Hábito que se inicia em casa

Especialistas ressaltam a importância dos pais na formação do gosto pela leitura. Contato com os livros pode começar antes da alfabetização


Mirella Marques 
Do Diario de Pernambuco

 

Breno Fortes/CB/D.A Press
Incentivada pelos pais, Juliana já é, aos 4 anos, uma freqüentadora assídua dos sebos e livrarias: adoração pela história de A Bela adormecida
 

Juliana Manuella Sampaio adora livrarias e sebos. Acompanhada dos pais, Rodrigo e Heidi, a pequena de 4 anos reconhece nas prateleiras os títulos preferidos. “A bela adormecida é o que eu mais gosto”, aponta. Embora não saiba ler ainda, Juliana já consegue reconhecer algumas letras e formar palavras, como o próprio nome. Leitores freqüentes, os pais da menina incentivam a leitura. “Já estamos numa fase em que nem é preciso estimular, pois ela gosta muito de ouvir histórias. Pede sempre para a gente ler. Quando estamos cansados, é ela que pega o livro e começa a contar a história para a gente, até porque já decorou todas”, diz Rodrigo. O fato de o casal ter o hábito da leitura, na avaliação dele, ajuda a filha a gostar de ler. Prova disso é a alegria da garota dentro de um sebo na Asa Norte. “Quero este”, avisa ao pai, apontando para mais uma versão de A bela adormecida. 

Rodrigo e Heidi são um exemplo a ser seguido, segundo os especialistas. Educadores estão convencidos de que os pequenos leitores são apenas um reflexo de pais que costumam ler em casa. E, mesmo fazendo parte da geração internet, essas crianças conseguem cultivar o gosto pelo bom e velho livro. Hábito dos mais importantes. Quem lê com freqüência amplia o vocabulário, escreve e fala bem. E desenvolve uma boa capacidade de interpretação, que vai influenciar de forma positiva em todas as atividades escolares e, futuramente, profissionais. 

No país, existem apenas 26 milhões de leitores ativos, de acordo com a Câmara Brasileira do Livro (CBL). Essa turma lê pelo menos quatro livros por ano. E é minoria. Representa, de forma precisa, 16% da população, que detém 73% dos livros do país. Só um terço dos adultos brasileiros aprecia a leitura. E grande parte dos livros comprados são didáticos. Ou seja, obrigatórios. Da população adulta alfabetizada do país, 61% têm muito pouco ou nenhum contato com livros e 47% possuem, no máximo, 10 livros em casa. 

“Precisamos reverter esses números. Isso só será possível se soubermos criar o hábito da leitura entre as crianças. Ela deve ser informativa, através de jornais e revistas, ou por pura diversão, com a promoção de rodas de poesias ou contação de histórias”, diz a pedagoga Giselle Silva, especialista em educação infantil e ensino fundamental. 

Internet 
A internet revolucionou a forma de obtenção do conhecimento. Para grande parte da garotada, no entanto, ela pode se resumir aos populares sites de relacionamento. E daí, no mundo infinito e prático da grande rede, muitos jovens acabam abandonando o hábito de ler por prazer. “O desenvolvimento da leitura ainda é missão dos livros. Na internet, com os textos curtos, a expansão de vocabulário é pequena”, acredita o escritor pernambucano Raimundo Carrero, que costuma percorrer o estado realizando oficinas literárias para estimular o hábito da leitura em crianças e adolescentes. 

Tarefa difícil, mas não impossível. Basta incentivo de pais e educadores. “Quem nasceu em uma família de leitores, independentemente do poder aquisitivo dessa família, tem muita chance de se tornar um grande apreciador dos livros”, diz William Nacked, conselheiro do Instituto Brasil Leitor. De acordo com uma pesquisa realizada pela instituição, a mãe é indicada por 41% dos leitores como uma das duas pessoas que mais influenciaram no gosto pelos livros. Os professores foram citados por 36% dos entrevistados, seguidos do pai, citado por 24% dos participantes do estudo. 

É o caso da estudante Ana Cecília Carvalho, 13 anos. Desde pequena, ela convive com revistas, jornais e livros em casa. O pai, advogado, é o seu maior incentivador. “Ele lê muito. E isso acabou me influenciando a gostar de ler também”, conta. Desde os 6 anos, idade em que foi alfabetizada, Cecília já leu cerca de 100 livros. O preferido é Capitães de areia, de Jorge Amado. Assim como outros adolescentes, ela também gosta e usa a internet, mas a maior parte do tempo livre é destinado aos livros. 

COMO AGIR 

  • Mantenha sempre livros, revistas ou jornais em casa. De preferência, sempre ao alcance dos pequenos leitores 
  • Dê o exemplo. Os adultos que lêem incentivam as crianças e adolescentes a fazerem o mesmo 
  • Ao ler o livro, demonstre as emoções que sente. Ria, faça comentários baixinho como se estivesse falando sozinho. Isso aguçará a curiosidade dos futuros leitores 
  • Já pensou em implantar uma biblioteca familiar? Família que lê unida permanece unida 
  • Em casa ou na escola, promova ou sugira rodas de contos literários 
  • Quem disse que a leitura só começa após a alfabetização? Fazendo dramatizações e contando histórias, é possível atrair as crianças desde cedo para os livros 
  • Que tal trocar a boneca ou o jogo eletrônico por um livro? O presente ganha importância ainda maior quando dado em datas especiais, como Natal e aniversário 
  • Para furar o cerco à internet, incentive a relação afetiva da criança com o livro. Deixe-a manuseá-lo, levá-lo para o quarto, para a sala. A relação com a leitura precisa ser tátil, afetiva e espiritual 
  • Incentive a leitura no dia-a-dia dos menores. Das placas na rua ao livro obrigatório da escola 
  • Converse sobre os gostos literários dos seus filhos. Falar sobre o assunto pode torná-lo ainda mais estimulante 

    Fonte: Instituto Brasil Leitor


  • Colaborou Renata Mariz