A herança de Pierre

Correio Braziliense – 14/10/2008
OPINIÃO
A herança de Pierre 

Valéria de Velasco
valeriavelasco.df@diariosassociados.com.br

Espalhadas no final da tarde de ontem pela pequena cachoeira da Cidade da Paz, na Granja do Ipê, as cinzas do educador Pierre Weil formam um forte simbolismo do legado que ele deixa para o DF e o país. E do seu recado para os governos e a população. O homem que em 2003 foi indicado para o Nobel da Paz descobriu o seu caminho ainda na adolescência, quando Hitler invadiu a França. “Pediram-me para pegar em armas, que escolhesse uma metralhadora e recusei. Uma voz dentro de mim dizia: ‘Eu não quero matar’. E entrei para a Cruz Vermelha como enfermeiro”, contou, no ano passado, em entrevista aos jornalistas mineiros Daniela Borges Lima e Bruno Mourão Paiva. Ali, disse ele, “enquanto meus companheiros explodiam a ponte por onde passaria o trem nazista, fiquei devaneando, pensando em meu futuro como educador a serviço da paz”. 

Começava uma trajetória que culminou, em 1987, mais de 40 anos depois, com a opção de assumir a Fundação Cidade da Paz e a Universidade Holística Internacional de Brasília, onde plantou a sua utopia de uma humanidade sem conflitos, do desenvolvimento da cultura de paz como única possibilidade de salvação da vida no planeta. Pierre Weil tinha uma profunda crença na capacidade do povo brasileiro e em sua vocação para a paz, favorecida pela miscigenação étnica e diversidade cultural. Defendia, contra a crescente violência que resultou em 48.374 homicídios entre 1994 e 2004 — de acordo com o Ministério da Saúde —, a urgência de se adotar, no país, a educação holística para a paz. Lembrava, a todo momento, a premissa de que “a guerra nasce do espírito do homem, logo, é no seu espírito que devem ser erguidas as defesas da paz”, inscrita na criação da Unesco. 

Pierre Weil criou uma técnica pedagógica que resumia como “um método ativo em que as pessoas experimentam a paz consigo mesmas, com os outros e com a natureza — a paz do corpo, a paz do coração e a paz do espírito”. Em 2000, a Unesco difundiu o conceito de cultura de paz propondo o comprometimento com o respeito à vida, e a rejeição a qualquer tipo de violência, preconceito, discriminação ou exclusão. Pierre repassou esses ensinamentos durante 21 anos a crianças, jovens, adultos e até grupos de policiais fragilizados pelo combate à violência. O governo começou a despertar, disse o mestre, há um ano. Mas só começou. E Pierre deixou o recado: “A educação para a paz implica na educação do educador. Esse é o grande obstáculo”.