Violência, a epidemia

Correio Braziliense – 31/03/2009
 

Mulher destemida, a carioca Euristéia Azevedo era do tipo que não se curvava ante dificuldades. Por mais de uma década, desembarcou em Brasília um número incontável de vezes, com mães e familiares de jovens levados pela violência. Gente sofrida, que chegava à capital federal na esperança de se fazer ouvir e de alcançar a sempre distante e prometida justiça. Numa dessas vezes, Téia, como era conhecida a mulher sempre pronta a desafiar o interlocutor — fosse qualquer o tamanho da autoridade —, depôs numa audiência pública da Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado da Câmara dos Deputados, convocada para discutir o projeto de lei que criava o Fundo Nacional de Assistência às Vítimas de Crimes Violentos (Funav). Era dezembro de 2004. Dirigente da associação Mães do Rio, que reunia 305 mulheres, retratou o drama que não era só dela.

“Fui vítima da violência do Estado por duas vezes. Perdi meu filho, assassinado por policiais militares, há seis anos. Ele era sargento do Exército. O dr. Pedro Montenegro (da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência) foi duas vezes ao Rio. Estas foram as palavras que ele me disse: ‘O seu caso não vai ser resolvido, porque há a conivência de policiais civis com os matadores. Eles criaram um grupo de extermínio’. São seis anos de luta. Logo depois da morte de meu filho, no ano seguinte, perdi meu pai e, dois dias depois, meu marido enfartou e se foi também. Hoje vivo cheia de remédios. Tenho que tomar dois comprimidos de Isordil por dia, ou três, se sentir dor no peito. Nada é feito! Minha casa foi baleada. Eu estava na janela quando o assassino de meu filho passou e mandou uma bala na direção de minha cabeça. Não pegou por sorte. Peguei a cápsula e levei para a Delegacia de Homicídios. Isso foi em 2001. Nenhuma resposta obtive. Meu filho era do Exército. Eu já estive com o ministro Márcio Thomaz Bastos, saí cheia de esperanças, porque ele disse que meu caso ia ser federalizado. Depois fui informada de que não ia mais ser. É tudo muito bonito na teoria, mas na prática nada é feito.”

A dor no peito levou Téia, este mês, após mais de 10 anos de luta sem nada ser feito. A história dela mostra por que a violência, essa epidemia que está arrastando familiares de vítimas de todas as idades, virou alvo de preocupação da Organização Mundial da Saúde (OMS) e deve ser tratada como prioridade em todos os níveis do poder público e da sociedade.