Pierre Weil, educador e psicólogo

Quase ninguém chorou no velório do educador e psicólogo francês Pierre Weil, que morreu em casa, no Lago Sul, na noite da última sexta-feira. Não que ele não fosse querido, mas porque ensinou as pessoas próximas a lidar com a “passagem” e sempre pregou o desapego como uma grande virtude. “O apego é a grande raiz do sofrimento humano”, dizia. E a maioria de seus 84 anos de vida foram dedicados à luta contra esse sofrimento. O estudioso, que abraçou Brasília como lar havia mais de duas décadas, deixou como legado uma extensa rede de busca pela paz interior e exterior. Um trabalho que será continuado por uma legião de seguidores que continuam a se despedir do mestre com uma vigília, este domingo, na sede da Universidade Internacional da Paz (Unipaz), no Park Way. Weil conquistava seus interlocutores com poucas palavras. Dizia ter como objetivo fazer brilhar a luz que ele acreditava existir dentro de cada ser humano. Pierre buscou na psicologia o conhecimento da mente e dos problemas humanos. Doutor na disciplina pela Universidade de Paris, publicou, cerca de 40 livros, entre eles A arte de viver em paz, de 1993, e Amar e ser amado, de 1979. O amor pela vida e pela paz em Weil floresceu em meio a valores totalmente diferentes. Nascido perto da fronteira com a Alemanha, sofreu as conseqüências da Segunda Guerra Mundial, durante a qual resistiu ao nazismo como voluntário na Cruz Vermelha internacional. “Quero construir pontes sobre todas as fronteiras porque o nacionalismo exacerbado é uma fonte de ódio”, declarou, anos depois, sobre o período. Disposto a colocar em prática ideais pacificadores, veio para o Brasil em 1958 e começou a dar aulas de psicologia na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Na década de 80, descobriu Brasília e, em 1987, criou, a pedido do então governador José Aparecido de Oliveira, a Unipaz, seu mais ambicioso projeto, que hoje está presente em oito estados brasileiros e outros sete países. A instituição, sem fins lucrativos, nasceu e continua mantendo sede na chácara do Ipê, no km 30 da BR-450. “A paz que nasceu numa praça militar. Aqui foi a casa do general Golbery do Couto e Silva (chefe da Casa Civil do expresidente militar Ernesto Geisel)”, informa Lídia Rebouças, participante voluntária da diretoria desde a fundação. Hoje, a Unipaz em Brasília serve de escola em tempo integral para 250 crianças de 2 a 6 anos, vítimas de violência, e oferece oficinas profissionalizantes e educativas para outros 200 estudantes de 7 a 14 anos. “Temos também formação para adultos e pós-formação para médicos, terapeutas e outros profissionais. Tudo com uma visão holística”, descreve Lídia, referindo-se a um estudo do todo para entender as partes, algo como o conceito de interdiciplinaridade, que Weil pensava havia 20 anos e hoje é aplicado nas escolas brasileiras. A morte de Pierre Weil não significa o fim de seus ideais. Iniciativas como a Unipaz serão mantidas pelos seguidores do educador, que os vinha preparando para a sua “passagem” havia 10 anos. “O que nos une é um propósito maior. Todos aprendemos com ele a fazer uma gestão participativa, integrando nossas diferenças”, relata a pro-reitora de meio ambiente da Unipaz, Regina Fittipaldi. “Temos aqui muitos guerreiros do amor e da transformação para continuar lutando e Pierre vai estar olhando por nós”, acredita ela, que simplifica os ensinamentos do mestre em uma frase: “Ele acreditava que o ser humano está neste mundo para buscar o equilíbrio próprio e com o próximo”. O professor morreu de parada cardiorespiratória por volta das 19h de sexta. Estava acompanhado da filha Viviane, médica. A outra filha, Manu, deve chegar hoje da França para acompanhar o fim do velório, que ocorre no Espaço do Silêncio, um dos seus lugares favoritos na chácara do Ipê. O corpo deve ser cremado amanhã e as cinzas espalhadas na França e em Brasília.