguma coisa que o impede de enxergar. Apesar de tudo, essa ainda é uma história de esperança. E de como qualquer fiapo de esperança pode representar um milagre. Na verdade, milagres têm o tamanho do que se possa dar a eles.

No Dia dos Pais, 10 de agosto, Kelvi começou a tomar um remédio que pode fazer com que os sintomas demorem a comprometer sua vida. Passou a arrastar menos da perna. A visão ficou menos escura. Kelvi tem esbarrado menos nas coisas pela casa. E já disse à mãe: "Vou tomar o remédio pra ficar forte e crescer do tamanho do céu". Há dois dias, no Hospital Regional da Asa Sul (Hras), onde está internado há pouco mais de um mês, Ítalo tomou pela primeira vez o mesmo remédio. Uma tia que passou a noite toda com ele — enquanto a mãe, exausta, descansava em casa — testemunhou, com alegria na voz, o que viu: "Ele não chorou nem ficou agitado. Até a febre passou".

A doença é tão rara que existem apenas oito casos dela em todo o Brasil. Na quinta-feira passada, o Correio contou, com exclusividade, o drama dos dois irmãos de Santo Antônio do Descoberto (GO) — cidade do Entorno goiano, a 50km do Plano Piloto. Ítalo e Kelvi têm adrenoleucodistrofia (ADL), doença rara e letal que destrói o sistema neurológico. E o medicamento que ambos passaram a tomar na tentativa de amenizar os sintomas do mal foi revelado no filme O Óleo de Lorenzo, que emocionou platéias pelo mundo inteiro, em 1992.

No filme, estrelado por Susan Sarandon e Nick Nolte, baseado numa história real, os pais de Lorenzo não se conformaram com o diagnóstico dos médicos. Mais do que isso: não aceitaram o tempo de vida que deram ao menino, então com 6 anos. Mergulhados em bibliotecas e vasculhando livros, Mickaela e Augusto Odone estudaram tudo sobre a rara doença. Descobriram um remédio que podia retardar o pior. Mas esbarraram no preconceito, na desinformação e na impaciência daquela gente de jaleco branco, que, na sua total arrogância, não os escutou.

A alegação para não reconhecer o remédio era de que não havia comprovação científica. Lorenzo, que não chegaria à adolescência, segundo esses próprios médicos, morreu de pneumonia, no dia 30 de maio deste ano, aos 30 anos. Hoje, alguns cientistas são categóricos: o Óleo de Lorenzo não traz a cura da doença, mas pode ajudar na estabilização dos sintomas.

E a
batalha de Edilson da Silva Urany, de 28 anos, e de Denise Araújo Cardoso, 27, pais de Ítalo e Kelvi, também tem sido grande. Peregrinaram por quase todos os hospitais públicos e alguns particulares do DF. Primeiro, veio o diagnóstico terrível. Depois, a batalha para buscar a melhor conduta. Uma médica do Hospital Anchieta lhes falou pela primeira vez do filme O Óleo de Lorenzo. Aconselhou-os a assistir. Eles se enxergaram nos pais de Lorenzo. Choraram. E também se encheram de esperança. Descobriram que em São Paulo uma distribuidora importava o medicamento dos Estados Unidos e do Canadá.

Mas esbarraram no primeiro golpe: não podiam comprar o remédio. Um frasco de 500ml do óleo custa R$ 591. E dá apenas para duas semanas. Edilson é balconista de farmácia, ganha R$ 700 por mês. Denise é dona-de-casa. Uma endocrinologista do Hospital Universitário de Brasília (HUB) lhes disse, comovida: "Se fosse meu filho, eu daria o Óleo de Lorenzo". Denise chorou. Sabia que não teria condições de comprar. A rede de saúde pública do DF não dá a medicação. Outra médica, de um hospital público — na sua prepotência e insensibilidade assustadoras — desdenhou, sem meias palavras: "Pra que fazer o Estado pagar medicamento tão caro? Não vai adiantar mesmo. É desperdício…"

O balconista de farmácia e a dona-de-casa contaram com a ajuda daquela gente simples de Santo Antônio Descoberto. A comunidade se juntou e fez bingos, rifas, torneio de futebol beneficente. Até a igreja colaborou. Edilson e Denise conseguiram comprar dois fracos do Óleo de Lorenzo. Há 20 dias, Kelvi, que apresenta sintomas mais brandos da doença, começou a tomar o remédio. Na noite de quarta-feira, receitado pelo neuropediatra do Hras Sérgio Henrique Veiga — que acredita na vida e prometeu aos pais que daria o óleo para os dois —, Ítalo também iniciou o tratamento.

Justiça
Há uma semana, o telefone dos pais de Ítalo e Kelvi não pára de tocar. A ajuda vem de todos os lados. "É de Brasília, do Entorno e até de outros estados", diz o pai. "Eu nunca pensei que as pessoas fossem ainda tão boas. A gente não sabe nem como agradecer. É a prova de Deus". As doações em dinheiro na conta não cessaram. Junto com tanta solidariedade, uma boa notícia — A Defensoria Pública do Distrito Federal entrou na história.

A defensora Emmanuela Furtado, 37, ajuizou ação contra o GDF para o governo arcar com as despesas do remédio."Eu fiquei constrangida quando o pai, aqui na minha frente, ainda me agradeceu, humildemente. É um direito da família, um dever do Estado", reflete, comovida, Emmanuela. No fim da noite de ontem o GDF informou que, apesar de não ter registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), vai autorizar a compra do medicamento.


A ação já chegou à mesa do juiz Rômulo de Araújo Mendes, da 5ª Vara de Fazenda Pública, para que ele se pronuncie sobre o caso. "Se a gente receber o óleo do governo, todo o dinheiro que as pessoas depositaram na nossa conta será usado para adaptar o quarto do Ítalo, quando ele tiver alta, e deixar parecido ao do hospital", informa o pai. A mãe, resignada, desabafa: "Não importa como ele vai voltar. A gente só quer que ele viva do nosso lado o tempo que Deus quiser". Kelvi faz planos para quando Ítalo voltar: "A gente vai jogar futebol na escolinha, né, mãe?". Ela responde que sim. Ele acredita nela. No hospital, Kelvi beija o irmão. Pede baixinho pra ele conversar. Milagres são do tamanho do que se quer sentir. Ou viver.

SOLIDARIEDADE
Contato com Edilson, pai de Ítalo e Kelvi — (61) 8414-5562.


Eu nunca pensei que as pessoas fossem ainda tão boas. A gente não sabe nem como agradecer. É a prova de Deus

Edilson, o pai

 

Não importa como ele vai voltar. A gente só quer que ele viva do nosso lado o tempo que Deus quiser

Denise, a mãe