Da sucata à música

O músico Julio Vasconcelos transforma latas, canos e garrafas em instrumentos musicais e ferramentas de ensino.
» ALESSANDRA AZEVEDO
Especial para o Correio
image001 (3)“Na época em que trabalhava na noite, eu sempre ia embora com um vazio, porque as pessoas não iam para ouvir música, mas para passear, comer e beber. O som ficava de lado, morria lá mesmo”

Julio Vasconcelos, músico

Aos olhos do músico Julio Vasconcelos, 48 anos, latas de metal, garrafas PET, canos de PVC e tubos de plástico não são lixo. Quando se depara com esses objetos, ele vê flautas em potencial, chocalhos e tambores por nascerem e dezenas de músicas que ainda serão compostas. Logo cedo, aos 12 anos, quando ganhou um gravador de presente, ele percebeu a magia de juntar esses materiais e elaborar instrumentos alternativos. Fazer sons novos e diferentes se tornou a brincadeira preferida de Julio, que não precisava de glamour para se divertir: copos da cozinha de casa, latas que iam para o lixo e a própria voz eram suficientes para prender a atenção e garantir bons momentos com o gravador na mão.

Conforme o interesse por instrumentos alternativos se expandia com o passar dos anos, ele percebeu que não era apenas uma brincadeira de criança. Ao juntar criatividade e algumas notas musicais, Julio transformou o que seria lixo em música, e ela, em profissão.

Quando resolveu ingressar na carreira, o importante, para ele, era que o som tivesse algum valor social. Com esse objetivo em mente, migrou dos bares, nos quais tocou violão durante mais de uma década, para as escolas. “Na época em que trabalhava na noite, eu sempre ia embora com um vazio, porque as pessoas não iam para ouvir música, mas para passear, comer e beber. O som ficava de lado, morria lá mesmo”, lembra. Foi em 2000 que ele identificou a solução: precisava aliar elementos educativos para dar sentido ao trabalho.

Começou, então, a fazer apresentações, contar histórias e montar oficinas nas escolas públicas. Aos 33 anos, passou a ensinar as crianças de até 8 a elaborarem os próprios instrumentos. Não teve do que reclamar da recepção nos colégios. “Crianças têm o coração aberto. As escolas não só aceitam, como pedem para a gente ir”, comenta Julio.

Voltaram à atividade os sons alternativos. Criados com as próprias mãos, os instrumentos, como o “baixo de gaveta” — confeccionado, de fato, com uma gaveta de madeira — e a flauta montada com cano de PVC, se tornaram ferramentas de ensino. Confeccionar os instrumentos é uma tarefa tão simples quanto atrair a atenção das crianças, que ficam fascinadas ao perceberem que objetos comuns, como um canudinho, podem fazer sons diferentes.

Educativo
Foram esses, inclusive, alguns dos instrumentos usados na gravação das 13 faixas do CD As crianças e a natureza, lançado em outubro do ano passado, em parceria com a mulher, Tânia Magalhães, 53. “Exceto o ukelele e o violão, todos os sons tiveram origem na sucata”, orgulha-se Julio. As faixas, com letras simples e contagiantes, tratam de temas como meio ambiente e respeito ao próximo. “Além de divertir, os pequenos repetem e entendem a mensagem melhor que os adultos. Eles pegam o recado”, garante Tânia, que dá aula de pintura para crianças. O projeto venceu um edital do Fundo de Apoio à Cultura (FAC).

A música mais conhecida do álbum é Por favor, não jogue o lixo no chão, que já começa bem logo no título “ensinando a falar a palavra mágica, que é muito esquecida hoje em dia”, brinca Tânia. “A criança, quando ouve que um comportamento é falta de educação, começa a se questionar, introduz no comportamento e passa a cobrar isso dos outros”, explica a artista, que fez a capa do CD com lápis de cor e ajudou na composição da maioria das músicas.

A longo prazo, o objetivo do casal é formar adultos mais conscientes e sensíveis com as necessidades deles, dos outros e do planeta. Para isso se tornar realidade, é preciso começar com os mais jovens. “Percebemos que o foco de tudo está nas escolas. Para germinar a semente, teríamos que trabalhar nelas, não como professores, mas com algo alternativo, que desse a chance para a criança perceber que existem outra formas de cuidar do planeta e de si mesma”, explica Tânia.