Pai e mãe

Carlos Vieira/CB/D.A Press
 
Inteligente, vaidoso e esperto, o pequeno Renato busca a própria história. Aparentando entre 2 e 3 anos de idade, ele foi encontrado em maio, sem roupa, chorando de fome e frio, próximo ao Setor de Chácaras do P Norte. No abrigo de Ceilândia que o acolheu, o menino se atira nos braços de quem chega, enquanto espera o seu futuro.
Em busca de uma vida

Há cinco meses ele vive em um abrigo de Ceilândia Norte. Para não ficar sem um nome, passaram a chamá-lo de Renato. Mas nada se sabe sobre as suas origens. Quem são os pais? E por que foi abandonado?


Marcelo Abreu
Da equipe do Correio

 

Carlos Vieira/CB/D.A Press

Arquivo Pessoal
Renato (D) em foto achada pela polícia: uma das prováveis pistas
 

Ele corre desembestado pelo pátio da casa. Os cabelos castanhos e bem lisos voam. As pernas curtinhas e grossas às vezes se atrapalham. Quando a porta da sala de aula abre, o miudinho corre e entra. Logo se senta num dos tapetes e vai folhear livros com figuras infantis. Interpreta o que vê e começa a contar historinhas mirabolantes que só ele entende. A professora Andréia Faria, 33, escuta com cuidado e atenção. Essa é toda a história de um menino que não tem história. Nada se sabe sobre ele. De onde veio, o que faz, quem são seus pais, irmãos, onde vivia. Ele não tinha nome. E para não ficar sem nome, assim que chegou àquele lugar, chamaram-no de Renato. Portanto, a partir de agora esta será a história de Renato, o menininho que está à procura de si mesmo. E de uma história que seja sua, exclusivamente sua. O Correio conta hoje, com exclusividade, como um menininho sem passado conseguiu encharcar de sonhos e magia aquele lugar onde as crianças que ali vivem chegam com sonhos quase sempre dilacerados. 

Há cinco meses, mais precisamente no dia 2 de maio, ele foi encontrado próximo ao Setor de Chácaras do P Norte. Vagava sozinho, de pés descalços e sem roupa. No pé esquerdo, um corte. Os cabelos compridos e desgrenhados. Não havia ninguém perto daquele menino. Ele chorava. Tremia de fome e sede. Aliás, sede e fome eram o que mais sentia. Até mais que medo. Agentes da 19ª Delegacia de Polícia (Ceilândia) foram chamados. Recolheram o menino sem história e sem passado. Levaram-no a um abrigo perto dali. A direção da instituição comunicou imediatamente a chegada dele à Vara da Infância e da Juventude (VIJ). 

Sem nome, logo lhe deram um. Chamaram-no de Renato. O menino que aparentava entre 2 e 3 anos de vida ganhou uma identidade. E marcaram com precisão a data da sua chegada: 2 de maio. Foto de Renato foi divulgada no site do S.O.S. Criança, no setor de desaparecidos. Ninguém reclamou sua falta. Não havia queixa em nenhuma delegacia do DF. Não havia ocorrência. E a conclusão: o menino não estava perdido. Havia sido, deliberadamente, abandonado. 

Policiais de Ceilândia começaram a investigar a história do menino sem história. Encontraram, no lugar que ele supostamente vivia no Setor de Chácaras do P. Norte, apenas um barraco derrubado. No meio dos restos do que um dia foi uma casa, esquecida no chão, a foto de um homem carregando o menino. Mais nada. Investigações apontam que Renato deve fazer parte de uma família de ciganos. Pelo menos, segundo informações de algumas pessoas que moram na região, ali vivia uma comunidade desse povo. Nômades, armam e desarmam barracos da noite para o dia. 

E assim Renato chegou ao abrigo em Ceilândia. Veio tímido, assustado e faminto. "A fome e a sede que ele sentia foi o que mais nos impressionou. Quando acabava a comida do prato, ele chorava muito, gritava, ficava zangado", conta a assistente social da instituição, Leiliane Morais de Carvalho Rocha, de 24 anos. Aos poucos, ele foi saciando sua fome. E se permitiu rir, como crianças felizes se permitem. Começou a ouvir seu nome e se reconhecer nele. Gostou da sonoridade. Gostou de ser a pessoa que lhe disseram que seria. 

Colo e aconchego 
Enquanto a polícia e a Vara da Infância tentam descobrir o passado de Renato, ele começa a construir seu presente, a única coisa que tem de concreto. Chama todo mundo de pai e mãe. Só não conseguiu chamar de pai o homem que aparece na foto lhe carregando. Renato viu o retrato. Não esboçou nenhuma familiaridade. Nem em relação ao homem nem à menininha que aparecem ali. Preferiu brincar. 

Carinhoso, basta ver uma pessoa desconhecida que se atira nos braços. Pede colo. Aconchega-se &agr
ave; visita e conversa. Conta histórias que só ele conhece. Conquista com o olhar sincero. Gosta de repetir o que ouve. Vira um papagaio. E fuxica, fuxica muito dos coleguinhas do abrigo. "Menino bateu em Renato", dedura. Uma das coisas que mais o faz feliz é brincar de carrinho. E folhear livrinhos infantis. Parece um intelectual. Faz até pose. E a inteligência para dinheiro espantou os olhos dos funcionários. "Ele sabe, por exemplo, que uma nota de 10 reais vale mais que uma de cinco. Entre uma e outra, ele escolhe a de maior valor. Não sei como ele sabe, mas sabe", impressiona-se a assistente social. 

O miudinho passou por uma bateria de exames médicos. Clinicamente, tudo parece normal. Exames ósseos revelarão a idade aproximada do menino. "Na nossa ficha, ele tem nome e sobrenome. Se chama Renato da Silva. E a data do nascimento é a o dia que chegou ao abrigo: 2 de maio", informa Leiliane. Mas, como toda criança, não escapou da catapora. Há três dias está com o corpo todo pintadinho. Mas nem isso o desanimou. Muito menos lhe roubou o apetite. "Ele não perde a fome por nada nesse mundo", gargalha Antônia Figueredo da Silva, de 33 anos, mãe-social do abrigo. Comovida, ele continua: "Ele me chama de mãe, me abraça toda hora. É muito carinhoso com as pessoas". 

Vaidade 
O baixinho de canela grossa gosta de se olhar no espelho. "É vaidoso que nem vendo", entrega Antônia. Nunca deixa de pentear os cabelos, hoje curtos e bem tratados. Na tarde de ontem, Renato vestia bermuda bege, camiseta e sandálias do Guga. Estava impecável. Parecia um lorde miudinho, cheio de pintas de catapora. O abrigo, sem ajuda governamental, sobrevive exclusivamente de doações de voluntários. A roupa que Renato usava ontem chegou pela caridade alheia. E o fez a criaturinha mais feliz do mundo. 

A Vara da Infância tentará, de todas as formas, localizar os pais ou os responsáveis pelo menino. "Esgotadas todas as possibilidades, ele será encaminhado à adoção", explica a assistente social. E faz uma observação importante: "Quanto mais o tempo passa, e ele ficar maior, menores serão as chances de adoção. As pessoas preferem, via de regra, crianças mais novas". Existem hoje em Brasília mais de 500 cadastrados à espera de um bebê. Enquanto o destino dele não é resolvido, Renato sonha com um mundo de faz-de-conta. Corre pelo meio da casa. Joga bola, pede colo, arregala os olhos amendoados quando o almoço é servido e dorme, como anjo, acarinhado pela mãe social. Aos poucos, começou até a sorrir. Na hora da despedida, no portão do abrigo, ele diz à equipe, com um sorriso comovente e os olhos acesos: "Vai com Deus". Foi realmente difícil ir embora.

 


memória
O menino que tinha medo do escuro

Hiram Vargas/Esp. CB/D.A Press – 9/7/06
Wesley foi localizado pela família em um abrigo da Candangolândia
 

Em julho de 2006, o Correio começou a contar a emocionante história de um menino que se chamava Tiago. Foi esse o nome que lhe deram quando chegou ao abrigo Nosso Lar, na Candangolândia. Abandonado pelo próprio pai numa rua do Riacho Fundo II, o garoto tinha 1 ano e 8 meses de vida. Chegou ali sem passado, sem história, sem futuro. Chorava, tinha medo de pessoas e do escuro. Uma única vez pronunciou o nome Tiago. Deduziram, no abrigo, que ele assim se chamaria. Brasília acompanhou a história de Tiago em capítulos diários. 

Aos poucos, o menino medroso começou a perder os medos. Deixou as pessoas se aproximarem dele. E cativou os funcionários e voluntários da instituição. Uma das voluntárias, Cláudia Vilhena, espalhou e-mails contando a história dele. Era o começo para desvendar o mistério da criança abandonada. 

A avó, a faxineira Rita Lopes, e a mãe do garoto, uma adolescente que estava separada do marido, procuravam-no desesperadamente havia meses. O mistério chegava ao fim. Tiago, na verdade, era Wesley e morava no Recanto das Emas. Em 24 de agosto de 2006, após decisão judicial, o garoto voltou para o convívio da família. Completava 2 anos e meio de vida. O pai ficou proibido de visitá-lo e respondeu pelo crime de abandono de incapaz. (MA) 

SOLIDARIEDADE 
Quem souber alguma informação sobre prováveis parentes de Renato deve ligar para a Vara da Infância — 3348-6737