Uma década de impunidade

Familiares de veterinário assassinado em agosto de 2005 convivem com o medo e a injustiça, pois só um dos três envolvidos no crime está preso. Uma missa será celebrada no dia 6

» PALOMA SUERTEGARAY
Publicação: 29/07/2015 04:00
(Jose Varella/CB/D.A Press – 7/8/08)

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“É uma dor eterna. Com o tempo, a gente aprende a conviver com ela, mas está sempre presente.” Iêda Vale Fonseca, 62 anos, resume dessa forma a perda do filho, o veterinário Rodrigo Vale Fonseca, 28 anos. Ele voltava para casa de carro com a namorada e um amigo, na madrugada de 6 de agosto de 2005, quando o grupo foi abordado por assaltantes, na Asa Sul. Os bandidos levaram as vítimas para um local ermo na DF-001, amarraram os rapazes e tentaram estuprar a moça. Rodrigo conseguiu se soltar e impedir o abuso, mas foi assassinado com três tiros. Dez anos depois, só um dos três criminosos está preso. Mesmo com medo, os familiares celebram, no próximo dia 6, uma missa para Rodrigo, na Paróquia Nossa Senhora Guadalupe, na 312 Sul.

No sábado do assassinato, ele e a namorada, de 25 anos, tinham ido a uma pizzaria com o amigo Guilherme Guedes Alvarenga, da mesma idade. Por volta das 3h, quando deixavam o colega em casa, na 713 Sul, os jovens foram rendidos por dois homens armados com um revólver calibre 38. A dupla entrou no Gol que Rodrigo dirigia. Um terceiro seguia o grupo em outro veículo, de modelo desconhecido. Em nenhum momento pediram cartões de banco ou senhas ao grupo. Nos bolsos, as três vítimas só tinham R$ 40, entregues aos criminosos.

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O veterinário era apaixonado por animais e pelo rock do Iron Maiden

Bandidos e reféns seguiram para o Pistão Sul, em Taguatinga, onde trocaram de carro e se dividiram. Um dos assaltantes ficou sozinho com os jovens e dirigiu até o Km 90 da DF-001, próximo a Brazlândia. Os demais criminosos os seguiram. Visivelmente embriagado ou drogado, o homem amarrou Rodrigo e Guilherme, voltou ao carro e arrancou a roupa da moça. O veterinário se soltou e investiu contra o assaltante. Foi morto. O bandido também atirou em Guilherme, no braço, antes de fugir com os comparsas.

No momento do crime, a mãe de Rodrigo dormia no apartamento da família, na Asa Sul. “Para nós, ele nunca morreu, continua vivo em nossos corações”, afirma Iêda. Um dia após a morte do jovem, o corpo dele foi cremado, como desejava. As cinzas foram depositadas embaixo de um jacarandá de 3m de altura, na fazenda da família, em Catalão. A árvore tinha sido plantada pelo veterinário, quatro anos antes. As córneas do rapaz foram doadas.

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Francisco matou Rodrigo. Foi condenado pela Justiça, mas fugiu

Formado em veterinária no fim de 2004, Rodrigo era apaixonado pela natureza. Amava pescar e tinha o sonho de deixar a cidade grande para morar na fazenda. “Ele sempre dizia que desejava trabalhar com animais de grande porte. Queria ter três filhos e seis cachorros: três pequenos, para as crianças; e três maiores, para ele”, conta Iêda. Para a irmã do jovem, a publicitária Veruschka Fonseca, 43 anos, uma das lembranças mais fortes era a paixão de Rodrigo pelo rock. “Ele adorava Iron Maiden. Depois que o meu irmão morreu, eu e a minha mãe fomos a um show da banda como forma de lembrá-lo”, relata.

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O irmão, Marinho, é suspeito de tentar violentar a namorada

Rodrigo e a companheira eram colegas no curso de veterinária. Eles se conheceram no início da faculdade e começaram a namorar logo depois. “Até hoje, pensar sobre o que aconteceu me comove e me traz lembranças fortes. Ele que me defendeu durante o assalto. Sempre que penso no Rodrigo, faço uma oração por ele”, diz ela. Lidar com o trauma, depois do crime, exigiu muita coragem. “Tinha medo de ficar sozinha, de sair à noite. Não conseguiria morar em Brasília depois daquilo, então, voltei para Minas Gerais, onde nasci”, conta a veterinária, casada e mãe de um menino de 5 anos.

Irmãos estão foragidos

O irmão, Marinho, é suspeito de tentar violentar a namorada

Rodrigo e a companheira eram colegas no curso de veterinária. Eles se conheceram no início da faculdade e começaram a namorar logo depois. “Até hoje, pensar sobre o que aconteceu me comove e me traz lembranças fortes. Ele que me defendeu durante o assalto. Sempre que penso no Rodrigo, faço uma oração por ele”, diz ela. Lidar com o trauma, depois do crime, exigiu muita coragem. “Tinha medo de ficar sozinha, de sair à noite. Não conseguiria morar em Brasília depois daquilo, então, voltei para Minas Gerais, onde nasci”, conta a veterinária, casada e mãe de um menino de 5 anos.

Irmãos estão foragidos

Publicação: 29/07/2015 04:00
A 17ª Delegacia de Polícia (Taguatinga Norte) investigou o assassinato de Rodrigo Vale Fonseca. Segundo informações da Polícia Civil, o inquérito foi concluído em dezembro de 2006 e encaminhado à 2ª Vara Criminal de Taguatinga. Os três autores foram identificados: Genilson Alves de Souza, hoje de 43 anos, e os irmãos Francisco, 45, e Marinho Crisóstomo Barbosa, 59.

Genilson — que dirigiu o carro de Rodrigo — foi detido cerca de 1 ano e 6 meses depois do crime. Acabou condenado a 24 anos de cadeia, mas a pena foi diminuída para 20 anos, após recurso. Ele se encontra no Complexo Penitenciário da Papuda.

Condicional
Francisco, responsável pelos disparos contra o veterinário, também chegou a ser preso. Ele respondia por outro homicídio e estava em liberdade condicional quando assassinou a vítima. O Correio apurou que Francisco foi identificado na fila de visitação da Papuda, seis meses após a prisão de Genilson. Não se sabe se tentou se encontrar com o comparsa. A Justiça o condenou a 31 anos de prisão, mas ele fugiu. Continua foragido até hoje. O irmão dele, Marinho, responde pelo roubo e pela tentativa de estupro. No entanto, como nunca foi localizado, não chegou a ser condenado.