Fome de viver


Baiana deixa família e terra natal só para cuidar de menino órfão que é portador de HIV. Eles formam uma dupla que dá lições de cumplicidade e de esperança todos os dias


Marcelo Abreu
Da equipe do Correio

 

Fotos: Zuleika de Souza/CB/D.A Press
Almira acalenta Pedro no colo, em uma velha cadeira de madeira, em seu barraco, no Condomínio Del Lago, perto de Itapoã: pobreza material e riqueza de vida

Pedro gosta de escrever e quer ser professor quando crescer

Menino tem um periquito de estimação que chama o seu nome

Há seis anos, Pedro convive com rotina de remédios e de exames
 

Há histórias que são feitas de coragem. Outras, de compaixão. E há ainda algumas que se cercam de esperança e resistência. Lágrimas e uma gargalhada tão comovente que fazem chorar. Essa tem tudo isso: coragem, compaixão, esperança e resistência. Lágrimas e risos. E tem mais: uma vida que quer viver todos os dias. Junto com essa vida que insiste, o sonho. O menininho dessa história tem um periquito e quer ser professor. Por quê? "Porque professor é inteligente demais. Sabe ler e escrever. E sabe também fazer aula de português e matemática", ele responde. O menininho tem Aids. Nasceu HIV positivo. A mãe não fez pré-natal tampouco tomou o coquetel na gravidez. O vírus no sangue do filho foi a única herança que lhe deixou. Morreu meses depois do parto, ainda tão menina, aos 19 anos.

Órfão de pai e mãe, ainda bebê e sozinho no mundo, ele encontrou a compaixão nos braços de uma mulher que, sem ter como criá-lo, reinventou a vida — a dela e a dele. O menininho completou 6 anos em 11 de junho. Pesa 18kg e mede 1,10m. Mora num barraco miserável, no Condomínio Del Lago, expansão de Itapoã. Na escola pública onde estuda, no Paranoá, aprendeu a escrever o nome, ainda aos garranchos. Essa é a história de um menino que chamaremos de Pedro. Mas poderia ser Lucas, Mateus, João, Gabriel… Ele poderia ter o nome que quisesse. A ele, todos os direitos — de existir, viver e ser feliz, como toda criança.

Essa história começa bem longe, nos confins da Bahia, quase divisa com Pernambuco. Certo dia, num lugar chamado Pilão Arcado, cidade com pouco mais de 30 mil habitantes, apareceu uma menina. Veio sem parentes, referência, história, rumo. Sem destino. Só dizia ser do Piauí. Na cidade, a menina, então com 18 anos, engravidou. Vivia pelas ruas. Prostituía-se. Bebia, para esquecer o sofrimento e a solidão. Uma moradora da cidade, Almira da Silva Oliveira, hoje com 57 anos, cabelos grisalhos, viúva, quatro filhos, nove netos, conheceu a menina e sua barriga que começava a aparecer. "Toda a vida gostei de ajudar os outros", conta a mulher. Almira, que pelejava na roça, ajudou a menina grávida. Dava-lhe o que comer. "E dormida também", lembra a baiana.

Chegou o dia do parto. Almira foi visitar o bebê da menina por quem se afeiçoara. Assim que deixou o hospital, a jovem mãe disse: "Dona Almira, fique com meu filho. Não posso criar ele. Tenho minha vida pra seguir". E se foi, para sempre. Nos braços de Almira, ficaram o bebê e a certidão de nascimento. Meses depois, Almira recebeu a notícia de que a menina havia morrido. "Eu pensei: 'Coitada, meu Deus, só pode ter sido de tanto beber'. Não imaginava que podia ser essa doença", ela conta.

Em busca da vida
O filho que não era seu começava a adoecer. "Ele começou a vomitar e a ter muita diarréia", ela diz. Depois, vieram sucessivas gripes. Febre alta e pneumonias. Emagrecia a olhos vistos. Exames não diziam ao certo o que aquela criança tinha. Uma médica de São Paulo, que chegara à cidade, o examinou. E disse àquela mulher que havia se tornado mãe de filho não parido: "Procure um lugar para levar esse bebê. O problema dele é sério, muito grave".

Desesperada, Almira pediu ajuda na cidade inteira para a viagem. Catou e contou moedas. Despediu-se dos filhos, dos netos e embarcou num ônibus-pirata para Brasília. Nos braços da "mãe", o menino sacolejou por dois dias. Pedro completara 9 meses. Durante a viagem, ele passou muito mal. Chegou a vomitar sangue. Almira chorou. Pediu a Deus que não deixasse seu filho morrer naquela estrada.

E finalmente o ônibus chegou à Rodoviária do Paranoá. Pedro agonizava. Com a ajuda de algumas pessoas, Almira chegou ao hospital da cidade. Lá, pela primeira vez, ouviu o que jamais esqueceria. Uma médica lhe disse: "Essa criança tem Aids". Almira chorou de desespero. E desamparo. De ambulância, Pedro foi transferido ao Hospital Regional da Asa Sul (Hras). Ficou internado durante quatro meses. Chegou o dia da alta. Para onde ir com seu filho? "O povo me ajudou. Aluguei um barraco em Itapoã", responde Almira.

Um dia, a mãe levou Pedro a uma consulta. Quando voltou, o barraco inteiro havia pegado fogo. Perdeu o quase nada que tinha. Perto dali, uma amiga lhe abrigou na casa dela por uns dias. Mas na vizinhança ninguém podia saber que Pedro tinha Aids. E assim se fez. Almira viajou à Bahia. Foi vender quatro bodes, a geladeira e uma velha cama. Voltou para Brasília. &qu
ot;Aqui não falta remédio. O governo dá todo mês. Meu filho vai viver", ela promete, com esperança inabalável.

Almira entendeu que precisava comprar um lote, construir seu barraco e viver com seu filho. Juntou todas as economias (uma médica do Hras, encantada com Pedro, lhe deu R$ 300) que conseguiu na vida: R$ 3 mil. Comprou o lote. E construiu seu barraco de dois cômodos, chão de terra dura, parede no reboco e telha de amianto. Numa mesma cama, dormem mãe e filho. Falta quase tudo. Menos a vontade de viver. A velha geladeira, para conservar os remédios que ele precisa tomar, foi doação de um vizinho. Televisão, para assistir ao Homem Aranha, nunca chegou ali. Nem a bicicleta com rodinhas ("sem rodinha eu caio, tio", ele diz, envergonhado). Há dias que mãe e filho não têm o que comer. Viúva, Almira sobrevive com a pensão de R$ 300. Os vizinhos, tão carentes quanto, ajudam no que podem. "Tem dia que só dá pra ele. Eu fico sem comer, mas ele não", ela diz, com os olhos marejados.

Renascimento
Mesmo com tanto sofrimento, o espevitado Pedro ainda ri. Sentado no colo da mãe, ele confessa: "Ela é minha mãe linda". Ela o beija com ternura e devolve, comovidamente: "Ele é minha bênção. É tudo na minha vida". Almira entrou com pedido de adoção na Vara da Infância e da Juventude. "Com fé em Deus vai dar certo", torce.

Pedro está impaciente. Não vai à escola, que adora, há uma semana. Os gânglios linfáticos do pescoço estão inchados. "Ontem (terça-feira), saiu o resultado do exame da carga viral dele (CD-4, que mede a quantidade de vírus no corpo). A médica disse que tá bom. Basta ele ter repouso e comer bem", conta a mãe. Repouso? É tudo que Pedro não consegue. Brinca com seu periquito, que aprendeu a chamar seu nome. E canta, para as visitas, a música que aprendeu há pouco no colégio: "Santo anjo do Senhor, meu zeloso guardador, se a ti me confiou…"

Pede à fotógrafa para ele mesmo tirar fotos. Extasia-se com o que seus olhos e mãosinhas ágeis são capazes de fazer. Almira se encanta: "Ele é muito inteligente". Na despedida, Pedro abraça o repórter, que, àquela altura, virou "tio". E diz, no portão: "Até a próxima". Impossível não querer voltar para rever aquele menininho de olhos pretos e vivos.

De tanto acreditar em super-heróis, ele também acha que tem superpoderes. E assim desafia todo dia o inimigo que o ameaça. Com cara de gente grande, ele explica: "A Aids é uma doença que faz a pessoa tomar remédio. Eu tomo pra curar o vírus. Minha mãe disse que vou ficar bom". Há histórias que precisam ser contadas. A de Pedro, mais do que nunca. Assim como a vida que insiste todos os dias.

SOLIDARIEDADE

 

Pedro precisa de alimentos e roupas. Contato: Almira — 9662-0182. Endereço: Quadra 378, Conjunto I, Lote 41, Condomínio Del Lago