Falta insulina na rede pública

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Medicamento vital para os diabéticos está em falta e sem previsão de entrega. Enquanto isso, os pacientes são obrigados a interromper ou modificar o tratamento custeado integralmente pelo Sistema Único de Saúde (SUS)

OTÁVIO AUGUSTO
Publicação: 19/09/2015 04:00
Sérgio Lunetta reclama do sumiço das fitas glicêmicas: 15 dias à procura nos hospitais da rede (Carlos Moura/CB/D.A Press – 18/9/15)

Sérgio Lunetta reclama do sumiço das fitas glicêmicas: 15 dias à procura nos hospitais da redeO desabastecimento na rede pública de saúde coloca em risco os diabéticos. Há um mês, esses pacientes não encontram nas farmácias do governo insulina e fitas medidoras. Cada ampola de 3ml do medicamento custa R$ 120. O preço de uma caixa de fitas com 100 unidades chega a R$ 130. A compra desse material é custeada pelo Ministério da Saúde, por meio do Sistema Único de Saúde (SUS). O Executivo local garantiu que o processo para adquirir uma remessa do produto está em fase final.

Cerca de 4 mil pacientes com diabetes tipos 1 e 2, além da gestacional, recebem a insulina pelo governo. No Distrito Federal, 5,8% da população, 118 mil adultos, são diabéticos, segundo o Ministério da Saúde. Há 10 anos portadora do tipo 2, a enfermeira Maria Elisa (nome fictício), 46 anos, interrompeu o tratamento pela primeira vez. Assim que os sinais de complicações apareceram pela falta do remédio, o médico decidiu trocar a insulina utilizada pela moradora da Asa Sul. “É uma doença crônica para a qual o medicamento é vital. Ainda não troquei porque acho arriscado”, conta. Nos últimos 30 dias, ela telefona diariamente para a Farmácia Escola da Universidade de Brasília (UnB), onde retira o medicamento. “Fica mais caro para o governo tratar uma pessoa em um pronto-socorro por uma complicação do que fornecer o tratamento”, avalia.
A limitação na distribuição das fitas glicêmicas também deixa os pacientes preocupados. O acompanhamento diário da taxa de glicose garante o domínio sobre o índice e, dessa forma, não é necessário utilizar insulina. Porém, com os estoques em baixa, a Secretaria de Saúde mudou o modelo de distribuição. Agora, apenas quem recebe o medicamento tem acesso às fitas — anteriormente, elas eram distribuídas também para aqueles que apenas faziam o acompanhamento.Há quatro anos, após um princípio de diabetes, o aposentado Sérgio Lunetta, 76, mede a oscilação do nível glicêmico. “A medição evita o uso do medicamento. O governo está obrigando as pessoas a ficarem doentes, sendo que nem remédio para o tratamento têm. Nessa hora, vale o antigo ditado de que é melhor prevenir do que remediar”, diz o morador de Águas Claras. A peregrinação dura 15 dias. Nas últimas semanas, ele tentou pelo menos três vezes retirar as fitas no Posto de Saúde Nº 7, em Taguatinga. “A informação é de que não tem e não há previsão para a disponibilidade.”

Processo de compra

Combater a falta de planejamento e de conhecimento da demanda é apontado pelo especialista em saúde pública Vitor Gomes Pinto como o principal desafio do GDF. “Isso é de extrema irresponsabilidade. A autoridade responsável pela compra deve ser cobrada. O governante tem de resolver os problemas, não deixar as pessoas morrerem”, alerta. Ele destaca, ainda, que não há justificativas para a falha no fornecimento. “Não tem como se negar a providenciar, é maldade”, pontua.

As falhas também são criticadas por Nádia Almeida Silva, especialista em diabetes. “É arriscado trocar o medicamento, pois cada um tem uma ação diferente na absorção. O problema são os picos negativos e as altas repentinas”, explica. No caso da insulina Lantus, o tempo de ação é de 24h consecutivas, referente a uma aplicação diária. O tratamento com o remédio similar exige um cálculo específico e obriga o aumento do uso. “O recálculo da dose pode causar reações e, como não tem a fita, não é possível saber a quantidade em cada aplicação”, ressalta Nádia.

O Ministério da Saúde informou, em nota, que o estoque de insulina entregue ao DF em agosto encontra-se regular, com previsão de nova entrega em outubro. “A responsabilidade de aquisição e financiamento desses medicamentos é do Ministério da Saúde, que repassa às secretarias de Saúde. É de responsabilidade dos gestores locais o armazenamento, a manutenção e a distribuição”, frisa o texto. A Secretaria de Saúde informou, em nota, que, desde o início do ano, trabalha para reabastecer a rede pública.“Todos os medicamentos em falta estão com processo de compra em andamento ou finalizados”, garante o texto. Sobre a as fitas glicêmicas, a pasta esclareceu que a medida é válida até a recomposição do estoque. Não há previsão oficial para a normalização do serviço.
Problema recorrente
Em março, o Correio mostrou que três medicamentos para o controle da diabetes estavam em falta na rede pública. Na época, a Insulina Glargina Solução Injetável, a Metformina e a Insulina Ultrarrápida estavam com o estoque zerado. O GDF precisou de dois meses para reabastecer a rede. A crise econômica foi apontada pelo Executivo local como o fator que desencadeou a baixa. Depois, a Secretaria de Saúde disse que havia comprado os medicamentos, mas que eles não foram entregues.

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