A escalada da criminalidade

A escalada da criminalidade

Delitos como assaltos a bancos e casas lotéricas praticamente desapareceram do DF nos últimos oito anos. Já os seqüestros relâmpagos e os roubos a estabelecimentos comerciais desafiam as autoridades de segurança


Guilherme Goulart 
Da equipe do Correio

Balanço da violência nos últimos oito anos revela a escalada da criminalidade na capital do país. Enquanto delitos como assaltos a banco e a casas lotéricas praticamente sumiram do Distrito Federal, outros como seqüestro relâmpago e roubo a estabelecimentos comerciais incomodam a população e desafiam as autoridades de segurança pública. A ascensão e a queda dos crimes cometidos nas regiões administrativas do DF estão especificados em levantamento realizado pela Secretaria de Segurança Pública do DF entre 2000 e 2007. 

A análise mostra equilíbrio entre os números do período. Dos 29 delitos listados, 13 aumentaram, 12 reduziram e quatro ficaram na média. Alguns dos que cresceram, porém, têm características violentas, como quatro tipos de assalto à mão armada (leia arte). Também aumentaram quatro modalidades de furto e as tentativas de latrocínio e de homicídio. Mas despencaram aquelas que intimidam o brasiliense: latrocínio, estupro, roubos em residências, a bancos, em coletivos e em postos de gasolina. Ficaram estáveis os índices de homicídio e de lesão corporal. 

Fora do Código 
Um dos aumentos que mais chamam a atenção é o do seqüestro relâmpago. O crime, sem especificação no Código Penal brasileiro, é calculado pelo somatório dos roubos com restrição de liberdade da vítima e qualificado com extorsão. Houve 75 casos em 2000 e 456 em 2007, um crescimento de 508%. Os últimos oito anos ainda apontam a maior quantidade de registros a cada ano. Em 2008, as 336 ocorrências dos primeiros sete meses alcançaram a média de uma vítima a cada 15 horas e 12 minutos na capital do país. 

A própria polícia admite dificuldade no combate aos seqüestros. Os ataques ocorrem a qualquer hora e local. Muitos acabam marcados pela violência e ameaça à vida. Principalmente por causa da participação de adolescentes e bandidos armados e inexperientes nas ações. Preferem mulheres, idosos e pessoas sozinhas, surpreendidas em momentos de distração. 

Um servidora pública de 27 anos pensou que ia morrer ao passar pelo drama em julho do ano passado em Ceilândia. Dois ladrões armados a renderam na porta de casa, no Setor O. Ela tinha acabado de estacionar na garagem o carro recém-comprado. Por cerca de 30 minutos, ficou sob o poder da dupla enquanto dirigia pela BR-070 em direção a Águas Lindas (GO). Tinha uma arma apontada para a barriga. “Fiquei em pânico. Às vezes, acelerava e às vezes, reduzia. Achei que iam me matar ali mesmo”, contou. 

Os bandidos, porém, a abandonaram perto de Brazlândia, depois que a motorista errou uma das entradas. Fugiram com o carro e os objetos de valor da vítima, que conseguiu socorro e denunciou o roubo à policia. Policiais militares prenderam os seqüestradores em menos de uma hora próximo a Ceilândia. Um deles foi identificado como Roger do Arte Pinto, 23, mesmo assaltante morto por um atirador do Batalhão de Operações Policiais (Bope) durante roubo a uma farmácia de Ceilândia em 20 de agosto deste ano. 

Ataque padrão 
Roger perdeu a vida praticando outro crime em ascensão no DF no período 2000-2007: o assalto a comércio. O delito cresceu 9,3% nos últimos oito anos. Saiu de 1.757 ocorrências em 2000 para 1.922 em 2007. Locais com concentração de patrimônio, como o Plano Piloto, são os mais visados. “Numa única semana de julho deste ano, três lojas foram roubadas, incluindo a nossa”, reclamou uma vendedora da 305 Sul. O roubo ocorreu por volta das 8h30. 

No último dia 29, assalantes levaram R$ 110 mil em jóias e relógios de um loja no 4º andar do Conjunto Nacional. Os dois homens fizeram sete reféns e fugiram pelo elevador. 

A ações nas asas Sul e Norte ficaram tão constantes que as vítimas identificaram um padrão. A maioria dos criminosos especializados se passa por cliente antes de render os funcionários. A conversa anterior ao anúncio do assalto serve para observar o ambiente e localizar o caixa, os equipamentos de segurança e os pontos para fuga. Além de dinheiro, os ladrões levam roupas, jóias, bolsas, celulares e tudo que possa ser revendido com rapidez e facilidade.


Tráfico de drogas estimula assassinatos

Dois especialistas em violência e segurança pública tiveram acesso às estatísticas da Secretaria de Segurança Pública do DF. De acordo com o sociólogo Marcelo Batista Nery, pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (USP), a queda no total de roubos de veículos e a bancos, por exemplo, se deve ao combate direcionado às quadrilhas especializadas. “Esses dois crimes, aliados às ações contra o tráfico de drogas e o porte ilegal de arma, podem revelar o sucesso contra o crime organizado”, explicou. Ainda assim, o pesquisador chamou a atenção para os índices de homicídios por 100 mil pessoas no DF. Os 567 assassin
atos cometidos em 2007 apontaram taxa de 23,3 — são 2,4 milhões de habitantes. É maior do que a da capital paulista, de 15 por grupo de 100 mil pessoas no mesmo ano. 

Apesar do índice, a média de 48 casos por mês nos últimos sete anos prevalece nas mortes intencionais. A maioria dos crimes é praticada em Ceilândia, Samambaia e Santa Maria. E tem como pano de fundo o tráfico de drogas. Um deles ocorreu em 13 de maio. Rebert de Araújo Torres, 21 anos, levou cinco tiros na QR 302 de Samambaia. Havia saído de casa pouco antes da meia-noite, acompanhado de dois conhecidos, para cobrar dívida em nome de um traficante da vizinhança. Encontraram o devedor, um jovem de 20 anos, e lhe tomaram a bicicleta. Não esperavam que ele reagisse a tiros à abordagem. 

A mãe da vítima, Maria do Socorro Pereira de Araújo, 52, lamenta que o filho tenha perdido a vida por uma dívida que não era dele. Para ela, ficaram a saudade, a insegurança e as dívidas. “Tenho ainda a pagar parcelas do enterro dele e só consegui trabalho de diarista”, contou. Rebert deixou mulher e filha de 2 anos. 

Ainda tranqüilo 
Segundo o professor George Felipe Dantas, coordenador para assuntos de segurança pública do Centro Universitário do DF (Unidf), diante das estatísticas, o DF continua tranqüilo em relação às demais capitas brasileiras. “Diante do que cresceu, o DF ainda está em situação confortável por conta de uma Polícia Civil com nível superior e muita tecnologia e uma Polícia Militar entre as mais numerosas do país”, afirmou. Ainda assim, alertou para o aumento do seqüestro relâmpago. (GG) 


Transporte vulnerável

Adauto Cruz/CB/D.A Press – 4/9/08
O cobrador de ônibus Despedito de Lima já sofreu quatro assaltos
 

O balanço da Secretaria de Segurança Pública do DF aponta os assaltos a ônibus como um dos crimes que mais diminuíram. Caiu pela metade no período 2000-2007. Houve 1.247 registros no primeiro ano das estatísticas e 613 no último. Parte da queda se explica pelas vans do transporte alternativo, que dividiam, antes de o serviço ser extinto, o interesse dos bandidos. Mesmo assim, os roubos cresceram 5,5% na comparação dos últimos dois anos — as delegacias registraram 581 casos. A média no ano passado ficou em um veículo atacado a cada 14 horas e 17 minutos. 

A insegurança predomina entre rodoviários e passageiros de Ceilândia, Samambaia, Taguatinga e Santa Maria. O cobrador Despedito Soares Pereira de Lima, 45 anos, trabalha no terminal rodoviário do Setor O, em Ceilândia. Sofreu quatro assaltos. O mais recente em abril deste ano, quando os criminosos levaram R$ 165 do caixa. “Às 6h30, dois homens armados entraram no ônibus que vai de Ceilândia para a Expansão e limparam tudo. Levei até tapa na cara”, lamentou.