Risco de microcefalia causada pelo vírus da zika é de 1%, diz estudo

GABRIEL ALVES
DE SÃO PAULO
15/03/2016 20h30

Qual é a chance de uma mulher grávida que foi infectada pelo vírus da zika ter um bebê com microcefalia? A resposta começou a ganhar contornos reais com a publicação de um estudo na noite desta terça (15) na revista médica inglesa “Lancet”.
Pesquisadores investigaram o surto que aconteceu na Polinésia Francesa entre outubro de 2013 e abril de 2014, no qual 66% da população teve a infecção.

Pelas contas dos pesquisadores, 95 a cada 10 mil mulheres infectadas no primeiro trimestre da gestação teriam um bebê com microcefalia -arredondando, o número fica na casa de 1%.

Outras más-formações sabidamente associadas ao vírus, como calcificações e degeneração ocular, não foram consideradas na análise.

Dos oito casos de microcefalia encontrados, cinco terminaram com abortos (na França e em seus territórios a prática é permitida no caso de doenças incuráveis). O perímetro cefálico, critério diagnóstico para a má-formação, foi avaliado durante um ultrassom no segundo trimestre.

SURTO BRASILEIRO
No final de 2015, quando houve grande aumento de casos de bebês microcefálicos no Brasil, a França disse desconhecer a relação do fenômeno como vírus da zika, mesmo tendo havido um surto na Polinésia. O motivo: os abortos afastaram a relação para longe do radar.

Após fazer uma busca mais cuidadosa, foi possível concluir que o risco de 1% de microcefalia no caso de uma infecção de uma grávida pelo vírus da zika.

Para chegar à conclusão –feita a partir de um modelo matemático–, os cientistas tiveram de fazer algumas assunções, como: 1) todos os casos de microcefalias foram identificados; 2) o número de infecções pelo vírus é proporcional aos casos suspeitos no mesmo período e 3) a proporção de mulheres férteis infectadas é similar à de crianças soropositivas.

Um dos motivos de os cientistas acreditarem na conta é a população pequena, na casa dos 270 mil habitantes espalhadas por arquipélagos e ilhas. Outro é que a Polinésia Francesa possui estatísticas e protocolos de saúde pública semelhantes ao da França –ou seja, confiáveis.

Para o Brasil, o modelo não poderá ser aplicado diretamente. Uma das peculiaridades de cada local é a variável “taxa de ataque” (razão entre infectados e população exposta ao vírus).

Nas contas oficiais esse número ficou em 66% na Polinésia e em 72% na ilha de Yap, na micronésia. No Brasil, ele já foi estimado em 10%, mas sabidamente o número pode variar em locais e circunstâncias distintos.

“Pelo fato de ele ainda estar em curso, ainda há muitas incertezas no surto brasileiro, por exemplo a respeito do número exato de microcefalias ou do número de infecções por zika”, disse à Folha o principal autor do estudo Simon Cauchemez, do Instituto Pasteur (França).

“Devemos tomar muito cuidado para não extrapolar os dados. Com o que temos, a experiência da Polinésia Francesa pode ser útil como ponto de comparação”.

Para o virologista e professor da Faculdade de Medicina de Rio Preto Maurício Nogueira, a estimativa serve para tranquilizar as grávidas. O risco de 1% seria relativamente baixo. A realidade de alguns Estados do país se mostra bem mais grave, porém.

Em Pernambuco, 2% do total geral de partos resultaram em bebês com suspeita de microcefalia, muito acima da taxa de 2 para 10 mil observada na Polinésia Francesa.
Para comparação, outras doenças infecciosas têm chance muito maior de causar má-formação, como a rubéola (38% ou mais) e o citomegalovírus (13%). Apesar da baixa taxa de complicações, o número de casos pode ser elevado por causa do alto volume de infecções, que ainda não tem boa estimativa no Brasil.

“Além disso, a pesquisa traz informação antiteoria da conspiração, para acalmar pessoas que acham que microcefalia por zika só acontece no Brasil.”

FALTOU
No estudo, os autores não consideraram a presença de sintomas mais graves, como a vermelhidão na pele, como um agravante para a chance de desenvolver microcefalia, associação realizada por estudos anteriores.

“Infelizmente isso não pôde ser integrado na nossa análise. É perfeitamente possível que risco seja mais alto nas mulheres com sintomas. Isso deve ser investigado adiante”, disse Cauchemez.

Curiosamente, na Polinésia Francesa não houve dificuldade em fazer o inquérito sorológico da população -avaliar os anticorpos que determinam se pessoas tiveram zika ou não. Houve um baixo índice de reação cruzada com dengue, que também afeta o território. Antes do surto chegar às ilhas, o índice de pessoas com anticorpos contra o vírus era de 0,8%.

O estudo também reforça a importância da infecção no primeiro trimestre. Quando essa característica era deixada de lado, havia piora da qualidade do modelo em se ajustar aos dados.

A estimativa, feita para o primeiro trimestre, não foi muito boa para infecções no segundo e no terceiro, embora a relevância de infecções neles não possa ser descartada com base no modelo. Outras pesquisas já reforçaram a característica de o primeiro trimestre ser aquele com maior susceptibilidade à infecção e consequentes más-formações.

Editoria de Arte/Folhapress

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