Faculdade luta para sobreviver

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A única instituição de ensino superior especializada em artes do Brasil sofre com falhas administrativas e tenta se reerguer por iniciativa de grupo de trabalho. A partir de hoje, o Correio publica série de reportagens sobre brasilienses que se dedicam a preservar a cidade

» LUIZ CALCAGNO
Publicação: 14/06/2015 04:00
A instituição fica no Conic e se limita hoje a três graduações e 200 estudantes (Minervino Junior/CB/D.A Press)

A instituição fica no Conic e se limita hoje a três graduações e 200 estudantes

Atolada em dívidas após uma série de gestões desastrosas, a Faculdade de Artes Dulcina de Moraes sobrevive graças à dedicação, algumas vezes 100% voluntária, de alunos, professores e funcionários. A instituição, uma das mais importantes do teatro, com uma sala projetada por Oscar Niemeyer e um dos maiores acervos da quinta arte, foi dilapidada por uma sequência de administrações que impediram vestibulares e não prestavam contas ao Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT). Desde julho de 2013, um grupo de professores e ex-alunos, com administradores designados pelo próprio MPDFT, luta para manter as portas abertas.

Assim como a Faculdade Dulcina, existem espaços que fazem parte da história da capital federal mantidos em funcionamento apenas porque há brasilienses que lutam para preservar a identidade da cidade. A partir de hoje, o Correio publica uma série de reportagens mostrando o trabalho dessas pessoas. As dívidas da faculdade de artes, por exemplo, chegam a R$ 13 milhões. A principal estratégia para saná-las é o projeto Brasília por Dulcina (leia Para saber mais), no qual empresários locais se inscrevem para bancar bolsas de estudos no valor de R$ 764. Os beneficiados são alunos de programas sociais. Os valores arrecadados serão utilizados, principalmente, para pagar salários atrasados de professores e funcionários. Quando a instituição estiver com a situação financeira equilibrada, ficará adequada à Lei Rouanet e poderá receber recursos públicos para projetos e abrir cursos.

Na frente de batalha contra a crise, está uma ex-estudante da Faculdade Dulcina e diretora de Produção da Fundação Brasileira de Teatro (FBT), Julie Witzel. Ao lado do administrador judicial Marco Antônio Schmitt, da atriz Lyvian Sena, da diretora da instituição, Ana Cláudia Pinheiro e de outros funcionários, ela se dedica a pagar as dívidas, gerar lucro e manter a estrutura em funcionamento. Eles chegaram a tocar o estabelecimento com a eletricidade cortada por falta de pagamento. “Como aluna, eu já me envolvia com os trabalhos da instituição. A antiga administração era distante dos alunos. Em 2013, no último semestre, ficamos sem energia. Passamos por muita coisa entre 2013 e 2014. Foi muito difícil. Agora, olho para a frente, para o que precisamos de fazer hoje e amanhã”, afirma Julie.
(Minervino Junior/CB/D.A Press)

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Irregularidades
A faculdade chegou a ter mais de 2 mil alunos e 11 cursos superiores. Atualmente, resume-se a três graduações — artes cênicas, artes plásticas e música — e a cerca de 200 estudantes. A gestão consegue pagar os salários do corpo docente, apesar do atraso. Mas depende de doações de todos os tipos para manter a estrutura. “Quando começamos a luta para reverter a situação em que nos colocaram, oferecíamos espaço para artistas da cidade e, em vez de pedir dinheiro, pedíamos uma contrapartida. O que pudessem oferecer, oficina, manutenção ou material para divulgação. Mostramos que o Dulcina estava vivo e continuamos com as nossas programações”, relata Julie.

Na época do afastamento do presidente, do vice e do secretário executivo, os alunos da Dulcina, incluindo Julie, fizeram uma comissão para levantar os problemas. Eles, então, abordaram Marco Antônio Schmitt e detalharam os problemas. À época, as aulas da manhã eram dadas com a luz do sol. À noite, usavam um espaço emprestado pelo Sindicato dos Professores do DF (Sinpro). “Em 2006 e 2007, já havia irregularidades. Quando o MPDFT procurou administradores judiciais, teve dificuldades em encontrar alguém que aceitasse o desafio. Quando cheguei, não tínhamos números. A última demonstração contábil era de 2010, e os únicos funcionários que não tinham se demitido trabalhavam sem receber”, lembra Marco Antônio.

(Minervino Junior/CB/D.A Press)

image003Dama do teatro

A atriz Dulcina de Moraes inaugurou a Fundação Brasileira de Teatro em 1955 e, com ela, a faculdade de artes que leva o seu nome. O primeiro prédio, que também leva o nome da profissional, fica no centro do Rio de Janeiro. Em 1972, Dulcina trouxe a FBT para o Distrito Federal e chegou a morar nas dependências do complexo, que fica no Conic, no Setor de Diversões Sul. Ela é uma das principais responsáveis pela regularização das carreiras de ator e atriz no Brasil.

Para saber mais

Cotas e bolsas

A Fundação Brasileira de Teatro (FBT) criará 400 cotas para inclusão de novos cursos da Faculdade de Artes Dulcina de Moraes. As bolsas, no valor de R$ 764, atenderão alunos de regiões socialmente vulneráveis do Distrito Federal e do Entorno. A quantidade de benefícios é equivalente ao número de cadeiras do Teatro Dulcina de Moraes, exatamente 400. Dois administradores judiciais da FBT, dois representantes indicados pelos mantenedores, dois representantes da sociedade civil e um dos professores formarão um conselho gestor para fiscalizar os valores arrecadados. Os interessados podem entrar em contato pelos números 3322-8147, 8111-7824 e 8162-5951.

Como ajudar

A Faculdade de Artes de Brasília Dulcina de Moraes precisa de doações para dar continuidade aos trabalhos acadêmicos e artísticos no DF. A instituição precisa de produtos de limpeza, material de escritório e até mão de obra voluntária para serviços especializados. Os interessados podem entrar com contato com Julie Witzel pelo telefone 9208-9573.

“Somos parte da história do teatro”

Publicação: 14/06/2015 04:00
Responsável pela administração da Faculdade Dulcina de Moraes, a Fundação Brasileira de Teatro (FBT) presta contas para a 1ª Promotoria de Justiça de Tutela das Fundações e Entidades de Interesse Social (PJFeis), o mesmo órgão do MPDFT que pediu para a Justiça o afastamento da administração anterior. A promotora à frente dos trabalhos, Rosana Maria Queiroz Viegas, entende a importância da instituição que faz parte da história de Brasília, mas demonstra preocupação ao abordar a situação. “Ela (a faculdade) está atolada em dívidas. A situação é muito difícil”, destaca.

Segundo a promotora, a administração judicial e os funcionários da FBT estão “lutando ao máximo” para reestruturar a faculdade sem perder parte do patrimônio. “Os administradores trabalham para normalizar a situação financeira. Assim que a instituição estiver adimplente, poderá receber verba pública e novos administradores assumirão o local.” Rosana também comentou o boato de que a antiga administração estaria interessada em vender o prédio e, assim, desestabilizou as finanças da Faculdade Dulcina. “Os boatos não foram comprovados. Houve uma péssima administração e é isso que estamos apurando. Os administradores estão fechando o balanço anterior. Só depois poderemos dizer se houve dolo ou culpa”, explica.

A diretora Ana Cláudia assumiu o cargo no ano passado. Segundo ela, o trabalho de reestruturação é complexo e delicado. “Temos de retomar todos os processos acadêmicos e administrativos suspensos por muito tempo. Estamos fazendo esse trabalho de forma minuciosa. Na última avaliação que fizemos, os alunos consideraram os professores de muita competência. Estamos fazendo mostras, temos projetos interessantes para o segundo semestre, inclusive de retomar os cursos de extensão e pós-graduação”, destaca.

O professor de teatro Túlio Guimarães está na instituição de artes desde 1981. Ele conta que enfrentou várias crises. “O MPDFT é a nossa última esperança. Somos a única faculdade exclusivamente de artes no Brasil. Temos pessoas interessadas em investirem no local, mas, para isso, precisamos estar adimplentes. Nós contamos e somos parte da história do teatro brasileiro no século 20, um patrimônio de Brasília”,conclui.