3 filhos de Ana Paula

Correio Braziliense – 27/01/2009

Valéria de Velasco
valeriavelasco.df@diariosassociados.com.br

O pequeno Guilherme, 11 anos, abre a porta do armário e mostra as bermudas e camisetas novas. “Minha mãe me levou pro shopping e comprou só roupa legal, foi na véspera de acontecer aquilo”, conta. “Aquilo” foi o brutal assassinato de Ana Paula Mendes de Moura, pelo ex-companheiro, 10 dias antes do Natal. Enquanto não retomam as aulas, Guilherme e as duas irmãs, Thaís, 16, e Brenda, 14, tentam se adaptar à nova rotina imposta pela violência que lhes roubou a mulher batalhadora que era tudo para eles — mãe e pai ao mesmo tempo, carinho, segurança, aconchego, colo e ombro.

Inconformadas com o desfecho da sequência de agressões que a mãe sofreu e denunciou exaustivamente, as duas adolescentes sonham estudar direito e se dedicar a não permitir que o algoz fique impune. Não conseguem entender como o assassino pôde circular livremente e invadir o local de trabalho da mãe após ter oito ocorrências policiais registradas contra ele. Nem como ousou agir mesmo proibido pela Justiça de chegar a menos de 200m de distância de Ana Paula. Vocês não estão sós, Brenda e Thaís. A pergunta que lhes atravessa o coração e a mente é a mesma que se fazem os milhares de brasilienses que acompanharam a tragédia.

Ana Paula foi morta em plena vigência da Lei Maria da Penha, assim batizada, em 2006, para reconhecer a luta de Maria da Penha Maia Fernandes, que ficou paraplégica após ser baleada pelo ex-marido, um professor universitário. Ela sofreu mais de uma tentativa de homicídio. Levou o caso à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA, que pressionou o Brasil — signatário da Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher — a aprovar a Lei 11.340. O que falta, então, para que a legislação cumpra seu papel? Interpretação adequada? Por que as “medidas protetivas de urgência” previstas no capítulo II não são executadas a tempo de evitar que os agressores consumam as ameaças? Por que eles não são colocados logo na cadeia?

Ana Paula era a caçula de uma família humilde de nove filhos. Ontem, antes de missa rezada para ela, uma das irmãs, Marta, falou na mulher “que trabalhava muito para sustentar a família e sorria sempre”, e fez um apelo. “A família sofre e espera que seja feita justiça. Mas nada apagará a dor.” E pediu pelos três filhos de Ana Paula. “O algoz dela certamente não pensou que os mais prejudicados seriam os filhos, que tiveram suas vidas modificadas para sempre. Por mais que se faça, nada nem ninguém substituirá a mãe. E os traumas, os problemas psicológicos, quem corrigirá? Não digam que será o tempo. Isso o tempo não apaga.”