Recomeçar é preciso

Há cinco anos, Brasília se comoveu com o drama de casal que perdeu os dois filhos em um acidente. Apesar da dor, eles reescreveram a própria história. Hoje, são pais de Mateus e aguardam a chegada do irmão dele para domingo.

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» ROBERTA PINHEIRO
Publicação: 18/06/2015 04:00
Vyviane Moraes, com Mateus, de 3 anos, a poucos dias de dar à luz Marcos Junior:

Vyviane Moraes, com Mateus, de 3 anos, a poucos dias de dar à luz Marcos Junior: “Será comovente ver os dois juntos”

A recepção na casa de Vyviane e Marcos é feita pelo pequeno Mateus, 3 anos. Correndo pelo apartamento, na Asa Norte, o menino chega procurando um amigo para jogar bola. “Você que vai brincar comigo?”, pergunta. Fascinado por literatura e filmes infantis, ele dá nome de personagens para todos. Recriou, principalmente, a história da família. O nascimento dele veio para representar o recomeço da vida. Há pouco tempo, ele descobriu o que estava guardado nos álbuns de foto no fundo do baú. “O João era o feliz; o Pedro, o zangado; eu, o dengoso; e o Marcos Junior, não sei”, diz Mateus. Marcos Junior foi o nome que ele escolheu para o irmão que nascerá neste domingo. Agora, a criança não vê a hora de escrever, com o novo companheiro, capítulos recheados de futebol e outras brincadeiras.

O bancário Marcos Campos Moraes, 44 anos, e a professora Vyviane Marques Arantes Campos Moraes, 39, foram os protagonistas de uma tragédia que comoveu os brasilienses. Em dezembro de 2010, a caminho da casa dos familiares em Rio Verde (GO), o casal sofreu um grave acidente na estrada. Uma ultrapassagem arriscada e proibida na BR-060, km 179, zona rural de Abadia de Goiás, feita por um outro veículo, espatifou o carro da família. Tirou a vida dos dois filhos, João Marcos, 7 anos, e Pedro Lucas, 3, e deixou pai e mãe gravemente feridos. Cinco anos depois, é impossível não se emocionar ao lembrar o riso fácil do mais velho e o jeito mais tímido do filho mais novo. Foram anos duros. No entanto, Mateus recriou essa história e, hoje, o bebê que Vyviane carrega na barriga vem para fortalecer os laços de amor.

“Sempre planejamos ter uma família grande. Não aguento ficar sem ser mãe e não quero que ele (Mateus) fique sozinho”, esclarece Vyviane. Nessa tomada de decisão, o médico Ciro Borges Júnior foi fundamental. Ele incentivou o casal e até arriscou a dizer que o novo bebê seria uma menina (leia depoimento). Como em toda gravidez, a mãe prepara cada detalhe com muito capricho. O quarto de Marcos Júnior já está pronto. “Como antes, quero que os dois durmam no mesmo cômodo para desde cedo aprenderem a dividir”, justifica. Na parede azul-clara, ficam os animais do bebê. Do outro lado do quarto, a cama em formato de carro e os personagens da Liga da Justiça de Mateus. Como não poderia faltar, ele já definiu que é o Homem de Ferro e o irmão, o Homem-Aranha.

Na sala de estar, as lembrancinhas vão aos poucos ganhando forma com a ajuda das amigas. São lápis com cavalos na ponta, cavalos de tecido com papel de recado para a geladeira e um caderno de mensagens. “Escolhi o animal para lembrar a fazenda, o interior de Góias, de onde viemos (ela e Marcos)”, conta Vyviane. Mesmo com a barriga já pesando, ela não deixa de lado os mimos. Enquando domingo não chega, a mãe vai concluir o albúm de fotos de Marcos Junior e produzir bilhetes para os vizinhos avisando que um novo integrante do condomínio está para chegar e quer visitas.
O trabalho manual e cuidadoso com papéis, cartolina, fitas e cores ocupou a cabeça da professora quando a dor e a saudade deixaram um vazio na casa e, principalmente, no coração. “O primeiro ano foi muito difíci. Sentia falta do barulho. Fazia questão de não ficar em casa”, relembra. O Mateus veio fortalecer a família e desde pequeno grudou na mãe — “a Alice”, como o menino definiu a mãe, depois de ver Alice no país das maravilhas. “Ele preencheu nossas vidas. É sempre muito feliz e muito carinhoso. Para nós, ele representa um recomeço e a oportunidade de sermos pais de novo. O Marcos Junior virá como um sinal desse amor de irmãos”, afirma Vyviane.

Ao contrário de Mateus, que emocionou Vyviane ao falar “mãe” pela primeira vez, ela acredita que o recém-nascido vai comovê-la de outra forma: será a chance de ver os filhos brincando e crescendo juntos. “Acho bonita essa relação. Claro que todo esse processo de dois filhos me lembra o que passei com o João e o Pedro e isso machuca, mas, ao mesmo tempo, é o que me toca e me emociona”, comenta Vyviane, com os olhos cheios de lágrimas. Na época do acidente, ela se desfez dos pertences dos filhos. Os álbuns com as fotografias dos primeiros anos estão até hoje guardados. Foi Mateus que reencontrou uma moto e uma bicicleta e deu um novo ar para os brinquedos. “Quero ensinar o Marcos Junior a jogar bola e andar de moto”, diz o menino.

Com o tempo, Vyviane e Marcos aprenderam a viver uma etapa e um dia de cada vez. A dor diminuiu ou, ao menos, ficou guardada em uma caixa. A saudade, por outro lado, cresce muito. Mas, como a frase escrita no porta-retrato que reúne a foto dos três filhos, “a vida segue em frente ou, então, ‘enfrente’”. O casal enfrentou a perda e hoje comemora o início de uma nova vida. Mateus trouxe o carinho e alegria; agora, ele espera a chegada do companheiro de futebol. “E nunca se esqueça, a mamãe te ama”, diz o aviso na porta do quarto dos meninos.

Justiça

Apesar do recomeço, o casal ainda não pôde colocar um ponto final na história que marcou a vida da família. De acordo com o promotor de justiça Marcelo Franco, do Ministério Público de Góias, o processo se encaminha para a fase final. “O réu foi denunciado, pelo MP, por homicídio doloso (dolo eventual), a defesa alega homicídio culposo. Falta apenas, em princípio, o interrogatório do réu, então a Justiça decidirá se o homicídio é culposo ou mesmo doloso”, explica. O engenheiro ambiental Fabrício Camargos Cunha Rodovalho dirigia a picape Saveiro, que acertou o carro da família Campos Moraes. No entanto, Marcos conta que foi sugerido à família apresentar um terceiro laudo do fato.

Depoimento

Dr. Ciro Borges Junior, ginecologista e obstetra

“Quando ela sofreu o acidente foi um momento muito triste para todos nós. Passei todo o meu fim de ano pensando no que eu poderia fazer para ajudar essa família. Quando, em janeiro, retornei de férias, encontrei a Vyviane ainda com sequelas do acidente e muito debilitada. Falei com ela logo na primeira consulta que o amor que move o mundo é o amor de um pai/mãe para um filho. É esse amor que faz com que a vida tenha sentido e faz a gente dar bons exemplos. Por isso, eles teriam que ter outros filhos para que a vida voltasse a ter sentido; não que um novo bebê fosse ocupar o lugar dos irmãos, mas eles precisavam continuar vivendo. O Marcos me falou nessa consulta que, mesmo sofrendo muito, ele ainda agradecia a Deus por ter dado a ele a oportunidade de ter sido pai mesmo que por pouco tempo. Hoje, quando eles vão à consulta e vejo o Mateus vestido de Capitão América, sinto o quanto eles estão felizes novamente. Fico muito realizado por fazer parte nessa história. Agora, vai chegar o Marcos Junior e será mais uma enorme alegria. No futuro próximo, ainda chegará a Maria Luiza. A Vyviane e o Marcos precisam continuar dando esse exemplo e que Deus esteja sempre ao lado deles.”