Moradores reconstroem parque

Sem ajuda do governo e inconformados com a situação dos brinquedos, residentes da 304 Norte se reúnem e bancam reforma do espaço.

 image001

Camila Curado

O servidor público Érico Moreira esperou três anos, desde o nascimento da filha Mariana, para ter acesso a um parquinho (Jhonatan Vieira/Esp. CB/D.A Press
O servidor público Érico Moreira esperou três anos, desde o nascimento da filha Mariana, para ter acesso a um parquinho Infraestrutura precária e manutenção insuficiente do parque infantil da 304 Norte, sob responsabilidade do GDF, afastava o público-alvo do espaço. Para as crianças que queriam sair de casa, restava brincar embaixo do bloco ou em parques de quadras próximas. Na ausência de um prefeito comunitário, moradores se reuniram para revitalizar o local. Após meses de planejamento, o parquinho começou a ser utilizado há cerca de um mês e será inaugurado hoje, às 8h. O evento conta com piquenique, aulas de ioga e atividades recreativas.

A ideia começou a ser posta em prática pela bancária Paula Valente Braga Ferreira, 31 anos, em maio de 2015, após três meses vivendo no local. “Eu descia com a minha filha, encontrava os vizinhos e todos reclamavam da estrutura do espaço”, conta. Ela, ao lado do pai, o aposentado Paulo Afonso Braga, 60, distribuiu panfletos pelos oito blocos para saber quais e quantos moradores apoiariam a iniciativa. Recolheu cerca de 40 respostas positivas e, então, criou um grupo no WhatsApp. De setembro a dezembro, organizavam ao menos duas reuniões por semana. Nesse intervalo, Paula conta que o pai participou de diversas reuniões com representantes do GDF para pedir apoio. Segundo ela, eles apareceram na quadra para conversar com os moradores, explicaram que estavam sem condições de fazer a reforma. Para não ficarem de braços cruzados, mandaram aplanar o terreno.

Antes, a professora Vyviane Campos Moraes, 40, relata que os brinquedos eram feitos de madeira, tinham pregos soltos e alguns estavam quebrados. Além da estrutura precária, o ambiente não favorecia as brincadeiras. Mãe de Mateus, 3, e Marcos Júnior, 7 meses, ela conta que o local era reduto de usuários de drogas e de moradores de rua. “Não vinham crianças por causa dos perigos”, explica. Ela, que vive na quadra há seis anos, disse que viu o GDF fazer manutenção no espaço poucas vezes. Mesmo assim, não era suficiente para atrair moradores. A situação mudou agora, em janeiro. “Depois dessa reforma no parquinho, conheci grande parte dos moradores. Vizinhos que não se viam e não se falavam e agora se encontram para atividades aqui”, diz.

Há três anos na 304 Norte, a servidora pública Bianca Godoy, 36, grávida de seis meses de Felipe, diz que chegou a pensar em se mudar da quadra. O filho Henrique, 1 ano, já não aproveitava o espaço e, agora, com duas crianças, queria estar próxima de um lugar para recreação infantil. Com a reforma, mudou de ideia. “Agora, vejo essa quantidade de crianças e me pergunto onde eles estavam antes”, questiona. A prática de arrecadar fundos entre vizinhos para reformar espaços públicos não é tão incomum. Prova disso é que Paula trouxe a ideia da 212 Norte, onde morava. Segundo ela, o parquinho de lá também estava em más condições e os moradores se uniram para revitalizá-lo. O próximo passo é buscar patrocínio para expandir o local e construir alambrados maiores.

Acessibilidade

Além de brinquedos mais seguros e modernos, o parque foi pensado para ser acessível a pessoas com deficiência. Pela primeira vez em três anos de vida da filha Mariana, o servidor público Érico Moreira Vasconcelos, 48 anos, entra em um parquinho com a pequena. Ele conta que, por conta da cadeira de rodas, só podia levá-la para brincar acompanhado da mulher e, mesmo assim, tinha de ficar do lado de fora. Agora, os dois aproveitavam juntos. “É bom poder brincar com o papai, não é?”, diz para Mariana, que balança a cabeça positivamente com um sorriso no rosto. “Agora, tenho a possibilidade de estar igual a todo mundo. O sentimento de frustração acabou”, comenta Érico. Ele ganhou uma cópia da chave da entrada com acessibilidade, para ir quando quiser.

Apesar dos impostos mensais pagos ao governo para garantir a conservação de espaços públicos, os colaboradores da 304 Norte tiveram de desembolsar R$ 750 cada para a reconstrução do parque. Foram cerca de 50 doações, entre moradores e patrocinadores, para cobrir o valor da revitalização do local, orçado em R$ 35 mil. Segundo a Secretaria de Infraestrutura e Serviços Públicos (Sinesp), há um processo licitatório em andamento para a manutenção do parque, mas sem data para ser efetuado. A Sinesp aguarda a aprovação de projeto para a compra de novos kits de parquinhos e brinquedos avulsos no valor de R$ 22 milhões. Atualmente, a secretaria afirma que, na Asa Norte, faz “pequenos reparos” na quadra poliesportiva 713 e no parque, no campo de futebol de areia e no kit de malhação da 206.

Vyviane acredita que o modelo criado na 304 Norte é um exemplo a ser seguido, mas que ainda precisa de ajuda estatal: “Tanto o governo poderia ajudar mais como a comunidade poderia se mobilizar mais para criar, transformar e depois continuar a manter um espaço que integre a todos”, opina. Érico sentiu mudanças no cotidiano da vida dele e da filha. Satisfeito em poder acompanhar a menina dentro do parque, ele faz um apelo: “Essa iniciativa devia expandir e ser governamental. Deviam fazer os parques e lembrar da acessibilidade”. De acordo com ele, em nenhuma das áreas de lazer de quadras próximas em que levou a filha para brincar havia a possibilidade de estar com a pequena.