Laços fortes Comportamentos e saúde

Laços fortes para uma vida longa

Estudo norte-americano com 3 milhões de pessoas mostra que o isolamento é tão ruim para a longevidade quanto doenças crônicas. Idosos contam como vivem bem driblando a solidão

Publicação: 14/04/2015 04:00

Raimunda Leal criou há 28 anos, na Candangolândia, um espaço para os idosos se encontrarem: %u201CSe ficassem em casa, entrariam em depressão e morreriam mais cedo%u201Dhomem

Filha de libaneses que vieram tentar a sorte no Brasil, Rafa Daher Ceva chegou à cidade goiana de Ipameri com a estrada de ferro, em 1912. Lá, formou a família e realizou o sonho de ser professora. A senhora de 102 anos ensinou o português a gerações de adolescentes do interior goiano. Hoje, recebe o carinho por onde passa. “Eu não falo de dor, não me queixo da velhice. Deus me deu coisas que nem mereço. Existem adversidades, mas é importante ver que cada fase da vida tem a sua beleza, e o que me motiva a estar viva é fazer o melhor para mim e para os outros. Ter muitas pessoas boas ao meu redor ajuda a me manter viva e em atividade”, diz.
A afirmativa de dona Rafa é constatada em um estudo científico feito com 3 milhões de pessoas e publicado recentemente na revista Perspectives on Psychological Science. Segundo os pesquisadores da Universidade Brigham Young, nos Estados Unidos, a longevidade está ligada a fatores que vão além de cuidados com a saúde física, como a prevenção de doenças crônicas. Para se ter vida longa, também é necessário construir laços familiares e de amizade fortes. Por isso, a solidão e o isolamento social são uma ameaça tão grande quanto a obesidade.
Dona Rafa conta que sempre teve a casa cheia. O marido da ex-professora de português, o engenheiro civil Cesar Augusto Ceva, começou a praticar radioamadorismo ainda no início da década de 1940. “Antes mesmo de ele ter criado a rádio Xavantes (a segunda do estado de Goiás), sempre combinávamos horários para conversar com outros radioamadores. Muitas vezes, nunca tínhamos nos visto pessoalmente. Hoje, as pessoas também conversam sem se conhecer pessoalmente, né?”, compara.
Em 1947, com o surgimento da rádio comercial, a casa do casal se encheu de artistas que vinham até a cidade para se apresentar. Estrelas como os cantores Emilinha Borda, Ivon Curi e Ruy Rei, além do presidente Juscelino Kubitschek e do escritor Malba Tahan, foram recepcionadas, conta ela. Quando o marido de dona Rafa morreu, há 25 anos, o movimento foi reduzido. “Sempre gostei de gente na minha casa, gente em volta da minha mesa, gosto de conversar, de brincar. Sempre foi assim e tive muitos almoços, jantares, mas acabou”, conta.
A centenária, porém, não se abateu. Descobriu novas formas de estar em contato com amigos e familiares. “A viuvez foi difícil, mas o tempo vai formando uma nova pessoa. Fui enfrentando coisas que acharia que não daria conta e vencendo. O importante é nunca estar sozinha”, diz a centenária, que não perde a oportunidade de visitar os parentes e de festejar, sempre acompanhada dos filhos, primos, sobrinhos e netos.
Como o cigarro
Especialistas advertem que solidão e isolamento social podem ser muito diferentes. É possível estar cercado de pessoas e ainda se sentir sozinho. Assim como optar pelo isolamento social. O efeito sobre a longevidade, no entanto, é o mesmo nos dois cenários. A falta de conexões, aponta a pesquisa da instituição norte-americana, apresenta um risco adicional à saúde, e a existência de relações proporciona um efeito positivo sobre o corpo e a mente.
Segundo a pesquisa, a solidão pode ter o mesmo efeito à longevidade quanto fumar 15 cigarros por dia e ser um alcoólatra. “Os dados cumulativos de 70 estudos independentes (…) revelam um efeito significativo acerca do isolamento social, da solidão e de quem vive sozinho sobre o risco de mortalidade. Após a contabilização das covariáveis, descobriu-se que o aumento da probabilidade de morte foi de 26% para a solidão, 29% para o isolamento social e 32% para viver sozinho”, detalha o texto divulgado na revista científica.
A gerontóloga Eloisa Adler avalia que um dos pontos mais interessantes do estudo é mostrar que existem diferentes tipos de velhice e subjetividade. “A solidão é algo psicológico e o isolamento social, algo físico. Uma coisa é certa: a convivência com outros indivíduos é importante em todos os momentos da vida”, ressalta a integrante da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG).
A frase funciona como dogma na Associação do Idoso Candango (AIC), espaço criado na Candangolândia, em 1987, para a convivência de idosos. Basta ouvir os relatos dos frequentadores do local. “Moro com seis pessoas na minha casa, mas todo mundo trabalha e eu fico só, venho aqui para me divertir”, conta Tibúrcio Costa da Mota, 87 anos.
“Minha esposa é bastante nervosa. Por isso, faz dois anos que venho aqui me descontrair”, engata João Batista, 79. Dona Francisca Borges Ferreira, 79, ficou viúva e mora sozinha. Em vez da falta de contato dentro de casa, prefere estar com os amigos da mesma idade. “Tenho cinco filhos, mas todo mundo tem suas obrigações e não pode me dar atenção sempre. Venho aqui para descontrair.”
Espaços como associações e asilos são essenciais na inserção social de idosos a uma vida ativa e saudável, mas a gerontóloga Eloisa Adler lamenta a falta de políticas públicas focadas no aumento da longevidade e no bem-estar dos idosos. Fundadora da AIC, Raimunda Leal faz a mesma observação. “Mantemos a associação aos trancos e barrancos. Desde 2008, não recebemos qualquer ajuda do governo. Hoje, há um desrespeito total com os direitos dos velhos. Aqui, recebemos muitos que, se ficassem em casa, entrariam em depressão e morreriam mais cedo.”

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  “Existem adversidades, mas é importante ver que cada fase da vida tem a sua beleza, e o que me motiva a estar viva é fazer o melhor para mim e para os outros. Ter muitas pessoas boas ao meu redor ajuda a me manter viva e em atividade”

Rafa Daher, 102 anos

Fonte:www.correiobraziliense.com.br