Sinal de alerta

Não se pode negar que a "briga boa" — como Niemeyer, com bom humor, apelidou a discussão que se abriu em torno do projeto de construção da Praça da Soberania na Esplanada — teve um lado positivo. O debate, que só acabou na semana passada, despertou no brasiliense uma espécie de pertencimento e com isso acabou lançando os holofotes sobre reivindicações para o bem-estar coletivo que cada um enxergava como prioritária. Ao mesmo tempo, mostrou um lado sombrio e preocupante, nos comentários pela internet que chegaram ao jornal, a grande maioria ofensivos, grosseiros, com palavras de baixo calão, evidenciando uma absoluta falta de educação e um chocante desrespeito ao ser humano e à velhice, na contramão do momento em que o país avança em leis e medidas voltadas para a civilidade.

Curiosamente, a semana se encerrou com outra briga — mas essa, nada "boa" —, em que a internet também aparece com a sua força para abrigar lados sombrios. Antes combinadas debaixo de blocos e pelas ruas, as agressões entre adolescentes ganharam sofisticação com o progresso da informática. São anunciadas pela web, como aconteceu, segundo a polícia, na convocação dos adolescentes flagrados no Parque da Cidade na última sexta-feira, depois de quatro denúncias anônimas sobre a briga combinada para o local. Para sorte de todos, a polícia apareceu rápido e evitou o pior — que o confronto fosse adiante e resultasse em tragédia. E a imprensa cumpriu a sua função, noticiando o caso para que toda a sociedade se inteire da realidade e tome cada um a providência que lhe cabe.

Agressões de adolescentes têm raiz no tipo de educação que recebem da família. Crianças que são educadas para respeitar o próximo não saem por aí depois botando fogo em índio nem combinando briga pela internet. Se ensinarem que o certo ao ver um mendigo é oferecer um cobertor ou um prato de comida, é isso que elas vão fazer. Aprendem tudo. E a função do pai e da mãe é ensinar, acompanhar, insistir, cobrar, mostrar muito amor, zelar para ver se aprenderam mesmo. O problema da agressividade também se desdobra na escola, mas a grande maioria lava as mãos, alegando que "não tem nada a ver com brigas que ocorrem fora da área do colégio". E vai além: ganha guarita extra quando não se investe no respeito às instituições. A polícia é uma delas e tem de ser reconhecida como organização que deve alcançar a todos, independentemente da classe social ou conta bancária.

Como na "briga boa" de Niemeyer, a história do confronto entre os adolescentes também teve um lado positivo: graças às denúncias pelo 190, à ação imediata da polícia e à divulgação na imprensa, o fato serve de alerta para que os pais cuidem com rigor de seus filhos e as escolas se posicionem em relação ao problema. A omissão é uma das grandes aliadas da violência. Se as ocorrências forem jogadas para debaixo do tapete, como era comum na cidade, as agressões podem resultar em morte. Exemplos não faltam para reforçar o sinal vermelho. A maioria dos garotos enfileirados pela polícia no parque ainda não era nascida quando uma gangue assassinou meu filho, há exatos 15 anos e seis meses, na Asa Norte. Depois do crime, choveram telefonemas de mães e pais com denúncias contra a gangue. Antes, era o silêncio. Marquinho estaria comemorando 32 anos hoje.