Sem estrutura adequada

No dia em que se comemora a doação do tecido, a capital do país apresenta um quadro preocupante. Hospitais não fazem tratamento


João Campos 
Da equipe do Correio

 

Evandro Matheus/Esp. CB/D.A Press
Sargento Lopes é um dos voluntários do sistema de doação de medula óssea: lição de solidariedade
 

No Dia Mundial da Doação de Medula Óssea, celebrado hoje, não há muito o que comemorar na capital do país. Brasília, cidade referência pela qualidade de vida nos quatro cantos do Brasil, não tem um hospital sequer — público ou particular — que realize o transplante entre pessoas que não sejam da mesma família, o que corresponde à exclusão de 75% dos pacientes. Além disso, faltam reagentes para fazer o exame que identifica a compatibilidade entre doadores e receptores no Laboratório Central do Hospital de Base do Distrito Federal. O sangue coletado na cidade para compor o banco de doadores nacional tem que ser enviado para centros médicos de Goiânia (GO). Apesar da situação, pacientes como Bruno Bukvic, 23 anos, não perdem a esperança de conseguir o transplante (leia texto abaixo). 

A medula é o tecido encontrado no interior dos ossos e tem a função de produzir as células do sangue: glóbulos vermelhos e brancos e plaquetas. São essas células que transportam o oxigênio do pulmão para os demais tecidos do corpo e protegem o organismo contra agentes infecciosos, como vírus e bactérias. Por isso, o transplante de medula trata casos de doenças hematológicas, como a leucemia — tipo de câncer que afeta os componentes sangüíneos. “É a última esperança de cura, quando o tratamento quimioterápico não resolve”, explica a coordenadora da Central de Captação de Órgãos do DF, Daniela Salomão. A possibilidade de achar um doador compatível no Brasil é de uma em 100 mil. 

Não bastasse a sorte, os pacientes lutam contra a precariedade da rede de saúde pública. Além da falta de reagentes para realizar o exame conhecido como HLA, a única máquina capaz de fazer o teste está com defeito. “Vamos resolver tudo até segunda-feira (hoje)”, prometeu o secretário adjunto de Saúde, Florêncio Figueiredo. Ele ressaltou que há hospitais na cidade aptos a fazer o transplante entre parentes — que conta com um pós-operatório mais seguro pela compatibilidade genética —, mas não há previsão para o tratamento com doadores desconhecidos, maioria dos casos. 

Nos próximos dias, diversos pontos de coleta oferecerão estrutura para o cadastro de voluntários. Na semana passada, durante campanha na Escola Canarinho e no Parque da Cidade, 700 pessoas se inscreveram no banco de doadores. “Aproveitei para praticar a solidariedade. Achar alguém compatível é muito difícil, mas, se cada um ajudar fica mais fácil”, disse o sargento da Polícia Militar Alberto Lopes. 

Fila da agonia 
No Brasil, há cerca de 800 mil pessoas cadastradas no Registro Nacional dos Doadores de Medula Óssea e 3 mil pacientes à espera de um transplante. O DF representa 6% do total de inscritos, aproximadamente 48 mil voluntários. Segundo Daniela Salomão, a falta de informação faz com que muitas pessoas não participem das campanhas (veja quadro). “São retirados 4 ml de sangue para fazer o cadastro. Caso haja compatibilidade com algum paciente, o voluntário será comunicado posteriormente”, explica a médica. Antes do transplante, o doador passa por novos exames, e não é necessário internação. “Não há cortes cirúrgicos. Usamos anestesia local para retirar parte da medula do osso ilíaco e em duas semanas a medula do doador está regenerada”, acrescentou. 

PARTICIPE DA CAMPANHA 
Confira os locais da coleta de sangue. Podem doar pessoas com idade entre 18 e 55 anos. É preciso apresentar documento de identidade. 

  • Terça e quarta-feira 
    Prédio dos Correios (Setor Comercial Sul) 
  • Quinta-feira 
    Escola Canarinho (408 Norte) 
  • Sábado e domingo 
    Hipermercado da Terra, em Luziânia (GO) 

    O Hemocentro de Brasília, que fica na SMHN Quadra 3, Conjunto A, realiza a coleta de sangue de segunda a sábado, das 7h às 18h. Mais informações: 3327-4424.


  • Veja infografia: Sobre transplante de medula óssea 

     


    Um golpe do destino

    Arquivo Pessoal
    Daniela está sempre ao lado de Bruno: amor e dedicação ao noivo
     

    O envelope com o resultado de um exame sangüíneo corriqueiro, aberto na tarde de 19 de março, revelou a doença que ele conhecia como “de alto risco”. Testes mais detalhados confirmaram: o brasiliense Bruno Bukvic, 23 anos, estava com leucemia. Desde então, o jovem, que estava no último semestre do curso de engenharia mecânica na Universidade de Brasília, praticava esportes, dedica-se exclusivamente à quimioterapia. Para enfrentar a espera pelo transplante de medula óssea, o valente Bruno conta com o amor e a dedicação incondicional da família e da noiva, Daniela. 

    Na tarde de sábado, o morador do Lago Sul compartilhou sua experiência com o Correio. Disse que a parte mais difícil foi superar a quebra da rotina. “Estava me preparando para a vida profissional. Agora preciso focar a vida na minha cura”. E afirma que o seu maior desejo é ver as pessoas e o governo se conscientizarem da importância das campanhas para cadastro de doadores voluntários. “Se as pessoas soubessem como é fácil ajudar e a grandeza do alívio de quem espera, seria tudo mais tranqüilo”, observou. O jovem de sorriso largo se sente triste ao perceber que não pode contar com o apoio necessário da rede de saúde pública da capital do país — “É tudo muito precário”. (JC)